Valerio Arcary

20 de julho de 2019, 09h25

Seis meses de Bolsonaro: três debates e três perspectivas atravessam a esquerda

Valerio Arcary: “os três principais debates são a natureza da derrota que a esquerda sofreu; a caracterização do governo; e qual deve ser a tática diante de Bolsonaro”

Foto: Marcos Corrêa/Divulgação Presidência

Seis meses depois da eleição de Bolsonaro são três os principais debates que atravessaram a esquerda no primeiro semestre. Eles nos remetem a três temas decisivos: (a) a natureza da derrota que a esquerda sofreu; (b) a caracterização do governo; (c) e qual deve ser a tática diante de Bolsonaro.

Diante de cada uma destas questões foram formuladas, essencialmente, três posições coerentes:

(a) a eleição de Bolsonaro deve ser avaliada somente como uma derrota eleitoral, portanto, circunstancial e transitória? Ou, ao contrário, podemos considerar que já ocorreu uma derrota histórica, portanto, devastadora, com consequências duradouras? Entre as duas posições, estão aqueles que aceitam que foi muito mais grave que uma derrota eleitoral, e reconhecem uma derrota político-social que abriu uma situação reacionária, mas argumentam que não deve ser comparada com uma derrota histórica, como a vitória do golpe em 1964;

(b) o governo de Bolsonaro deve ser avaliado como um governo normal de alternância dentro do regime democrático-eleitoral? Ou os primeiros seis meses confirmam que Bolsonaro seria incompatível com o regime semipresidencialista, e já está em desenvolvimento uma mudança autoritária com um novo equilíbrio de forças entre as instituições? A terceira hipótese defende que Bolsonaro não é uma continuidade da política do governo Temer com “extravagâncias”, ou seja, é um governo de extrema direita com ambições bonapartistas, mas ainda não subverteu o regime.

(c) a melhor deve ser a ofensiva permanente, conhecida na tradição da III Internacional como a tática húngara, por ter sido defendida por Bela Kun no congresso de 1921, sob a bandeira Fora Bolsonaro, greve geral, porque o agravamento da crise econômica e social abre a possibilidade da derrubada iminente do governo. Ou deve ser a tática da social democracia alemã, formulada por Kautsky há mais de cem anos: o quietismo, ou a construção de uma frente de oposição o mais amplo possível no Congresso Nacional, liderada pelas forças burguesas comprometidas com a defesa do regime democrático, aguardando as próximas eleições. Finalmente, a terceira posição é a defesa da tática russa, defendida por Lenin e Trotsky para a Alemanha no mesmo Congresso de 1921, ou tática do desgaste permanente, ou da frente única, ou ainda da guerra de posições, na formulação do italiano Gramsci: acumular forças nas mobilizações de resistência, até que uma mudança na relação de forças permita sair da defensiva e passar ao contra-ataque.

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Quem avalia que já aconteceu uma derrota histórica, defende que Bolsonaro já deslocou ou está em vias de subverter o regime semipresidencial, e privilegia a tática quietista de construção da mais ampla Frente de oposição, apostando em uma possível vitória eleitoral, pelo menos em algumas grandes cidades, já em 2020.

Quem pensa que a derrota foi, essencialmente, eleitoral, caracteriza Bolsonaro como um governo de alternância limitado pelos freios e contrapesos do Congresso e do STF, e defende a tática da ofensiva permanente para derrubá-lo.

Quem pondera que não ocorreu derrota histórica, mas tampouco se deve reduzir o impacto das derrotas acumuladas desde 2015/16 a uma derrota eleitoral, define o governo Bolsonaro como uma coalizão de quatro correntes de extrema direita com um projeto bonapartista ultrarreacionário que é uma ameaça às liberdades democráticas, e defende a tática do desgaste permanente, ou da frente única.

