Valerio Arcary

11 de abril de 2019, 06h00

Sobre a militância (1)

Valerio Arcary: "Há muitas boas e diferentes razões para estar engajado na militância. E há muitas outras que podem levar um militante a desistir. É inescapável que, mais cedo ou mais tarde, tenhamos que nos confrontar com elas"

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Conhece-te a ti mesmo (Inscrição na entrada do Templo de Apolo em Delfos/Grécia)

Uma das perguntas mais difíceis que me fazem é como sustentar uma militância constante depois de tantos anos. O “conhece-te a ti próprio” é um aforismo de origem grega que nos convida à descoberta das nossas potencialidades e dos nossos limites. É um provérbio atribuído a diferentes filósofos – Tales de Mileto, Platão, Sócrates, Aristófanes – mas, provavelmente, tem origem mais antiga. A grande sabedoria tem raízes remotas. O autoconhecimento é uma das premissas de uma vida adulta. Portanto, responsável.

Depois de uma grande derrota, é muito razoável que militantes da causa socialista se perguntem sobre o sentido do engajamento, do compromisso, da aposta. A militância exige, em primeiro lugar, honestidade com os outros e consigo mesmo. Uma militância séria pede de nós constância, perseverança e abnegação. Mas, não poucas vezes, nos sentimos desiludidos, frustrados e cansados. A transformação da sociedade é um processo difícil. E ninguém é de ferro. Ninguém mesmo. Nesses momentos é preciso refletir sobre si próprio. Porque há uma dimensão subjetiva na militância.

Quando eu estava na adolescência fui jogar basquete em um clube em Lisboa. Creio que tinha quatorze ou quinze anos. As obrigações com a equipe eram um treino e um jogo por semana. Sou, razoavelmente, disciplinado desde jovem. Não faltava. A seleção para participar da equipe não era muito rigorosa. Tinha estatura mais elevada que a maioria. Mas nenhum talento especial. Só esforçado. Nos dias de jogos entrava para jogar em alguns momentos.

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Depois de alguns meses, o treinador, um gigante simpático que tinha sido jogador profissional quando era mais jovem, me chamou para uma conversa ao final de um treino. Foi direto ao ponto: “Valerio, você é dedicado, mas não posso mais te escalar para os jogos. Você é estrábico. Você demora demais para ver de onde vem a bola, a força, a direção. E quando ela vem da esquerda perde sempre o tempo da bola. Demora alguns segundos a mais. Quanto de visão você tem no olho esquerdo?” Eu tinha menos de 15%. Assim acabou minha experiência de jogador de basquete.

Passaram uns dois anos e encontrei, casualmente, o treinador na rua. Em Lisboa encontros casuais assim não eram incomuns. Conversamos um pouco. No final ele me perguntou, distraidamente, se eu tinha escolhido praticar outro esporte. Eu respondi que sim: ping-pong. Ele deu uma gargalhada alegre, como quem diz: “Não!. Ping- pong? Sério?”

Ele tinha razão. Nunca fui muito longe no tênis de mesa. A velocidade da bolinha é muito grande, e ela é minúscula. Aprendi assim duas lições que parecem simples, mas não são. Duas lições muito importantes. Na vida podemos fazer muitas coisas. Mas nenhum de nós pode fazer tudo. E ninguém se transforma sozinho. Precisamos que nos digam quando estamos errados. Ou seja, precisamos aceitar que não é ruim ser contrariado. Ninguém gosta de ser criticado. E nem sempre as críticas são justas. Mas devemos procurar construir equipes de militância onde haja diversidade de ideias, personalidades, ou seja, diferenças, heterogeneidades. E inscrever como regra a tolerância e o respeito.

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Cada um de nós deve se colocar, constantemente, uma pergunta inescapável. Ela não é fácil. O que queremos? E por que queremos o que queremos. Isso nos leva a descobrir os sentimentos que nos movem, nos mobilizam, que mexem com a gente. Saber o que queremos é uma forma de evitar o autoengano. E somente cada um de nós pode responder esta pergunta sobre si mesmo.

Por que militamos? Por que dedicamos nosso escasso tempo a ser ativistas? Por que debatemos programas e táticas, discutimos ideias com os que nos cercam, vamos a reuniões, distribuímos panfletos, participamos de assembleias, comparecemos aos atos, convocamos greves, cotizamos nosso pouco dinheiro? Por que fizemos esta escolha?

Há muitas boas e diferentes razões para estar engajado na militância. E há muitas outras que podem levar um militante a desistir. É inescapável que, mais cedo ou mais tarde, tenhamos que nos confrontar com elas. Para lutar para transformar o mundo é necessário termos a vontade de nos transformarmos a nós mesmos. E não há transformação indolor. Não há mudança sem crise. E não há porque ter medo das crises. Já foi escrito. O que a vida pede de nós é coragem.

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 Nos últimos quarenta anos meu esporte é a corrida.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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