Quem ouvirá (e entenderá) o recado das urnas?

Leia na coluna de Rodrigo Perez: Um país colapsado, com índices de miséria, desemprego e violência galopantes. As pessoas começam a se convencer que guerra ideológica não coloca comida no prato e cada vez mais desejam respostas concretas para problemas concretos.

No Brasil, as eleições municipais acontecem sempre na metade do mandato do presidente e dos governadores, colaborando para nacionalização das discussões locais, o que é especialmente verdadeiro nas grandes capitais.

Isso não significa, é claro, que as eleições municipais não tenham lá suas especificidades. Costumam ser menos sensíveis às questões mais abstratas, doutrinárias e ideológicas. Ainda assim, servem como termômetro para visualização de tendências que costumam ser confirmadas no ciclo eleitoral posterior.

Como as eleições municipais de 2020 nos ajudam a antecipar os movimentos que nos levarão até à eleição presidencial de 2022?

A energia política disruptiva que elegeu Bolsonaro em 2018 parece ter arrefecido. Nunca é demais lembrar que, antes de derrotar o PT, Bolsonaro derrotou, dentro do campo conservador, a direita tradicional, até então hegemonizada pelo PSDB. Geraldo Alckmin, candidato tucano, foi destruído a tal ponto que nunca mais deu as caras. Ninguém sabe, ninguém viu.

O mapa eleitoral desenhado nestas eleições municipais de 2020 aponta para a recuperação da velha direita, ou da “direita democrática”, termo que, depois do bolsonarismo, passou a fazer parte de nosso vocabulário político.

DEM, PSDB, PMDB e PSD foram os vitoriosos. A “velha política” mostrou que ainda está viva.

Recortando as capitais, Bolsonaro só conseguiu emplacar duas candidaturas: a do Capitão Wagner, em Fortaleza, e de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro. Ambos chegam ao segundo turno em condições bastante desfavoráveis, com grandes índices de rejeição. Se nada muito diferente acontecer, serão derrotados.

Mas não foi só Bolsonaro que sofreu revés nestas eleições. O PT experimentou aquela que talvez tenha sido a maior derrota de sua história. Pela primeira vez, o partido foi derrotado dentro do próprio campo. PSOL, PDT, PCdoB e PSB superaram o PT em capitais importantes, como Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belém.

O PT, muito provavelmente, não vencerá nenhuma capital, apesar de disputar em Recife e Vitória. Ganhou cidades de médio e pequeno porte, o que não é algo a se desconsiderar. O PT continuará sendo player relevante na política nacional, mas é inegável que o lavajatismo venceu. O partido que, quando no governo, fez nascer o melhor Brasil possível, foi engolido pela sociedade que ajudou a criar.

É um ciclo de derrotas que começou em 2016 e de lá pra cá só vem se aprofundando. Cada vez mais, o PT se torna um partido insulado no Nordeste e com alguma relevância nas eleições legislativas, mas completamente varrido do Sul/Sudeste, o cinturão demográfico mais importante do país.

O que tudo indica é que a sociedade está recusando a polarização Bolsonaro X PT, demandando por outras alternativas.

É isso: a sociedade está gritando por outras alternativas!

Um país colapsado, com índices de miséria, desemprego e violência urbana galopantes. As pessoas começam a se convencer que a guerra ideológica não coloca comida no prato e cada vez mais parecem desejar respostas concretas para problemas concretos.

Para o campo progressista, as urnas parecem estar dizendo duas coisas:

1°) O identitarismo importado dos EUA demonstra desempenho eleitoral sofrível. Todas as candidaturas majoritárias que trouxeram a questão da diversidade ao primeiro plano de suas narrativas eleitorais esbarraram em teto muito baixo. Não tenho dúvidas de que o Brasil é país estruturalmente racista, machista e homofóbico. Porém, pelo menos no momento eleitoral, a sociedade, simplesmente, não está interessada nessa discussão. Que os estudiosos expliquem a contradição. Liderança política comprometida com a democracia, em eleição, só deve pensar em vencer, em governar, em melhorar, através de políticas públicas, a vida daqueles que mais precisam do Estado. Campanha eleitoral não é pra ser representativa, colorida e bonita. É pra ser vitoriosa.

2°) É urgente a formação de uma frente ampla de esquerda, sem o protagonismo do PT, o que não significa que deva ser sem a presença do PT. O antipetismo se tornou a narrativa mais perversa da semântica da crise da IV República. O PT, hoje, é espantalho eleitoral que ajuda a eleger os sabotadores da democracia.

Se as lideranças progressistas escutarem, e entenderem, o recado, talvez seja possível a construção de uma frente ampla capaz de conduzir o Brasil no caminho de um novo pacto democrático. Se não entenderem, o máximo que conseguiremos será substituir Bolsonaro por uma direita “limpinha”, maquiada, que, sim, é melhor que o fascismo, mas está longe de ser aquilo que nossa gente precisa.

A vida de Bolsonaro também não está fácil. A constante agitação fascista é útil para manter a base orgânica mobilizada, mas a longo a prazo tende a estafar a maioria da população. Em 2022, ele não será mais o outsider da democracia. Já será cobrado pelo seu próprio governo. Precisará responder pelos resultados de seu próprio governo.

O ideal para Bolsonaro seria moderar o tom e se comportar como um presidente de direita normal, como outros tantos que há pelo mundo, e que já tivemos aqui no Brasil também. Neste ano de 2020, ele até ensaiou a mudança, mas não durou muito tempo. A moderação não faz parte do temperamento dele, é incompatível com a energia política que lhe fez deixar de ser deputado de baixo clero para se tornar presidente de um dos países mais importantes do mundo. No fundo, Bolsonaro sabe que a ruptura institucional é sua maior chance de perpetuação no poder. Continuará investindo nisso.

Até outubro de 2022 muita coisa vai acontecer e qualquer previsão é um tantinho torcida. Expectativa mesmo. Faz parte da análise também. O que me parece claro é que sairão na frente aqueles que melhor escutarem, e entenderem, o que as urnas falaram neste novembro de 2020.

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Rodrigo Perez Oliveira

Nasceu no Rio de Janeiro em 30/01/1986, é historiador, tendo se formado na educação pública das primeiras letras ao doutorado. Vivendo em Salvador desde 2017, onde atua como professor de Teoria da História na Universidade Federal da Bahia, o autor pesquisa a história do pensamento político brasileiro e os usos do passado no texto historiográfico e nas narrativas políticas, temas que foram explorados nos livros “As armas e as letras: a Guerra do Paraguai na memória oficial do Exército brasileiro”, publicado pela editora Multifoco em 2013, e “Conversas sobre o Brasil: ensaios de síntese histórica”, pela editora autografia em 2017.

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