Por que precisamos de uma Revolução dos Afetos?

Leia na coluna de Ingrid Gerolimich: "Contra o ódio não bastam somente argumentações baseadas na razão. Quem aqui já tentou argumentar com alguém cego pelo ódio? Conte como foi essa experiência, deu certo? Por isso é que se torna necessário trazer a discussão para o campo dos afetos, mostrando quais sentimentos nos aprisionam e quais nos libertam"

Recentemente lancei o curta-metragem Revolução dos Afetos, um filme que se inspira nestes tempos de isolamento social para falar sobre o tema da solidão, mas não somente sob o ponto de vista do afastamento entre nossos corpos como consequência da pandemia. O que busquei retratar, a partir dessa viagem pelo meu universo particular, é a solidão como consequência do modelo de sociedade em que vivemos, que baseia nossas relações sob a lógica da individualidade, promovendo um afastamento entre as pessoas para além do físico, porque nos aparta de tudo que reconhecemos de mais humano em nós e nos outros.

E, quando escolhi este título, Revolução dos Afetos, não foi só por achar que soaria bonito ou impactante, mas porque de fato acredito na urgente necessidade de falarmos sobre os afetos e da sua importância na construção de novas e melhores formas para um viver em sociedade, uma política dos afetos que desperte a potência que existe dentro de nós e seja capaz de fazer deste mundo um lugar mais acolhedor para todas, todos e todes.

Como sempre participei de movimentos políticos desde muito cedo, ao saberem do título do filme, algumas pessoas me perguntaram se não era algo ingênuo da minha parte falar em afetos como instrumento de luta política. Percebi que alguns pareciam curiosos em relação ao que poderia ter acontecido comigo, acho que pensaram que me tornei uma espécie de Pollyanna tardia dos trópicos. Relembrando: Pollyanna é a personagem do livro de Eleanor H. Porter, uma garota que enxergava tudo de maneira sempre positiva, mas de uma forma um tanto quanto ingênua e fora da realidade.

Não é que me tornei a Pollyanna Tardia dos Trópicos e nem acredito que com rosas se derruba tanques de guerras. É que a visão com a qual me identifico está mais relacionada com a ideia de Espinosa de que a constituição humana é atravessada pelos afetos e que, portanto, não há uma distinção entre eles e a mente, não há uma guerra onde a razão deve vencer os sentimentos. A distinção, na verdade, está entre os afetos passivos/reativos e os afetos potentes, e, veremos adiante a maneira como eles interagem nas relações humanas.

O medo, o ódio e a tristeza também são afetos, só que negativos. Os afetos positivos são considerados potentes, pois são aqueles capazes de expandir a plenitude da nossa existência para dentro e para fora de nós, como o amor. Já os afetos negativos, passivos/reativos são aqueles que nos privam da nossa liberdade de estar inteiramente no mundo, como o medo e a tristeza, contraindo nosso horizonte e nos afastando de nós mesmos e dos outros, nos mantendo apenas reativos ao que vem do universo externo ao invés de nos permitir sermos protagonistas da nossa própria história.

A solidão é um bom exemplo disso. A solidão tal qual vivemos na nossa sociedade é resultante de um afeto principal, o medo. Ao vivermos em uma esfera social que estimula a competição e desconfiança entre nós, que faz com que tenhamos o outro como um adversário, é o medo quem irá assumir o papel de destaque em nossas vidas. Como reflexo disso, o distanciamento e a solidão passam a ser uma forma de nos protegermos.

E do medo nasce o ódio, que vem como um mecanismo também de proteção humana que busca extinguir o que se considera a causa do medo e da infelicidade. E contra quem geralmente esse ódio é direcionado? Contra tudo o que é desconhecido, diferente e distante da realidade de quem odeia. O ódio nasce desta desconexão das relações humanas que faz com percamos o senso de comunidade e nos sintamos em completo desamparo diante do mundo. E é deste ressentimento que figuras oportunistas como Bolsonaro e Trump emergem com seus discursos de ódio desumanizante contra grupos sociais, formando uma psico-política do medo e do ódio.

Contra o ódio não bastam somente argumentações baseadas na razão. Quem aqui já tentou argumentar com alguém cego pelo ódio? Conte como foi essa experiência, deu certo? Por isso é que se torna necessário trazer a discussão para o campo dos afetos, mostrando quais sentimentos nos aprisionam e quais nos libertam. O medo, o ódio, a tristeza, e todos os afetos que nos afastam das nossas potencialidades e do convívio harmônico com outros seres humanos, nos colocam em prisões de dominação exercida por este sistema sobre nós.

Publicidade

Mas, não se trata de reprimirmos os afetos negativos ou suprimi-los através da razão e sim de compreendermos como eles atuam dentro de nós e na nossa relação com o mundo, abraçando os aprendizados que eles nos trazem sem nos deixarmos dominar por eles. Por isso, a Revolução dos Afetos é também uma revolução de sabedoria, capaz de dar voz aos afetos que nos libertam das amarras dessa psico-política que nos subjuga através do medo, do ódio e da tristeza, despertando em nós toda a potencia até então sufocada, potencia esta que carrega em si todos os elementos necessários para a nossa transformação pessoal e coletiva através do amor, da alegria e da solidariedade. Que venha então a Revolução dos Afetos!

Por fim, gostaria de convidar a todes vocês para assistir ao curta-metragem Revolução dos Afetos lá no IGTV do meu perfil no Instagram: @ingridgerolimich . Espero que gostem! E, se gostarem, compartilhem essa ideia!

Publicidade

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

Avatar de Ingrid Gerolimich

Ingrid Gerolimich

Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.

Você pode estar junto nesta luta

Fórum é um dos meios de comunicação mais importantes da história da mídia alternativa brasileira e latino-americana. Fazemos jornalismo há 20 anos com compromisso social. Nascemos no Fórum Social Mundial de 2001. Somos parte da resistência contra o neoliberalismo. Você pode fazer parte desta história apoiando nosso jornalismo.

APOIAR