Tática híbrida de ‘dispersuasão’ cria bomba semiótica do deputado Rambonaro – Por Wilson Ferreira

Malucos pilhados e cheio de hormônios como o deputado Daniel Silveira lutam contra um moinho de vento – contra um STF pusilânime, que tenta demonstrar “soberania” e “independência” através de arroubos

O ministro Fachin responde às revelações do general Villas Bôas, que irrita o “Rambonaro” (deputado Daniel Silveira) que, por sua vez, pilha o ministro Alexandre Moraes, que o manda prender e faz tocar o alarme da grande mídia que leva o presidente da Câmara dos Deputados a falar em “momento delicado das instituições”, cuja repercussão midiática retroalimenta esse sistema de irritações, pilhas e, por que não dizer, hormônios. Uma cadeia de ação e reação tão sincronizada que até parece que foi planejada dentro de alguma sala secreta de conspirações. Esse é o gênio da guerra híbrida: criado o tabuleiro, todos começam a fazer lances no piloto automático dentro de um sistema autopoiético de bombas semióticas de causa/efeito – um sistema aparentemente caótico, porém com um sentido, a “dispersuasão”: quando o consórcio STF-Mídia-Mercado entra no modo alarme, as peças do tabuleiro são provocadas, agindo e reagindo, em retroalimentação, criando um aparente caos capaz de dispersar as oposições e opinião pública.

A “beleza”, se é que pode ser dito assim, da guerra híbrida é que, colocados os personagens no tabuleiro, inserido o script e programação de jogadas em cada um deles como fossem peças num jogo de xadrez, começam a agir no piloto automático. Agem e reagem em um aparente caos, porém, no fundo, é um sistema autopoiético. Isto é, as interações entre os personagens reproduzem a própria rede que as produziu. 

Autopoiese, conceito criado pela Teoria dos Sistemas, de Francisco Varela e Humberto Maturana, nomeando capacidade dos sistemas produzirem a si próprios. Aplicada à estratégia de guerra híbrida, padrões poderiam ser previstos e criados em sistemas caóticos, através de comandos que criam retroalimentação. Resultando no efeito “enxame” para alcançar a meta do “uma só mente” ou “efeito colmeia” – sobre isso leia KORYBKO, Andrew, Guerra Híbrida: das revoluções coloridas aos golpes, Expressão Popular, 2018 e LEIRNER, Piero, O Brasil no Espectro de uma Guerra Híbrida, Alameda Editorial, 2020.

Olhando de fora tudo parece caótico, mas cada ação de uma peça produz reações tão perfeitamente coordenadas que começamos a imaginar que está acontecendo alguma conspiração perfeita em que todos se reuniram em algum lugar secreto na calada da noite para combinar tudo.

Vejamos a cronologia dos últimos lances do xadrez do jogo da “tensão entre as instituições”: 

(a) no início de fevereiro, a Fundação Getúlio Vargas lança o livro “General Villa Bôas: conversa com o comandante” editado a partir de entrevista com Celso de Castro, professor da instituição.

(b) 10/02 – o jornal O Globo diz que o Comandante do Exército nos governos Dilma Rousseff e Michel Temer “revelou que postagens polêmicas feitas no Twitter na véspera do julgamento, em 2018, pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de  habeas corpus do ex-presidente Lula para recorrer da condenação em liberdade, em 2018, foram articuladas e “rascunhadas” em conjunto com o Alto Comando da instituição”. Ainda o jornal mantinha a interpretação feita sobre o tuite, por William Bonner, no JN há três anos: “o general fez repúdio à impunidade”.

(c) 12/02 – Diante da repercussão da revelação de Villas Bôas, o veículo do Grupo Globo, Valor Econômico, dá início ao reposicionamento de discurso ao dizer que “livro mostra como general reabriu o porão do Exército”. Principalmente depois de ser também repercutida a declaração de Villas Bôas no livro de que a Globo foi, involuntariamente, “cabo eleitoral de Bolsonaro” com o seu discurso “politicamente correto” do qual a população está “cansada”.

(d) 15/02 – o ministro do STF Edson Fachin reage à repercussão ao, digamos, mal estar da grande mídia cujo tom era o temor pela “fragilidade da democracia” (10/02, Opinião, UOL, clique aquie classificou como “intolerável e inaceitável” qualquer tipo de pressão sobre o Poder Judiciário.

(e) 15/02 – pegando carona no affair Villas Bôas X Fachin, o deputado federal “Rambonaro” raiz, Daniel Silveira, em live no Youtube faz apologia do AI-5, dispara palavrões e acusações contra os magistrados, mirando especialmente no ministro Fachin. No mesmo dia o parlamentar foi detido por ordem do ministro Alexandre de Moraes, que considerou “gravíssimo” o conteúdo do vídeo publicado nas redes sociais e expediu sua decisão como um mandado de prisão em flagrante. 

(f) 16/02 – o ex-comandante do Exército ironizou a reação de Fachin com muito veneno lacônico: “Três anos depois”. Sobe a temperatura da “tensão entre as instituições” com cobertura ao vivo da prisão do Rambonaro, disparando por todos os lados, em particular batendo boca com uma policial que exigia que ele usasse máscara – reações identitárias imediatas nas hostes progressistas: “covarde! Só é machão com mulheres!”, protestam.

(g) 17/02 – O plenário do STF decide manter por unanimidade (11 X 0) a prisão do deputado federal Daniel Silveira. Temperatura sobe ainda mais: para a mídia, uma mensagem direta ao Legislativo que votaria ontem se soltava ou não o indignado Rambonaro.            

