Valerio Arcary

22 de abril de 2019, 06h00

Sobre a militância (2)

Valerio Arcary: “Precisamos aprender a aceitar os nossos limites pessoais, para poder valorizar aqueles que pensam distinto de nós. Não diminui ninguém, ao contrário, engrandece”

militância, história, Karl Marx

Cristo está morto, Marx está morto, e eu não estou me sentindo muito bem.
(Pichação nas ruas de Paris em maio de 1968)

A história é, estupidamente lenta, dizia Marx. Porque as sociedades não se transformam quando é necessário. Somente quando não é mais possível adiar as mudanças. Nesse grau de abstração, nunca houve revoluções prematuras. Todas as revoluções vieram à luz do dia com atraso.

Depois de uma derrota, como a que sofremos, a dinâmica da luta social ficou mais lenta. Acontece que a intensidade da luta política, no dia a dia, anula, parcialmente, essa percepção da lentidão da história. Mas é autoengano. Os anos podem passar, inexoravelmente, antes que chegue a hora dos combates decisivos. Não sabemos quanto tempo. Talvez não seja tão longo. Mas há momentos, como agora, depois da mais séria derrota político-social dos últimos quarenta anos, em que, todos e qualquer um de nós, nos sentimos cansados, exauridos, exaustos.

O capitalismo brasileiro está em decadência, a sociedade está, ideologicamente, doente, mas ninguém na esquerda, honestamente, está se sentindo muito bem. Chama-se a isso lucidez. E é prudente nos perguntarmos sobre o sentido da militância, da entrega, da doação, da aposta. Porque, além das lutas frontais contra os inimigos de classe, surgem as lutas laterais e na retaguarda, dentro de nossas fileiras, entre companheiros. Em momentos assim, precisamos aprender a cuidar uns dos outros. A fraternidade é vermelha.

A questão chave é não perder o respeito, quando alguém discorda de nossas ideias. Vivemos cercados pela pressão social da ideologia que defende a ordem. Essa ideologia valoriza a competição. Os riscos que assumimos na militância são, demasiadamente, grandes. Resistir a essas pressões com firmeza é o “beabá” de uma educação socialista. Rivalidades pessoais entre militantes socialistas são infantis. Podemos ser melhores do que isso. Há lugar para todos na luta anticapitalista.

Aonde não há respeito não pode haver confiança. Sem confiança não é possível lutarmos juntos. Não é preciso sermos ingênuos. Existem, evidentemente, graus variados de confiança nas relações entre as pessoas, mesmo entre militantes. Mas, há muita diferença entre um ambiente saudável e um ambiente doentio. Uma militância adulta só é possível se nos protegermos, coletivamente, uns aos outros.

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Todos os militantes são mais complexos que as ideias que, eventualmente, defendem. São mais complexos porque as pessoas são maiores que uma ou outra ideia que abraçam. Discussões políticas podem ser apaixonadas, vigorosas, até ásperas. Mas não podemos perder o apreço pelos outros. Não é aceitável ofender ninguém. É fácil machucar os outros. Contrariar não precisa ser zoar, hostilizar, atormentar.

Nossas subjetividades são frágeis e sensíveis. Não é razoável o envenenamento de um coletivo porque há diferenças de opinião. Precisamos aprender a aceitar os nossos limites pessoais, para poder valorizar aqueles que pensam distinto de nós. Não diminui ninguém, ao contrário, engrandece, quando aprendemos a desconfiar dos limites de nosso repertório, experiência e intuição.

Subestimar nossa ignorância é um caminho perigoso para a soberba. Ignorar o orgulho é um caminho explosivo para a insolência. Não diminui ninguém reconhecer um erro. Não diminui ninguém pedir desculpa. Ao contrário, mais do que nunca, precisamos de paciência, porque sem audácia não venceremos. E a audácia, sem paciência, é somente coragem sem reflexão. E coragem sem reflexão é infantil. É preciso manter o sentido da perspectiva, portanto, do tempo.

