Sobre Bolsonaro, Simão Bacamarte e Adolf Hitler – Por Cid Benjamin

"Louco ou não, não à toa na semana passada o presidente prestou homenagens à sobrinha de um ministro de Adolf Hitler, líder de um partido neonazista da Alemanha"

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Bolsonaro nunca teve um jeitão (e, muito menos, um olhar) de alguém equilibrado. Isso, para não falar da catastrófica impressão que causa quando abre a boca e diz alguma de suas costumeiras asneiras. Aí, então, o festival de sandices que enuncia muitas vezes permite fundadas dúvidas sobre sua saúde mental.

Ultimamente, porém, esses sintomas de insanidade vêm se agravando. O capitão que foi excluído do Exército por mau comportamento parece apresentar até mesmo dificuldades para articular naturalmente as palavras. Às vezes parece falar com se estivesse com pedras na boca.

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Na patética live de quinta-feira da semana passada, anunciada com toda pompa e circunstância como uma oportunidade em que ele exibiria provas de que as urnas eletrônicas são passíveis de fraude, mais uma vez o genocida estava estranho.

Para piorar as coisas, um dos “especialistas” que ele apresentou para embasar suas afirmações foi um astrólogo especializado … na prática de acupuntura em árvores. Sim, isso mesmo. Acupuntura em árvores. É ou não coisa de doido?

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Na ocasião, Bolsonaro admitiu que não ter provas para sustentar sua tese. Com isso, lembrou aquela turminha braba de Curitiba, a patota de Sérgio Moro e Delton Dallagnol, que reconhecia não ter provas contra alguns acusados na Lava Jato, mas tinha “convicção” sobre a culpa deles. E, baseado nisso, os condenava.

Decididamente, a maré não anda boa para o presidente. Faz tempo que não aparece uma boa notícia para ele. Pode ser que isso esteja afetando o seu raciocínio, que, aliás, nunca foi grande coisa.

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Seu prestígio vai ladeira abaixo. A última pesquisa de opinião pública, divulgada na semana passada, confirmou o que outras já vinham apontando: Bolsonaro vai de mal a pior na simpatia do eleitorado. Ela apontou uma rejeição de 62% à sua figura e um quadro em que, num hipotético segundo turno, ele ficaria atrás de qualquer oponente. Foram apresentados praticamente os nomes que têm sido aventados: Lula, Ciro, Mandetta, Haddad e Doria. Bolsonaro perdia para todos. Para sua sorte, o instituto não apresentou também a alternativa de um poste. O presidente correria o risco de ficar atrás dele também.

Por outro lado, sua relação com as instituições também se degrada a olhos vistos.

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Seu principal preposto no Congresso, o presidente da Câmara, Artur Lira, já advertiu que a sua maior bandeira no momento – o voto impresso – não será aprovado. Isso mostra que até o Centrão, do qual Lira é um poderoso chefão e que é um tipo de gente que para fazer “negócios” não se incomoda muito com o mau cheiro, já não banca o presidente incondicionalmente.

O jornal “Folha de S. Paulo” de sexta-feira da semana passada publicou que, depois do circo de quinta categoria armado na tal live, o capitão foi classificado de “moleque” por um ministro do STF. E mais: afirmou também que esse ministro teve a concordância de outros.

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Deve-se registrar, aliás, a mudança de comportamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há mais de um ano Bolsonaro vem fazendo uma campanha de descrédito das urnas eletrônicas. Assegurava ter sido roubado na eleição de 2018, que teria vencido, e garantia que também seria roubado na eleição do ano que vem… Diante disso, há alguns meses a ABI fez uma representação ao tribunal, pedindo que ele exigisse do presidente a apresentação de provas do que dizia. O pedido não foi acolhido.

Agora, porém, diante da reiteração desse comportamento do genocida, a corte mudou de posição. Capitaneada por seu presidente, Luís Roberto Barroso, que tem tido um comportamento corajoso, passou a cobrar de Bolsonaro a apresentação de provas do que afirma. Pediu, inclusive, ao Supremo Tribunal Federal (STF) que o presidente seja investigado por disseminar notícias falsas. É de se registrar que a decisão não foi tomada apenas por Barroso, mas pelo pleno do tribunal e tomada por unanimidade.

Numa eleição em que os votos eletrônicos sejam impressos e, em seguida, caiam numa urna – como quer Bolsonaro – basta que uma penca de amigos milicianos do presidente afirme que votaram no candidato A e o voto impresso foi computado para o candidato B. Como provar a mentira e tirar a dúvida? O voto já estará misturado a milhares de outros. O que poderia ser feito? Impugnar todos os votos daquela seção? Considerar que aquela urna eletrônica estava viciada? Ou não levar em conta a denúncia? E se isso for feito em milhares de urnas? A confusão não poderia tumultuar o processo eleitoral?

Está evidente que o objetivo de Bolsonaro é embaralhar o jogo e não permitir um processo eleitoral normal. Tudo indica que a bandeira do voto impresso é mesmo o pretexto do presidente para melar a eleição.

De qualquer forma, independentemente de suas intenções golpistas, está claro que Bolsonaro não tem mesmo jeito, esteja ele ou não fora de um juízo normal. Seria o caso de uma junta médica aferir sua sanidade mental? Afinal, será que não estaremos diante de um personagem machadiano, uma espécie de Simão Bacamarte do magnífico conto “O Alienista”?

Louco ou não, não à toa na semana passada o presidente prestou homenagens à sobrinha de um ministro de Adolf Hitler, líder de um partido neonazista da Alemanha.

Seu comportamento poderia ter origem também em outra questão: simpatias pelo nazismo.

Difícil dizer qual dos dois casos seria mais grave.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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Cid Benjamin

Foi líder estudantil nos movimentos de 1968, participou da resistência armada à ditadura e foi dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Libertado em troca do embaixador alemão, sequestrado pela guerrilha, passou quase dez anos no exílio. De volta ao Brasil em 1979, foi fundador e dirigente do PT e, depois, participou da criação do PSOL. É jornalista, professor e autor dos livros “Hélio Luz, um xerife de esquerda” (Relume Dumará, 1998), “Gracias a la vida” (José Olympio, 2014) e “Reflexões rebeldes” (José Olympio, 2016). Organizou, ainda, a coletânea “Meio século de 68 – Barricadas, história e política” (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.