Perto dos olhos, mas longe do coração – PERIGO NO STF!, por pastor Zé Barbosa Jr.

"Um juiz que coloca a Bíblia acima dos livros e ordenamentos jurídicos que regem um país não entendeu nem a Bíblia nem os livros aos quais deveria se submeter"

A manchete, de cara, me chamou a atenção: “De olho em vaga no Supremo, ministros do STJ colocam Bíblia na mesa e falam em Deus e Jesus.” Era uma nota da colunista Denise Rothenburg, do “Correio Braziliense”. Diz a nota que logo após a declaração do atual presidente de que colocaria alguém “terrivelmente evangélico”, agora é moda uma Bíblia em cima da mesa e expressões como “Jesus te ama” nos corredores judiciais do Brasil.

Duas coisas me vêm à mente imediatamente: a música da Zizi Possi, “Perigo”, que falava “perigo é ter você perto dos olhos, mas longe do coração” (tá, a música fala de uma pessoa, mas aqui quero pensar na Bíblia sobre a mesa) e o texto do profeta Isaías, quando diz que Deus está “de saco cheio” do seu povo e afirma: “O Senhor disse: ‘Esse povo faz um grande show, dizendo as coisas certas, mas o coração deles não está nem aí para o que dizem. Fazem de conta que me adoram, mas é tudo encenação.’” (Isaias 29.13)

É isso mesmo! Pura encenação! E afirmo isso com a mesma audácia dos profetas da antiguidade que disseram coisas parecidas sobre os sacerdotes e juízes que enganavam o povo. Vejam esse discurso do profeta Amós, que era um camponês, um cuidador de rebanhos, um homem do campo: “Vocês odeiam aquele que defende a justiça no tribunal e detestam aquele que conta a verdade. Vocês pisam no pobre e o forçam a dar-lhes o trigo. (…) Pois sei quantas são as suas transgressões e quão grandes são os seus pecados. Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais.” (Amós 5:10-12). Sim, Amós estava, com a devida contextualização, denunciando os “terrivelmente evangélicos” de seu tempo.

A Bíblia não pode e nem deve ser a constituição de um país. Juízes sérios deveriam trabalhar debruçados sobre a Constituição Federal e os vários códigos jurídicos de nossa nação. A Bíblia é um livro de fé, e como tal deve ser interpretado. E mesmo assim, ainda cabem muitas interpretações, ou “hermenêuticas”, palavra comum aos cursos de Direito e Teologia.

Um juiz que coloca a Bíblia acima dos livros e ordenamentos jurídicos que regem um país não entendeu nem a Bíblia nem os livros aos quais deveria se submeter. Seu juízo é parcial e, ouso dizer, errôneo, pois se parte da Bíblia, já suponho que tenha uma interpretação equivocada do livro ao qual diz honrar pela fé. Falta interpretação. E, em muitos casos, caráter também.

Por fim, que as Bíblias saiam das mesas dos juízes e voltem a ocupar seus corações. Porque no dia que entenderem que o princípio básico desse livro, como o de todos os livros sagrados, é o amor, a equidade e a justiça feita a todos de forma igual e solidária, aí sim muita coisa pode mudar nesse país. Deus, seja ele quem for, está sempre ao lado do oprimido e explorado.

“Deixai correr livre o direito como um rio caudaloso, e a justiça como um ribeiro eterno!” (Amós 5.24). Que Deus nos livre dos juízes “terrivelmente evangélicos”.

Que assim seja!

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Zé Barbosa Junior

Teólogo, pastor da Comunidade Cristã da Lapa, escritor, membro do Comitê Estadual de Defesa da diversidade religiosa de MG