Sinal vermelho na DeepWEB, por Adriana Dias

Em algumas comunidades da deep, os chans, os jorges se misturam aos criminosos de ódio reais, provocando confusão, e muitos desses chans já foram apontados, mundo afora como locus para recrutamento e favorecimento de jovens para ataques e massacres. Um dos chans brasileiros mais comentados no mundo da DeepWeb é o Dogolachan

Na DeepWeb, a parte mais desconhecida, inacessível e anônima do mundo digital, há muito conteúdo, na verdade muito mais que na surface, na WEB conhecida, como se navegássemos apenas na ponta de um iceberg. Nessa imensa quantidade de conteúdo há muito material desindexado (ou porque perdeu a indexação em sites que foram se reformando ao longo do tempo, ou porque foram construídos de modo equivocado), muito material ligado a bancos de dados protegidos, e muito material pornográfico. Também há material criminoso de todos os tipos e muito jorge, uma gíria digital para quem propaga material de ódio e criminoso da pior espécie, apenas para parecer um sociopata, mas não teria intenção nem coçação para efetivar atos dizem os peritos.

Em algumas comunidades da deep, os chans, os jorges se misturam aos criminosos de ódio reais, provocando confusão, e muitos desses chans já foram apontados, mundo afora como locus para recrutamento e favorecimento de jovens para ataques e massacres. Um dos chans brasileiros mais comentados no mundo da DeepWeb é o Dogolachan, o canal brasileiro criado por Marcelo Valle Silveira Mello (cujos codinomes na web também incluem Psy, Batoré ou Psytoré), hoje preso. O Dogololachan, que hoje se mantém por outros internautas, se funda em discussões anônimas com imagens e textos, voltadas para crimes de ódio e mulheres são proibidas. O canal foi associado ao massacre de Realengo e ao de Suzano, e algumas versões desses horrendos crimes dizem que os jovens foram lá procurar armas e apoio.

Eu passei a monitorar mais seriamente  o Dogolochan depois dos ataque a Lola do blog Lola escreve Lola, uma inimiga do canal, e nos últimos dias, um jovem apareceu por lá propondo matá-la, e querendo saber a quem contratar pedindo apoio, algumas mensagens ofereceram links para .onions  (sites da Deep) de assassinos pagos, que eu printei. Também ameaçaram o jornalista da Intercept, o Glenn Edward Greenwald, da mesma forma, com um meme. Mas, o que me chamou mais a atenção foi um jovem que sugeriu explodir a estação de trem Luz em São Paulo. Ele pede uma bomba e armas para tanto. Os participantes sugerem um link para construir a bomba e um deles cita que pode fornecer armas, e que elas estariam em Campinas.

Achei o fato das armas em Campinas em Campinas interessante, porque já localizei três fatos ligados a células neonazistas em Campinas, sem que achemos o líder delas de fatos: um ataque a sinagoga, uma planfletagem num vestibular na Unicamp e uma outra pixação neonazista. Em épocas diversas, mas todas com alguns elementos em comum, e eu sempre achei que estivessem ligadas. Quando o rapaz em questão ofereceu as armas, pensei que era possível que o líder neonazista estava começando a aparecer. Coincidência ou não, vários membros de células neonazis abriram seus perfis essa semana no VK, facebook russo onde imperam perfis nacional socialistas. Coincidência?

Esperamos investigações que impeçam algum ataque, seja no metro da luz, seja em Campinas, ou em qualquer outro lugar.

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Adriana Dias

Graduada em Ciências Sociais e mestre e doutoranda em Antropologia Social pela Unicamp. Coordena o Comitê “Deficiência e Acessibilidade, da Associação Brasileira de Antropologia". Também é membro da American Anthropological Association. Siga a autora no Twitter em @dias_adriana

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