Há muita coerência interna em cada uma dessas três posições. Mas só uma delas é correta. Os três partidos de esquerda mais influentes no Brasil são o PT, o PSOL e o PCdoB estão divididos sobre estes temas. Não são os únicos, evidentemente, mas pela dimensão de sua implantação social, força eleitoral e capacidade de iniciativa política são os maiores. Outras organizações da esquerda, como o PSTU, o PCB, e a Unidade Popular têm graus variados de influência e, também, são muito mais homogêneas.

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Não deixa, portanto, de ser curioso que estas três respostas estão, igualmente, presentes nos três principais partidos, ainda que com influência e peso diferenciados em cada um deles. Tanto no PT, no PSOL quanto no PCdoB há quem defenda a tática alemã, a tática húngara e a tática russa.

No PCdoB prevalece a primeira posição, embora as outras estejam presentes. Por isso, votaram a favor de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. No PT há uma cacofonia estratégica. Por isso, apesar da maioria da bancada ter chamado ao voto em Freixo, e o Diretório Nacional ter fechado questão contra a reforma da Previdência, um terço da bancada seguiu o PCdoB no apoio a Maia, e os governadores entraram na negociação da reforma. E não faltaram até alguns que, há alguns meses, especularam com uma possível queda antecipada de Bolsonaro.

No PSOL prevalece a tática do desgaste permanente. Mas há, também, defensores das duas outras posições, sobretudo, da tática da ofensiva permanente.

Sendo este o quadro do debate não surpreende que haja, também, muita confusão. O que prevalece na esquerda brasileira ainda é o empirismo, a oralidade, a improvisação. Porque não são poucos aqueles que se apropriam de um balanço da derrota, que não é compatível com a caracterização do governo, e menos ainda com a tática para enfrentá-lo.

Não faz sentido, por exemplo, defender que ocorreu uma derrota somente, eleitoral, porque Haddad teve quase cinquenta milhões de votos, e defender, ao mesmo tempo, que o regime da Nova República desmoronou. Se o regime foi subvertido, é porque a relação de forças entre as classes, e as relações políticas de força entre partidos e instituições evoluiu tão mal, mas tão mal, que não é possível simplificar a vitória de Bolsonaro como um acidente eleitoral.

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Ou aqueles que defendem uma tática política que não é compatível com a avaliação do balanço. Não faz sentido, por exemplo, defender a tática da ofensiva permanente, mas avaliar que aconteceu uma derrota histórica.

Por último, por que o PDT e o PSB não são considerados nesta análise? Há uma enorme e, talvez, insolúvel controvérsia de critérios para definir o que é ser de esquerda, mas há, também, uma régua marxista para a classificação dos partidos. Entre outros critérios, a natureza social e a identidade ideológica. PT, PSOL e PCdoB são os partidos que, historicamente, conquistaram maior representação entre os trabalhadores e o povo, e reivindicaram, de alguma forma, o socialismo como referência programática.

Assim como não devemos julgar as pessoas pelo que pensam de si mesmos, não podemos avaliar os partidos somente pelo que dizem sobre si próprios. O PDT teve quatro candidatos a governador no segundo turno em 2018: Waldez Góes (Amapá), Amazonino Mendes (Amazonas), Odilon Oliveira (Mato Grosso do Sul) e Carlos Eduardo (Rio Grande do Norte). Desses, três passaram a apoiar o neofacista Bolsonaro: Amazonino Mendes, Juiz Odilon e Carlos Eduardo. PDT e PSB chegaram a ter, respectivamente, 30% e 34% de apoios à reforma da previdência apresentada pelo governo Bolsonaro, em suas bancadas de deputados federais. A candidata de Ciro Gomes a vice-presidente foi Kátia Abreu, uma liderança orgânica do agronegócio.

PSB e PDT se apresentam como de esquerda, mas não são. São partidos eleitorais ecléticos, com trajetórias imprevisíveis, composição político-social errática e, ideologicamente, inconsistentes. Alguns os definem como de centro-esquerda, mas mesmo essa caracterização ligeira parece precária, quase leviana. PSB e PDT operaram nas últimas décadas, essencialmente, como legendas de aluguel.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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