domingo, 27 set 2020
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Socialistas vencem eleições gerais na Espanha, mas extrema direita promete surpreender

Sobre o contexto eleitoral

Com o fim do bipartidarismo hegemônico entre o Partido Popular (PP) e o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) que marcou as três décadas de redemocratização na Espanha, desde a morte do ditador Franco (1979), as eleições no país ibérico ganharam novas características.

Com profundos questionamentos sobre distanciamento das estruturas políticas tradicionais, novas iniciativas surgiram com expressividade considerável, inclusive eleitoral. À esquerda, o Podemos (fundado em 2014), como um fruto dos protestos que marcaram a crise econômica-financeira (2007-11); à direita, os Cidadãos (C’s) – partido à direita, originalmente catalão fundado em 2006, que tornar-se-ia uma importante força nacional; e mais recentemente, o Vox (“voz” em latim), de extrema direita, fundado em 2013, já acompanhando a crescente onda populista europeia; três marcos importantes da consolidação do novo multipartidarismo espanhol.

Com a consolidação do novo multipartidarismo espanhol, somados a novos elementos da política como a queda (2018) do primeiro-ministro Rajoy por denúncias de corrupção, e alguns temas ganharam ou voltaram a ter destaque, como o tema do independentismo catalão, a violência contra mulheres e a valorização da classe trabalhadora, essa eleição guarda algumas novidades.

Eleições gerais de 28 de abril de 2019

É nesse contexto, com destaque para os cinco partidos supracitados, que os espanhóis votaram neste domingo (28) para novos deputados e senadores, e consequentemente a formação de um novo governo e a indicação de um novo primeiro-ministro.

Com o impeachment de Rajoy (PP), reeleito em 2016 e impedido na metade de seu mandato (2018), a ascensão do jovem economista Pedro Sánchez, líder PSOE, ao posto de primeiro-ministro, com apoio limitado de outras forças políticas, teve um breve mandato ao confrontar as forças de oposição ao lado de minorias nacionais sobre a lei orçamentária 2019.

Apesar de ver seu mandato, em um governo tampão e de minoria, acabar brevemente, Sánchez (PSOE) saiu-se aparentemente fortalecido de seus meses como primeiro-ministro. Mais do que isso, curiosamente, com um discurso de estabilidade, mostrou-se como um político de esquerda moderada, viu sua postura aberta ao diálogo sobre temas polêmicos como maior autonomia para comunidades, desenvolvimento econômico com valorização da classe trabalhadora ao exemplo da valorização do salário mínimo em mais de 20%, maior protagonismo feminino no governo e abordagem compreensiva sobre o tema da imigração, retomarem a popularidade de seu partido, até então em queda.

Tais fatos mostram na sequência histórica de diversas pesquisas de opinião, o PSOE em ascensão e como grande favorito a ser a primeira força desse pleito – atingindo até 35% do total de cadeiras do Parlamento, o que acabou se confirmando, ainda não seria suficiente para conquistar uma maioria confortável.

A possibilidade mais provável neste caso seria uma aliança com o Podemos, neste caso o mais provável quarto colocado, que sofre com divisões internas e teve uma relativa queda nas intenções de votos se compararmos a eleição de 2016.

À direita, com uma perspectiva improvável de ascender ao poder, os populares (PP) lutavam para não perder a liderança da oposição, perseguindo, em conflito direto pela liderança da direita, o Cidadãos (C’s). Neste sentido, com menor relevância eleitoral, porém com grande representatividade política ou como reflexo importante do contexto, representando a onda de extrema direita europeia, aparece o partido Vox, que pode atingir cerca de 5% das cadeiras na câmara sendo o primeiro partido de extrema direita desde Franco, com seu nacionalismo extremado, o sentimento eurocético, o autoritarismo comportamental, assim como propostas anti-imigração e islamofóbicas em destaque.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
Vinicius Sartorato
Vinicius Sartorato
Jornalista e sociólogo. Mestre em Políticas de Trabalho e Globalização pela Universidade de Kassel (Alemanha).