A questão do tempo é central para uma militância séria. Ser sério é ser responsável. Vivemos tempos sombrios, em perspectiva histórica. Não fosse isso o bastante, o tempo na dimensão dos nossos destinos pessoais é sempre escasso. Não temos tempo para nós mesmos. O tempo necessário para a nossa plena humanização. Precisamos de tempo para além do trabalho. Tempo para o amor e a amizade. Tempo para pensar, para ler, para aprender. Tempo para termos saúde física e psíquica. Tempo para nos alimentarmos em paz, para descansar, para a diversão, para a alegria. E a militância é uma atitude. É uma doação deste tempo que é raro e precioso. Uma doação é uma entrega, uma oferta, mas não precisa e não deve ser um sacrifício. Deve ser um compromisso.

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Mas não é indolor. Porque sendo uma decisão de compartilhar um esforço comum em uma organização coletiva, estamos sempre diante dos riscos da incerteza do destino das lutas em que nos engajamos. E nos decepcionamos. Frustramos-nos quando vêm as derrotas. E entristecemos quando nos sentimos desiludidos com aqueles que estavam ao nosso lado. Decepção, frustração e desilusão são inevitáveis. As pessoas são complicadas. Somos imperfeitos. Que é uma forma elegante de dizer que temos defeitos. Muitos temos defeitos graves. Nossas organizações são, também, imperfeitas e imaturas.

Por isso, é tão frequente que tenhamos momentos em que sucumbimos com pena de nós mesmos. Ter um pouquinho de dó de si mesmo não diminui ninguém. Essas crises de autocompaixão ou autopiedade, desde que transitórias, são normais. Desde que não percamos o sentido das proporções. Desde que mantenhamos o equilíbrio. Preservar o equilíbrio para um militante só é possível com a compreensão do programa.

Transformar o mundo é difícil porque aqueles realmente muito ricos são, também, muito influentes São um ínfima minoria, quase invisível, em comparação com as amplas massas, mas são muito poderosos.

Só em oportunidades raras, quando se abrem situações revolucionárias, como agora na Argélia, a sociedade tem a disposição de subverter as relações existentes. As lutas sociais se desenvolvem devagar, durante décadas, pausadamente, pelo interior das relações de classe existentes. Pelo interior das relações existentes significa que aqueles que lutam não acreditam, na verdade, nem imaginam que a sociedade poderia estar organizada de outra forma. De uma forma completamente distinta. As relações institucionais são a expressão de uma relação de forças estável, estabelecida no passado. As instituições, o calendário eleitoral, o parlamento, a polícia, as Forças Armadas, os meios de comunicação estabelecem um enquadramento que parece durável, invariável, inabalável.

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O que transforma a história é a ação da humanidade. E a ação humana é provocada pela crise social. Foi sempre conflito de interesses que incendiou a necessidade de transformações. Os interesses se traduzem em ideias. As ideias alimentam projetos. Porém, a sociedade teme o conflito, tem medo da luta franca e aberta, porque há riscos na hora da mudança. Há perigos. Há o que perder. Mesmo entre os explorados e oprimidos, alguns têm a percepção, verdadeira ou imaginária, de que têm mais a perder do que outros. Essas diferentes percepções são manipuladas para dividir as forças populares. Há setores mais ativos e outros menos ativos, há vanguarda e retaguarda.

São os interesses de classe que decidem o sentido dos conflitos na sociedade em que vivemos. Essa mentalidade conservadora só se transforma muito lentamente. Até que tudo se precipita e o que parecia impossível surge como inevitável. A inércia provocada pela imobilidade política sobre a cabeça das pessoas, essa terrível lentidão do psiquismo humano, hipnotiza a imaginação de tal forma que as massas não observam possibilidade alguma de transformação da sociedade tal como ela está. É uma ilusão que é produzida pela tendência da mente humana a ficar prisioneira de rotinas previsíveis, portanto, mesmo quando são ruins, consoláveis.

Assim como nós temos neuroses individuais que nos aprisionam, existem neuroses coletivas que correspondem ao espírito de uma época, aos dramas do período histórico. Cuidemos uns dos outros, enquanto lutamos para mudar o mundo.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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