Os soluços, o intestino preso e o Cabo Tenório – Por Cid Benjamin

Eu me lembrei desta historinha, diante da situação criada pelas ameaças dos comandantes militares à CPI da Pandemia nos últimos dias. A nota que redigiram, ameaçando mundos e fundos, foi um tiro n’água

Em outubro de 1968, em plena ditadura militar, um congresso da União Nacional de Estudantes (UNE) foi localizado pela polícia em Ibiúna, São Paulo, e quase mil estudantes presentes acabaram presos.

O episódio foi antes do AI-5, que só aconteceria em dezembro do mesmo ano, e a repressão ainda não era a mesma dos anos de chumbo. Não havia condições políticas para manter aquela multidão de estudantes presos. Afinal, a acusação era apenas de participar de uma reunião. Depois de um ou dois dias no xadrez, foram todos enviados para os estados de origem e, pouco depois, libertados. Apenas cerca de dez ou onze, identificados como os líderes mais importantes, foram separados dos demais e ficaram mais tempo na cadeia.

O grupo com os supostos líderes foi transferido inicialmente para um quartel do Exército em Santos, no litoral paulista. A unidade militar era comandada pelo àquela altura já conhecido coronel Erasmo Dias, que tinha sido secretário de Segurança de São Paulo e se arvorava de integrante da chamada “linha dura”.

Logo no primeiro dia, Erasmo resolveu dar um susto na estudantada. Dispôs todos perfilados numa quadra de basquete do quartel, cercados pelos quatro cantos por soldados que, deitados no chão, pilotavam metralhadoras ponto 30, e pronunciou um tonitruante discurso, encerrado com a ameaça: “Não estou para brincadeira. Quem tentar fugir ou desrespeitar alguma ordem vai morrer”, disse apontando as metralhadoras.

Em seguida, emendou com a voz empostada, como fazem alguns militares quando querem demostrar autoridade: “Alguma dúvida”?

Eis que Luís Travassos, presidente da UNE, levanta um dedo e pergunta, candidamente: “Coronel, onde é que se mija aqui?” Depois de um instante de perplexidade, com uma ponta de dúvida sobre se deveria levar a pergunta a sério ou se estava sendo sacaneado, Erasmo ordena, sempre com uma firme voz de comando: “Cabo, leve o estudante para urinar!”

Foi uma espécie de anticlímax.

Eu me lembrei desta historinha, diante da situação criada pelas ameaças dos comandantes militares à CPI da Pandemia nos últimos dias. A nota que redigiram, ameaçando mundos e fundos, foi um tiro n’água. Não surtiu o menor efeito. Ao contrário, despertou manifestações de apoio à CPI e a seu presidente, o senador Omar Aziz.

O que poderiam fazer os chefes militares, depois de pagarem aquele mico – para usar uma expressão a gosto dos jovens de hoje? Proibir que generais e coronéis fossem investigados? Prender alguns senadores? Mandar acabar a CPI? Qualquer das alternativas significaria um atropelo brutal às instituições.

A nota caiu no vazio e não teve qualquer efeito

Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro padecia, há vários dias, de uma insistente crise de soluços. Alguns identificaram a origem do problema como de fundo nervoso. Afinal, há algumas semanas o capitão só recebia notícias ruins.

Como desgraça pouca é bobagem, adveio-lhe outro problema: uma obstrução intestinal que fez com que os médicos recomendassem a sua transferência para um hospital em São Paulo.

Logo depois constatou-se, porém, que não seria preciso uma cirurgia – o que chegou a ser aventado no primeiro momento. Melhor assim. Não há por que se desejar o mal a alguém – mesmo que esse alguém seja um adversário político.

Já quanto aos soluços, não se sabe se continuaram, nem se sua origem era mesmo de fundo nervoso. Porém, as más notícias não dão uma trégua ao presidente. Mesmo com a suspensão dos trabalhos da CPI da Pandemia por 15 dias, devido ao recesso do Senado, as perspectivas não são boas para ele. Os senadores já informaram que aproveitarão a parada para cruzar informações e investigar novas denúncias.

Tudo indica que no Ministério da Saúde estão batendo cabeça duas quadrilhas – uma formada por parlamentares ligados ao Centrão; outra operada por militares. E para a sustentação do governo Bolsonaro, tanto o Centrão, como os militares são importantes. Como o presidente poderia arbitrar a disputa sem criar enormes problemas? É, de fato, uma senhora dor de cabeça.

A disputa pelo controle de “negócios” é feroz e as informações começam a vazar. Foi lama no ventilador. (Atenção: ao admitir a hipótese de militares envolvidos em corrupção, não me refiro aqui às Forças Armadas em seu conjunto, mas a integrantes dela que, supostamente, teriam se envolvido em procedimentos, digamos, não republicanos.)

De qualquer forma, se a suspensão temporária dos depoimentos na CPI pode trazer um refresco imediato ao presidente, isso talvez seja fugaz. Pode até dar um alívio para os soluços de Bolsonaro – caso eles sejam mesmo de fundo nervoso. Mas, por quanto tempo? E depois?

A tentativa de enfrentar com ameaças as denúncias de corrupção envolvendo militares em cargos civis não resolve. A nota dos chefes militares mostrou isso. A rigor, só resolveria se vivêssemos numa ditadura aberta, o que (pelo menos ainda) não acontece, apesar dos desejos do presidente. E fica a dúvida: prevalecendo a situação atual, até quando os militares no governo poderão ser blindados? Assim, é forçoso reconhecer que, se forem mesmo de fundo nervoso, os soluços de Bolsonaro poderão voltar diante de novas contrariedades.

A situação me fez lembrar uma música gravada por Jackson do Pandeiro. Num ritmo contagiante, ela conta a história de um tal Cabo Tenório.

O cabo era useiro e vezeiro em se meter em confusão. Quando isso acontecia, distribuía bordoadas a rodo. Só se acalmava quando todos reconheciam que ele era mesmo o maioral e cantavam uma música com o estribilho: “Cabo Tenório é o maior inspetor de quarteirão”. Aí tudo se acalmava e voltava às boas.

Pois bem, não parece que no momento haja muita gente por aí reconhecendo Bolsonaro como o maioral – nem no papel de presidente, nem mesmo no de inspetor de quarteirão. Muito menos parece haver a gente disposta a cantar isso em prosa e verso. Assim, dificilmente Bolsonaro receberá uma homenagem como a que acalmava o Cabo Tenório.

Por isso, caso seu soluço seja de fundo nervoso, o problema pode não passar tão cedo. Talvez, até se agrave.

E crise de soluço é uma coisa muito chata mesmo.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Cid Benjamin

Foi líder estudantil nos movimentos de 1968, participou da resistência armada à ditadura e foi dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Libertado em troca do embaixador alemão, sequestrado pela guerrilha, passou quase dez anos no exílio. De volta ao Brasil em 1979, foi fundador e dirigente do PT e, depois, participou da criação do PSOL. É jornalista, professor e autor dos livros “Hélio Luz, um xerife de esquerda” (Relume Dumará, 1998), “Gracias a la vida” (José Olympio, 2014) e “Reflexões rebeldes” (José Olympio, 2016). Organizou, ainda, a coletânea “Meio século de 68 – Barricadas, história e política” (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.

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