Sidney Poitier: a cor da igualdade – Por Normando Rodrigues

Certas biografias oferecem lições úteis à campanha contra o monstro que flagela o Brasil de 2022. Mas o aprendizado é ameaçado pela feroz intenção fascista de apagar a história

De escravos

No dia seguinte ao 1° aniversário da tentativa de golpe de estado de Donald Trump –  crime que o Partido Republicano deseja apagar de sua folha corrida – faleceu o ator Sidney Poitier.

Sidney morreu em casa, em Nassau, Bahamas, colônia britânica na época em que lá cresceu, filho de pobres agricultores de tomates, descendentes de escravos fugidos das plantations de cana de açúcar do Haiti.

O sistema de plantation, latifúndio de monocultura organizado em função da exportação, foi o determinante da escravidão nos países periféricos, assim como seus equivalentes no agropop de hoje determinam relações de trabalho destituídas de direitos, que fascistas e neoliberais chamam de “modernas”.

Miami

Poitier deixou a escola aos 12 para ajudar os pais. Anote aí o “bem sucedido” trabalho infantil, romantizado por meritocratas das cavernas, alvo de pretensões retrógradas da idiocracia que nos governa.

Outro “exemplo” comumente distorcido veio em seguida, quando aos 15 anos Sidney se juntou a um irmão mais velho, em Miami. “Escolheu a terra das oportunidades!”, diriam liberais e fascistas ignorantes do que seja escapulir da pobreza

No entanto, o rapaz cedo se incompatibilizou com o segregacionismo sulista e partiu rumo à Nova Iorque de 1943, capital cultural de uma América radicalmente empenhada no combate à ideologia de Bolsonaro.

Publicidade

Pratos

Sem dinheiro algum, Poitier lavou pratos e dormiu em rodoviárias. A fim ingressar na arte dramática, superou a falta de escolaridade lendo jornais velhos e pagou as aulas sendo faxineiro gratuito da instituição.

Publicidade

Aqui os apologistas do individualismo vibram! Foi o mérito, o esforço de Sidney, o que lhe abriu as portas da carreira. Esquecem apenas de um único e indispensável detalhe:

Toda a notável persistência de nosso personagem, em busca do sonho de virar ator, daria em nada se não existisse o curso de teatro do movimento negro, no bairro do Harlem.

Arte e emancipação

Revelado pelo teatro negro, Poitier estreou no cinema em 1950, com o filme “O ódio é cego” (“No way out”) de Joseph L. Mankiewicz.

Na trama, Sidney atuou no papel de um cirurgião negro chamado a socorrer um de dois irmãos racistas, baleado enquanto a dupla roubava um posto de gasolina. O ferido, que recusava ser atendido por um negro, morre durante a cirurgia de emergência e o mano sobrevivente quer vingança.

O sucesso de Poitier com “O ódio é cego” teve impacto imediato nas Bahamas, apesar da censura colonial à película, e ajudou a impulsionar a criação do Partido Liberal Progressista, representante da maioria negra na construção da independência do país, que só seria alcançada em 1973.

Apartheid 

A próxima atuação de Poitier foi em “Os deserdados”, de Zoltan Korda (“Cry the beloved country”; Reino Unido, 1951). A locação, na África do Sul, confrontou o ator com o Apartheid, num profundo choque de realidade.

O Apartheid, a propósito, foi uma volta ao passado escravista dos invasores holandeses na África, em reação à abolição imposta pelos novos invasores ingleses. O tipo de retrocesso e “apagamento” da história que Bolsonaro prega ao prometer fazer o Brasil voltar à Ditadura de 1964-1985.

Em 1997 Poitier representou Nelson Mandela num filme para a TV. Em entrevistas, seus olhos brilhavam ao falar do líder retratado e do esfacelamento do Apartheid.

Opções 

A despeito da aclamação pelas duas películas iniciais, Poitier passou a receber propostas de papéis “típicos” de negros, que rejeitou. Preferiu viver de serviços braçais mal remunerados a dar vida a estereótipos sem dignidade.

O resultado foi atuar com diretores do porte de Stanley Kramer, Richard Brooks, Martin Ritt, Sidney Pollack e Norman Jewison, em diversas obras denunciadoras do racismo e da desigualdade social.

Concomitantemente, no mundo “real” Sidney dedicava tempo e recursos ao Movimento dos Direitos Civis dos Negros nos EUA, e às lutas pelo fim do Apartheid na África do Sul e pela autonomia das Bahamas.

Juízes

Em 1991 Poitier interpretou o advogado militante dos direitos civis e depois juiz da Suprema Corte dos EUA, Thurgood Marshall, numa minissérie sobre o julgamento que desmontou a juridicidade da segregação racial, entre 1952 e 1954.

A decisão da Suprema Corte e a ascensão de Poitier se deram nos 30 anos após a Segunda Guerra Mundial, contexto histórico da descolonização do mundo e da universalização de direitos, em meio a muitos conflitos

A humanidade do século XXI, porém, retorna à colonização que condena nações subservientes à dominância do agrarismo e à destruição dos direitos sociais, incluídas no pacote a disseminação da escravidão e a recorrência de golpes de estado.

Liberdade 

A mesma Suprema Corte dos EUA, agora conservadora, tende a apoiar a malta antivacina e a chamar medidas restritivas de “irracionais”, como fez o juiz australiano que liberou o tenista fascista Novak Djokovic.

Djokovic é daqueles que tenta borrar a escrita da história. É amigo de genocidas e nega terem ocorrido os campos de concentração sérvios e o massacre de mais de 8 mil bósnios em Srebrenica. Negacionismo, aliás, cotidiano no noticiário televisivo da Sérvia.

A “liberdade” individualista que tais juízes afirmam é a notória liberdade de um homem escravizar aos demais. E, a respeito desse uso particularíssimo da liberdade há uma fala interessante de Sidney Poitier, dita em fevereiro de 2013.

Direitos humanos

O veterano ator visitava uma exposição sobre os 500 anos da história afro-americana, em Charlotte, Carolina do Norte, e se deteve ante uma vitrine com uma cópia da declaração de independência dos EUA, de 1776.

No preâmbulo da “declaração” os pais-fundadores, embora proprietários de escravos, fixaram que todos os homens são iguais, dotados de direitos inalienáveis, entre os quais o direito à vida, à liberdade e à felicidade.

Justaposto à Declaração havia também um anúncio de jornal contemporâneo, no qual o “dono” oferecia à venda uma mulher e filhos, e o contraste levou Sidney Poitier a comentar. 

“Nós ainda não chegamos lá (à vida, à liberdade e à felicidade). Nós, o povo. (O problema é que) existem aqueles que querem apagar a história. Apagar tudo isso.”

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Avatar de Normando Rodrigues

Normando Rodrigues

Bacharel (UFRJ) e Mestre (UFF) em Ciências Jurídicas e Sociais e assessor da Federação Única dos Petroleiros (FUP).