Dispersuasão

Depois de algumas horas de saia justa com os lavajateiros e passadores de pano gaguejantes como Natuza Nery, Fernando Gabeira e Miriam Leitão tentando explicar por que em 2018 era “repúdio à impunidade” e agora é “pressão inaceitável da cúpula do Exército”, vem a salvação no último instante: transmissão ao vivo da prisão de Daniel Silveira, com seus palavrões, xingamentos e risos de deboche diante das câmaras.

Pronto! O jornalismo corporativo encontrou seu malvado favorito para ativar o mecanismo de dispersuasão – o modus operandi da atual guerra híbrida no seu modo manutenção desde o primeiro dia do governo militar Bolsonaro: a guerra criptografada, conjunto de estratégias de dissuasão por meio de dissonâncias, desmentidos, cortinas de fumaça etc.

O incrível sincronismo da cronologia descrita acima é um jogo autopiético de ação-reação que mantém um equilíbrio homeostático no meio da turbulência. Teoria do caos e mecânica dos fluidos pura, aplicada como ação política!

Alexandre Moraes ordena prisão em flagrante do deputado. Quem vai prendê-lo? Aqui, ethos e pathos se encontram numa feliz coincidência: quem vai prendê-los serão outros rambonaros, com todo o physique du rôle para desempenhar os papéis – policiais federais e militares que partilham com o réu do mesmo discurso e a paixão pela meganhagem.

Não por menos que ao prendê-lo em flagrante na sua residência, em Petrópolis, o deputado teve tempo de postar um vídeo nas redes sociais. Os policiais permaneceram por uma hora, à espera do deputado continuar cometendo o mesmo crime que fizeram os agentes da lei estarem ali: pacientemente, esperaram o deputado gravar o vídeo em que continuava desafiando o Supremo e ameaçando ministros. No dia seguinte, a PF “encontrou” dois celulares na sala em que o deputado estava detido, na SRRJ – Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio de Janeiro. 

E a grande mídia dá chilique e se escandaliza! Santa ingenuidade, Batman!

E para completar esse roteiro autopoiético, preso na Unidade Prisional da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o deputado apareceu circulando à noite pelo pátio, sem ser incomodado pelos “carcereiros”. E ainda teve folga e tempo para receber apoio de alguns manifestantes e ameaçar que “irá mostrar ao Brasil quem é o STF”…

De novo: Santa ingenuidade, Batman! Mandar meganhas prenderem um rambonaro é a mesma coisa que colocar uma raposa para gerenciar o galinheiro ou um banqueiro para presidir o Banco Central independente dos neoliberais… O discurso e cultura da meganhagem foi uma das principais criações midiáticas na propaganda em torno das operações da Lava Jato nos últimos anos – sobre isso clique aqui

O gênio da Guerra híbrida é também colocar as pessoas certas para executar o script em piloto automático: Sara Giromini (vulgo “Sara Winter”), os malucos dos “300 de Brasília” (que mal preenchiam uma faixa de segurança) ou o bolsonario-raiz Daniel Silveira são poucos, mas capazes de receber todo o foco da grande mídia na sua estratégia de dispersuasão nos momentos econômico-políticos mais tensos.

São ideologicamente (e hormonalmente) pilhados, facilmente entram no jogo ação-reação que faz o sistema autopoiético de dispersuasão encontrar o seu equilíbrio (o “fechamento operacional”) e passar a rodar por si mesmo, em moto-contínuo se retroalimentando – resposta de Fachin que irrita Daniel Silveira que pilha Alexandre Moraes que toca o alarme da grande mídia que faz o presidente da Câmara dos Deputados falar em “momento delicado das instituições”, cuja repercussão midiática retroalimenta esse sistema de irritações, pilhas e, por que não, hormônios.

Como dissemos acima, esses personagens não se sentaram numa sala de reuniões secretas e planejaram todos os passos conspiratórios. Porém, a arquitetura geral, esta sim, está nos manuais de operações psicológicas do Exército sob o apoio teórico e logístico da guerra híbrida patrocinado pelo Departamento de Estado dos EUA – assim como o golpe de 1964 com a ação IPES-IBAD-Exército teve apoio logístico da CIA, também hoje teve da Inteligência militar norte americana. A diferença é que nos anos 1960 a ação política foi de natureza hipodérmica e a do século XXI, uma ação política híbrida – sobre essa diferença, leia o trepidante livro desse humilde blogueiro “Bombas Semióticas na Guerra Híbrida Brasileira (2013-2016): Por que aquilo deu nosso?” – clique aqui.

Guerra Híbrida cria conflitos por procuração para desestabilizar sociedades e/ou governos através de táticas indiretas. A principal delas é a indução ao caos sistêmico: a deliberada criação de polarizações, seja política, de costumes, alimentar provocações para gerar reações etc. Que em última instância vai justificar o Estado Mínimo reduzido à sua função policial e repressiva.

Por isso, esse sistema autopoiético de dispersuasão cria bombas semióticas que visam passado, presente e futuro:

(a) Passado

Com esse discurso da “tensão entre as instituições”, do medo por “rupturas”, das ameaças contra a “democracia frágil” tenta-se apagar as impressões digitais de um golpe militar que já aconteceu, evitando expor as Forças Armadas: hoje, o Estado de Direito funciona sob tutela militar. Malucos pilhados e cheio de hormônios como o deputado Daniel Silveira lutam contra um moinho de vento – contra um STF pusilânime que tenta demonstrar “soberania” e “independência” através de arroubos como a ordem de prisão em flagrante de Alexandre Moraes ou o protesto, três anos atrasado, do ministro Fachin;

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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