Por emprego, contra a carestia e a fome – Por Raimundo Bonfim

Agora, como no final da década de 1970 e começo da de 1980, movimentos populares das periferias de São Paulo voltam a se organizar contra a carestia

Agora, como no final da década de 1970 e começo da de 1980, movimentos populares das periferias de São Paulo voltam a se organizar contra a carestia. Diante do altíssimo número de desempregados e aumentos dos preços dos alimentos, do aluguel, do botijão de gás e das tarifas de energia, nessa virada de 2021 para 2022, retomamos na cidade de São Paulo, após mais de 40 anos, o MOVIMENTO CONTRA A CARESTIA.

A desigualdade social se aprofunda com a concentração da riqueza, sob a hegemonia do capital financeiro, e causa desemprego estrutural que, no Brasil, já atinge 13,5 milhões de trabalhadores. A fome já penaliza 20 milhões de pessoas no Brasil, país que é o terceiro produtor de alimentos do mundo. A carestia dos alimentos básicos tem piorado as condições de vida do povo, especialmente das camadas mais empobrecidas da população. 

Cada vez mais as pessoas têm dificuldade para se alimentar. A inflação acumulada de alimentos atingiu 11, 71% nos últimos 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Com a inflação dos alimentos e sem emprego, o povo não tem condições de pagar aluguel. Resultado: milhares são despejados e, sem alternativas, enchem as ruas, praças e se amontoam debaixo dos viadutos das cidades.

Cenas de pessoas desmaiando por falta de comida são cada vez mais frequentes. Há relatos de que todos os dias as Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) da cidade de São Paulo são procuradas por moradores com queixa de mal-estar, decorrente de fome, e que crianças, durante a consulta, pedem comida. Situação parecida também tem sido notada nas escolas, onde alunos passam mal porque vão para as aulas sem se alimentar.

O reajuste no preço dos alimentos chegou a 40% durante a pandemia, impactando mais severamente as famílias com renda menor. Para famílias com renda de um salário mínimo, o preço da cesta básica chega a consumir 65,32% dos ganhos mensais, de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Bolsonaro destruiu instrumentos responsáveis pela política de alimentação e regulação dos preços, como o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).  A situação social é gravíssima. O número de famílias sobrevivendo na extrema pobreza passa de 14 milhões: é o maior em seis anos.

O gás de cozinha, para muitos, foi substituído pelo fogão à lenha, e muitos acidentes com o uso do álcool para acender o carvão já foram registrados. Somente em 2021, o preço médio do botijão de 13 quilos aumentou 30%. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o preço da energia elétrica no Brasil já acumula uma alta de 24,97%, em 2021.

O desmonte de direitos e políticas sociais também contribuiu para o agravamento da crise social. Some-se a isso o crescimento do racismo, do machismo, fatores estruturais de desigualdade, além do genocídio da população indígena e negra, pobre e periférica.

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Infelizmente temos assistido cenas que nos causam indignação, como imagens de pessoas revirando lixo em busca de sobras de alimentos, nas filas de açougues a procura de ossos para retirarem restos de carne. No sertão do Nordeste, pessoas em disputa de carniça com urubus têm revelado, ao Brasil e ao mundo, a tragédia humana e social pela qual passam milhões de pessoas em todos os cantos de nosso país.

A situação de fome e pobreza deve piorar em 2022, tendo em vista que, até o mês de outubro, 37 milhões de pessoas recebiam Bolsa Família ou auxílio emergencial. A partir de agora, o Auxílio Brasil irá atender, no máximo 17 milhões de pessoas, excluindo, portanto, 20 milhões, que ficarão sem nenhuma renda para a sua sobrevivência básica. 

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Sem previsão de crescimento econômico para 2022, a tendência é o agravamento da fome e da miséria, piorando ainda mais as condições de vida do povo – que não terá outra saída a não ser se organizar e se colocar em luta, assim como o fez no Movimento Contra Carestia no final dos anos 1979 e início dos anos 1980.  

É nas periferias e nas comunidades favelizadas onde a fome mais pesa e impacta as pessoas. O povo não suporta mais tanta miséria, não aguenta mais ver aumentar a quantidade de bilionários enquanto passa fome. Comida tem, os supermercados estão cheios, o que falta é dinheiro para comprar e justiça social.

Panela vazia não, comida no prato sim. Queremos trabalho e salário dignos. Não aceitaremos morrer de fome. Para além do desemprego e da fome, uma multidão sobrevive nas cidades sem ter acesso à moradia, à saúde, à educação, à água, ao saneamento básico, e impactada pela destruição do meio ambiente e ausência de mobilidade urbana. As cidades são governadas sob a égide da especulação imobiliária, como se fossem meras mercadorias, colocando o lucro acima da vida. 

Há campanhas com o mote “Natal Sem Fome”, porém a verdade é que milhões de famílias chegam a este Natal desempregada e sem condições de comprar um simples presente para os filhos, parentes e amigos, tampouco preparar uma ceia de Natal.

Está tudo muito caro, e a culpa é do Bolsonaro, da falta de políticas sociais, de verdadeira democracia! É preciso revoar a PEC 95, que congelou investimentos nas áreas sociais por vinte anos; é preciso taxar as grandes fortunas e grandes heranças, de onde precisa sair o dinheiro para combater a fome, a desigualdade social e a geração de empregos. A fome não é natural. É decorrente de escolhas políticas de governos e do sistema capitalista que concentra lucro e joga milhões na absoluta pobreza.  

Por isso, ontem, 21 de dezembro, no centro e nas periferias de São Paulo, ecoamos nossa voz, batemos panelas vazias, levantamos faixas e cartazes para chamar atenção da sociedade para a grave crise social que assola milhões de pessoas e defender a necessidade de um novo governo e a mudança do modelo econômico.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Raimundo Bonfim

Raimundo Bonfim é advogado, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e membro da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP). Iniciou a militância nos movimentos populares em 1986, na Favela Heliópolis, a maior de São Paulo