A sopa é o indicador do quanto você está velho

Sopa é gostoso, mas é sopa. Sopa não é sensual. Sopa não é fino. Sopa não une as pessoas. A gente sempre toma sopa, mas, via de regra, só passa a vê-la como algo aceitável com o passar do tempo – Por Henrique Rodrigues

Ontem eu fiz sopa. Comecei no fim da tarde. Um frio desgraçado e o inconsciente ocidental ibérico começa a gritar: Sopa! Sopa! Faz sopa!

Fiquei lá um tempão cortando os legumes, bem miudinho. Olhei pra um pack de chouriço espanhol que comprei por míseros R$ 6 no Pão de Açúcar (devia estar com o preço errado, porque nada custa R$ 6 no Pão de Açúcar, nem a sacola descartável pra pôr a compra).

Não, não queria colocar o chouriço vermelhinho. Preferi uma coisa bem brasileira e usei uma linguicinha dessas de metro, que vêm enroladas. Corta cenoura, corta batata, corta linguiça, corta tudo.

Aí eu comecei a divagar sobre o quanto a sopa é um indicador de envelhecimento e como ela serve de marco divisório de nossa jornada da vida.

Eu gosto de sopa. Mas sopa é foda.

Você nunca vai ouvir alguém dizer que chegou junto da gatona por quem tava interessado e mandou uma assim:

“A gente podia marcar de tomar uma sopa, né?” ou “Nossa, uma sexta-feira dessa, não vai embora não, vamo tomar uma sopa”.

Incabível.

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Sopa é gostoso, mas é sopa. Sopa não é sensual. Sopa não é fino. Sopa não une as pessoas.

“Gente, bora tomar uma sopa amanhã, bater um papo?”

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Quem já ouviu isso?

Eu gosto de sopa. Mas sopa é foda.

A primeira vez que eu fui a Nice, tomado por uma energia magnífica que transborda do verão na Côte D’Azur, sai da porta pra fora logo cedo de camisa de linho, óculos escuros e coloquei na cabeça que ia passar o dia debaixo do sol escaldante naquela praia infinitamente azul.

Dei um rolê e julguei prudente comer alguma coisa na calçada de um restaurante da Cours Saleya, de frente praquelas muralhas que separam os botecos do verdadeiro paraíso na Terra.

Vi uma placa: “Menu complet – Entreé, Plat, Dessert et Boisson € 13”

Não pensei duas vezes. Corri e sentei.

A mocinha com cara de quem tava entregando exame de fezes no balcão do laboratório e a simpatia típica dos franceses veio me atender.

“Que que tem hoje, de entrada?”, perguntei.

“Soupe, monsieur!”

“Porra, sopa?”, respondi com meu habitual mau-humor praguejante e abrindo mão do francês macarrônico.

“Oui, monsieur… Soupe!”

Caralho, eu fui à Côte D’Azur, à Riviera Francesa, naquelas águas onde a Brigitte Bardot e a Sophia Loren lavam a periquita, onde o Dodi Al-Fayed pegava a princesa Diana comendo lagosta no iate, pra tomar sopa?

Nem fodendo!

Eu gosto de sopa, mas sopa é foda.

“Vem cá… Não tem nada assim, sei lá, da terra aqui?”

“A sopa é de batata, senhor… As batatas são típicas da terra”, argumentou a moça.

Porra, claro que as batatas são da terra. Por acaso alguém colhe batata em árvore? Toda batata é da terra.

Saí fora, não ia tomar sopa. Não na Côte D’Azur.

Depois disso comecei a notar como a sopa é uma régua do quanto envelhecemos.

A gente sempre toma sopa, mas, via de regra, só passa a vê-la como algo aceitável com o passar do tempo.

Eu olhava a sopa com desprezo na adolescência. Depois, no auge da juventude, achava a sopa agradável, mas evitável. Agora eu até faço sopa.

Acho que hoje eu tomaria sopa em Nice. Aliás, acho que fui traído pela elevada expectativa.

Até porque eu sempre tomo sopa na praia quando vou ao Recife. Tudo bem que os pernambucanos chamam de caldinho e isso ajuda a tapear a discriminação implícita com a qual já nascemos em relação à sopa.

É mágico ver que, só de tirar o nome “sopa”, as pessoas já tomam a sopa.

E isso é tão maluco que a gente acha normal tomar sopa em ocasiões não formais, nada sofisticadas ou pouco solenes.

Ok tomar sopa em Portugal, numa tasca de azulejos amarelados e sob a melancolia das violas e do fado. Mas jamais alguém tomaria sopa em Ibiza, ou em Jurerê Internacional.

Ok tomar sopa de moletom rasgado e meia puída, sozinho em casa. Mas eu não vou sair com a minha Rosa Luxemburgo pra tomar sopa num restaurante coolzinho de Pinheiros, ou de Maresias.

A sopa traz uma espécie de tábua comportamental e social também. Dependendo do dia, do lugar, da companhia, do clima ou do estado de espírito, eu tomo a sopa ou não.

A gente só começa a aceitar a sopa em nossa vida quando o tempo da vida começa a se esgotar.

Por ainda ter algumas ressalvas com ela, creio não ser tão velho assim.

Enfim… Eu gosto de sopa. Mas sopa é foda.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Henrique Rodrigues

Jornalista e professor de Literatura Brasileira.

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