A potência da sororidade – Por Ana Beatriz Prudente Alckmin

Apesar de ser o grande vilão, o entendimento sobre o que é, de fato, o patriarcado, não é tão claro para nossa sociedade, exatamente porque a ignorância sobre suas estruturas é uma ferramenta de manutenção do seu poder

Imagem: My Scoop (Reprodução)
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Como todos sabem, somos criadas em um mundo extremamente machista, patriarcal e injusto para as mulheres. É por conta disso que existe a sororidade, uma palavra que vem do latim, sendo sóror equivalente a irmãs. Mas, muito mais que apenas uma palavra, a sororidade é um sentimento de solidariedade que precisa existir entre as mulheres, independentemente da classe social, raça ou orientação sexual. Esse sentimento independe, inclusive, de qual vertente do feminismo que participamos – a sororidade é consenso. Seu conceito, apesar de parecer simples, é mais complexo do que podemos avaliar à primeira vista.

Para iniciar a discussão, precisamos trazer um ponto extremamente importante para a luta feminista: o empoderamento feminino. Falar sobre isso é extremamente complexo, principalmente partindo do princípio que são vários os fatores que influenciam a maneira como nós mulheres somos enxergadas pela sociedade. Atrevo-me a dizer, inclusive, que o principal aparato de opressão a que somos submetidas é o patriarcado.

Apesar de ser o grande vilão apontado nos estudos feministas, o entendimento sobre o que é, de fato, o patriarcado, não é tão claro para nossa sociedade, exatamente porque a ignorância sobre suas estruturas é uma ferramenta de manutenção do seu poder. Não obstante, por meio de uma observação simples, podemos perceber o quanto a influência das estruturas patriarcais são hegemônicas e nocivas para as mulheres.

Por exemplo, já se questionou o porquê de qualquer estrutura de poder ser composta, majoritariamente, por homens? Essa é uma pergunta importante, já que o padrão masculino, embranquecido e heteronormativo se repete em quase todos os contextos que podemos citar. Podemos perceber esse padrão em diversas circunstâncias – da liderança de uma empresa multinacional, ao nosso governo, todas as estruturas são pensadas para conservar o status quo da sociedade, onde os homens são dominantes e as mulheres dominadas.

Fora isso, nós mulheres também temos que lidar com a busca constante por autoaceitação e a luta perene contra a misoginia, inclusive, vinda de nós mesmas, quando não conseguimos compreender que nossos duelos de imagem são provenientes de uma cultura machista e, por conseguinte, passamos a tentar nos encaixar em padrões.

Culturalmente, o corpo feminino é interpretado como um corpo-objeto que, sob linhas gerais, é um corpo que deve ser criado e cultivado para agradar à masculinidade. Somos colocadas em moldes de corpo, vestimentas e comportamento que são ajustados para se encaixarem na nossa sociedade patriarcal, criando diversas crises de identidade feminina.

Entretanto, na medida que nossos corpos são públicos, nossas vidas são privadas. A partir do momento em que um homem "nos escolhe" (e, por conseguinte, segundo o contexto machista que estamos inseridas, toma posse sobre nossa existência), precisamos nos recatar às atividades domésticas, ligadas ao cuidado da casa e dos filhos. Este papel nos é imposto desde a infância – até pela maneira de brincar, a masculinidade quer regular meninas e treiná-las para se encaixarem em uma performance de feminilidade que agrade e sirva ao masculino

Apesar de ser uma relação extremamente injusta, é possível entender de onde ela vem – precisamos apenas voltar ao ponto da cultura. As mulheres não estão no poder e o repertório da sociedade é alimentado apenas por figuras masculinas. Podemos olhar, inclusive, para nossa própria história, que foi escrita e pensada por homens. Nossos heróis e pensadores são homens, ao passo que as heroínas e pensadoras de nossa história foram suprimidas e apagadas, exatamente por serem mulheres que demonstraram características associadas apenas à masculinidade.

No fim das contas, o machismo, dentre vários efeitos patológicos que produz na sociedade, tem a função de regulamentar a identidade feminina. Em outras palavras, as estruturas patriarcais ditam regras sobre os comportamentos, visuais e até sobre a compreensão de pertencimento feminino, tentando criar um padrão “ideal” de existência para as mulheres - padrões estes que influenciam a maneira como as próprias pessoas do sexo feminino se enxergam.

Este é o motivo de ambientes femininos serem comumente muito competitivos, onde a rivalidade é exacerbada através de julgamentos de vestimenta, formato do corpo e comportamentos. A mulher é engraçada? Quer chamar atenção. Está vestida com roupas ajustadas ou curtas? Tenho dúvidas sobre seu caráter. Não pretende ter filhos? É infeliz, incompleta.

Para compreender melhor como essas estruturas criadas são injustas, podemos fazer as mesmas perguntas tendo como o objeto uma pessoa do sexo masculino. É evidente que as respostas para as perguntas mudam. Por isso, podemos deduzir que as atitudes que são entendidas como objetos de valor quando atreladas à figura masculina, são colocadas como motivos para rechaçar e rebaixar figuras femininas. E o mais triste disso tudo é perceber que esse juízo pode partir de outra mulher, que também sofre com as estruturas machistas da sociedade.

Por isso, nem sempre uma mulher, ao olhar para outra mulher, consegue desenvolver um vínculo empático, ao ponto de existir uma rede de apoio entre nós. É daí que vem a complexidade de se falar de empoderamento, porque, ao mesmo tempo que é um movimento de dentro pra fora, é um movimento de fora pra dentro. De dentro pra fora porque, ao nos empoderarmos, podemos questionar as correias de opressão que nos prendem. E de fora pra dentro, porque é extremamente difícil fazer isso sem o apoio de outras mulheres – diferentes de nós, mas rumando a um mesmo objetivo.

Isto posto, essa cultura de competição entre mulheres precisa ser quebrada. Precisamos entender que criar redes de apoio entre as mulheres nos leva a alcançar espaços e objetivos comuns. Por exemplo, um hábito que acho horroroso, mas comum nos ambientes femininos, é criticar o corpo e roupas de outra mulher. Não somente esta atitude é extremamente deselegante, como também é uma das piores manifestações machistas que existem.

Quem disse que todas as mulheres precisam ser magras? Quem disse que todas as mulheres precisam se vestir de determinada forma? Quem ditou estas regras? Com certeza foram pessoas que não respeitavam a diversidade que existe dentro do movimento feminino.

Eu fico muito triste quando ouço uma mulher criticando o corpo da outra, ou a forma como a outra se veste. É nesse momento que podemos trazer a sororidade de volta ao palco para ser nossa aliada na hora de empoderar outras mulheres. Para nos ajudar, principalmente, a respeitar a forma que qualquer mulher se apresenta perante a sociedade - seu estilo, seu corpo e sua identidade.

Em um mundo que estimula a competição das mulheres por beleza (que parece ser o único atributo importante quando falamos sobre mulheres), ter sororidade é um ato revolucionário. Ao apoiar o trabalho de uma mulher, por exemplo, devolvemos a voz que o patriarcado está tentando roubar. Podemos fazer isso lendo mulheres, elegendo mulheres e até dando oportunidade para mulheres dentro de nossos locais de influência.

Não podemos deixar que a competitividade feminina, plantada por uma cultura machista e misógina, continue abrindo brechas entre as mulheres. Precisamos nos unir – e a sororidade é a cola que nos mantém juntas, fortes e irreprimíveis.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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