Raphael Silva Fagundes

13 de março de 2019, 16h14

Se queremos ser como os “americanos”, estamos no caminho certo

Em novo texto para sua coluna, Raphael Silva Fagundes diz: “Vamos copiar os EUA, mas a verdade é que ficaremos apenas com a parte ruim. Não há política para conter o uso ilegal de armas”

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Lembro que à época da eleição alguém discutiu comigo que o brasileiro precisava aprender a planejar, pois o 13° e as férias deveriam, sim, ser exterminados. Detalhe: ele era um assalariado.

Jair Bolsonaro venceu as eleições e o sonho do seu superministro é de fato acabar com tais direitos trabalhistas. Quer imitar a economia americana, onde o trabalhador tem poucos direitos. Mas será que o nosso salário mínimo vai aumentar para 1.200 dólares?

O presidente, por sua vez, faz tudo exatamente igual ao presidente norte-americano. Se Trump mente em suas declarações, Bolsonaro faz o mesmo; se aquele promove um ataque à mídia, este também o faz; até o fato de o filho ser protagonista do governo é uma cópia, já que nos EUA o genro e a filha de Trump assumem o Twitter e falam em nome do patriarca da família.

Bolsonaro facilitou o porte de armas inspirando-se nos EUA, onde há mais de 300 anos essa prática é comum. Mas não importa as contradições locais, o Brasil deve ser como os EUA. Agora, temos até desequilibrados invadindo escolas e atirando. Vamos copiar os EUA, mas a verdade é que ficaremos apenas com a parte ruim. Não há política para conter o uso ilegal de armas, pelo menos não houve nenhuma medida adotada até agora. O que há é uma política para a sua distribuição.

É interessante. Como aconteceu na Tanzânia com a imposição neoliberalista nos anos 1980 e 1990, aqui o governo quer desnacionalizar a própria noção de nacionalismo. Copiando de forma incongruente o modelo americano, seja econômico, seja politiqueiro, os “novos” políticos que chegaram ao Planalto da Alvorada querem afundar o país, introduzindo uma realidade adversa.

Vou buscar apoio em sociólogos reacionários, como Peter Berger e Thomas Luckmann, apenas para falar a língua desse governo. A realidade predominante é a da vida cotidiana. Outras realidades se impõem, mas sempre somos obrigados a retornar à realidade cotidiana. O que nos permite ter a compreensão de outras realidades é a linguagem. A realidade virtual, o transe religioso, as descobertas astrofísicas sobre o tempo, todas dependem de uma linguagem extraída do cotidiano para que possamos atribuir um sentido. Os conservadores vêm fazendo de tudo para mexer nessa linguagem e impor um sentido para que, assim, possamos descrever a nossa realidade com os instrumentos linguísticos que descrevem a realidade norte-americana. Isso é aplicado à política, à economia, à cultura e às demais esferas do mundo social. Logo, as soluções de lá serão as mesmas daqui. Por isso que o Major Olimpo disse que se os professores estivessem armados a tragédia de Suzano poderia ter sido evitada. Desta maneira vamos fechando os olhos para as verdadeiras contradições que assolam a realidade brasileira.

O Brasil precisa mudar, sim, mas não adotando um modelo externo sem olhar para a lógica interna, o que já foi feito várias vezes e nenhuma deu certo. Contudo, estamos fadados a nos repetir, uma farsa que busca impedir a verdadeira transformação: quando ocorre a ascensão das classes desfavorecidas.

O discurso de Paulo Guedes que afirma: “Eu gostaria de vender tudo”, é uma abertura para o capital estrangeiro dominar o país, assenhoreando-se das riquezas naturais e humanas. Mas por trás disso vem o discurso de que o Brasil está acima de tudo. De Vargas para cá, a noção de patriotismo mudou muito.

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