O professor que quer construir mundo mais justo se tornou pária – Por Raphael Fagundes

Atualmente o professor vive numa condição de degradação que nunca enfrentou antes

De acordo com o que se sabe, o Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, foi criado em 1963 por João Goulart e faz uma referência a d. Pedro I, que, no dia 15 de outubro de 1827, emitiu uma lei sobre o Ensino Elementar que “manda criar escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império”.

Atualmente o professor vive numa condição de degradação que nunca enfrentou antes, que faz parte, porém, de um processo capitalista que tem um único fim: o aumento da produtividade.

De acordo com Neil Postman, foi Richard Arkwright quem desenvolveu o sistema de fábricas, abrindo o caminho para a mecanização da sociedade. “Em suas usinas de produção de tecido de algodão, Arkwright treinava operários, a maioria crianças, ‘para se amoldarem à celeridade regular da máquina’”.[1]

A necessidade de crescimento a longo prazo fez o capitalismo desenvolver a tecnologia. Criou uma relação de trabalho que encobre o conflito de classe por meio de uma lógica racional, na qual a palavra chave é a eficiência. O “objetivo  principal, se não o único, do trabalho e do pensamento humano é a eficiência; que o cálculo técnico é, em todos os aspectos, superior ao julgamento humano”. Esta visão pode ser encontrada na obra de Taylor, Princípios de Administração Científica, e marca o início do tecnopólio.[2]

A Escola de Chicago desenvolveu então o conceito de “escolha racional” que nada mais é do que eficiência, ou seja, chegar ao objetivo com o menor custo possível e no menor prazo de tempo. O ser humano depois que desenvolve uma técnica não precisa mais pensar, e sim deixar a técnica pensar por ele.

A educação passa a formar pessoas que saibam agir dentro das técnicas desenvolvidas pelos tecnocratas das empresas que buscam uma maior eficiência na produção. “Nesse contexto, os objetivos do capital humano para a educação se sobrepõem aos outros objetivos educacionais, tais como a justiça social, as melhorias ambientais, a participação política e a consciência cidadã”.[3]

As escolas, nos seus primórdios, foram criadas para organizar, limitar e discriminar o excesso de informação causada pelo advento da imprensa.[4] Hoje, num mundo onde a venda da informação é um imenso mercado, essa função se perdeu. Não daria nem mesmo para a escola competir com as redes sociais que abriu um imenso espaço para ideias sem fundamento e distorcidas que procura curtidas. O sistema não se importa mais com a filtragem da informação, mas apenas com o seu consumo.

A escola não é mais o lugar apropriado para se debater as informações que os alunos consomem no mundo social, mas um local de fabricação de “trabalhadores obedientes para o capital industrial”. Neste esquema, “os professores são com frequência retratados como estando presos em um aparelho de dominação que funciona com toda a precisão de um relógio suíço”.[5]

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O professor como intelectual transformador é uma figura cada vez mais obsoleta. Ele se tornou o funcionário de uma empresa especializada em produzir instrução. A formação dos docentes já está apontando para um caráter “aligeirado e tecnicista” visando a desmobilização e despolitização dos futuros professores. É promovida uma “gestão do trabalho docente baseada no desempenho individual” esgarçando o sentimento de solidariedade de classe. Já existem plataformas como Graduate XXI, na Argentina, Tutor.com, nos EUA, e TutorHub, na Inglaterra, e Superprof.com.br, no Brasil, que “disseminam as vantagens de ser um/a professor/a uberizado/a”. Assim, “os docentes efetivos têm dado lugar a docentes prestadores de serviços contratados”.[6] Há algum tempo, explica Michael Apple, muitos defendem que “só obrigando as escolas a entrarem num mercado competitivo é que vai haver algum tipo de melhoria”.[7]

O professor visualizado por Paulo Freire, aquele que contribui para a construção da consciência de classe a partir da relação entre opressor e oprimido, é cada dia mais criticado, pois o modelo proposto por corporações econômicas mundiais, como o Fórum Econômico Mundial e o Banco Mundial, visa transformar pessoas em capital humano. Os exames internacionais como o PISA, procura avaliar qual país pode fornecer a mão de obra mais adequada para os interesses das multinacionais. É deste jeito que o espaço das ciências sociais no currículo vai ficando cada vez mais medíocre. Essas são as questões que devem ser levada em conta ao pensar o Dia dos Professores, e não uma mera homenagem vazia. Cada vez mais perdendo o seu valor social e se transformando em uma peça que move a engrenagem da gigantesca máquina capitalista, o professor, para ser homenageado, precisa ser pensado como o protagonista na construção de uma sociedade mais justa.

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[1] POSTMAN, N. Tecnopólis. São Paulo: Nobel, 1994, p. 50.

[2] Id., p.60.

[3] SPRING, J. Como as corporações globais querem usar as escolas para moldar o homem para o mercado. Campinas, SP: Vide, 2018, p. 21.

[4] POOSTMAN, p. 71.

[5] GIROUX, H. Os professores como intelectuais. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997, p. 27.

[6] PREVITALI, F. e FAGIANI, C. Trabalho digital e educação no Brasil. ANTUNES, R. (Org.). Uberização, trabalho digital e Indústria 4.0. São Paulo: Boitempo, 2020, p. 232.

[7] APPLE, M. Educação à direita. São Paulo: Cortez, 2003, p. 2.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum.

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Raphael Silva Fagundes

Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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