Telecentros de São Paulo comemoram 20 anos de existência – Por João Cassino

Após duas décadas, a exclusão digital segue como um problema a ser superado

Hoje é um dia para celebrar. O primeiro telecentro da cidade de São Paulo foi inaugurado há exatos 20 anos, em 18 de junho de 2001. A data marca a concretização do início das políticas públicas de inclusão digital na maior cidade do Brasil. Telecentros são espaços comunitários equipados com computadores e com banda larga, que têm por função garantir acesso à Internet. O que hoje parece simples, há duas décadas era um programa social extremamente arrojado.

Foto: Prefeitura de São Paulo

A primeira unidade foi inaugurada no bairro Cidade Tiradentes, no extremo da Zona Leste, onde se concentra uma população de baixa renda e localiza-se um dos maiores complexos de conjuntos habitacionais da América Latina, com cerca de 40 mil unidades. A instalação do primeiro telecentro da cidade neste bairro foi uma escolha simbólica.

O Telecentro Cidade Tiradentes foi equipado com vinte computadores, impressora e conexão à internet. O objetivo era garantir uso e acesso livre da população. Eram oferecidos cursos de informática básica aos frequentadores que, principalmente naquela época, não sabiam como utilizar um navegador web, escrever e enviar um e-mail, usar um processador de textos ou uma planilha eletrônica. A ideia era permitir navegação como se a pessoa estivesse em casa ou no trabalho.

Com o passar do tempo, novas unidades foram sendo inauguradas. No final de 2004, o programa Telecentros atendia cerca de 500 mil pessoas por mês, segundo dados da Secretaria Municipal de Comunicação e Informação Social da Prefeitura de São Paulo. Havia 129 unidades distribuídas pela capital. Um dos diferenciais mais importantes dos Telecentros de São Paulo era a adoção exclusiva de ferramentas de software livre, como o sistema operacional GNU/Linux, o navegador Mozilla Firefox e o pacote de escritórios OpenOffice.org (atualmente chamado LibreOffice). O uso de tecnologias de software não proprietárias garantia independência de fornecedor à administração municipal, economia de gastos com licenciamento e criava uma cultura informacional de soberania em relação às grandes corporações da informática.

Após 2005, a Rede Pública de Telecentros continuou a ser ampliada, mas quase sem novidades no uso e na gestão. Novas unidades de Telecentros eram inauguradas, mas sem qualquer inovação. Em junho de 2011, a Prefeitura de São Paulo comemorava a inauguração da 353º unidade de Telecentro nos mesmos moldes do primeiro, aberto dez anos antes. Nenhuma mudança significativa foi adotada em uma década, condenando os usuários à obsolescência. Tal cenário resultou no desinteresse da população e no consequente fechamento de mais de uma centena de unidades.

Diversificação do programa de inclusão digital

O programa municipal de inclusão digital começaria a passar por grandes mudanças a partir de 2013, quando, para além dos Telecentros, novas formas de abordagem passaram a ser adotadas. Primeiramente, houve a criação de um serviço de wi-fi aberto, com qualidade e estabilidade de sinal, em todos os distritos da cidade. Sua implantação foi incluída no Plano de Metas 2013-2016 da Prefeitura de São Paulo.

A administração municipal também começou a pensar o que seria um “Telecentro do Futuro”. A evolução tecnológica trouxe equipamentos como impressoras 3D, fresadoras controladas por computador e cortadoras a laser. Para popularizar essas novidades foi criada uma rede pública de laboratórios de fabricação digital, chamada de Fab Lab Livre SP. Dotada com máquinas e cursos de ponta, a rede oferta treinamento de eletrônica, robótica, modelagem e desenvolvimento de softwares livres.

Em 2019, a Prefeitura de São Paulo tentou realizar um projeto piloto, o qual chamou de Digilab. Seria uma grande transformação no programa de Telecentros. Chegaram a inaugurar quatro laboratórios de maneira experimental, mas depois não mais avançou. Conforme publicado no site oficial, o projeto dos Digilabs era tornar os Telecentros em laboratórios públicos e gratuitos, que promoveriam ambientes livres e infraestrutura tecnológica para conectar pessoas, projetos e ideias. Deveria fomentar o empreendedorismo e o trabalho compartilhado.

Entre março de 2020, o Brasil e o mundo foram atingidos por uma pandemia global decorrente da contaminação pelo vírus que causa a Covid-19. O uso de centros públicos, como os Telecentros, passou a ser não recomendado. Paralelamente, o período pandêmico forçou uma digitalização acelerada de diversas práticas sociais e ao acesso a serviços públicos e de consumo.

Em abril de 2021, a Prefeitura de São Paulo realizou um evento online (devido à pandemia) para entregar o que chamaram de “kits multimídia”, que permitirão capacitação e realização de cursos e oficinas. Os kits eram compostos por notebook, webcam, Smart TV 50”, tripés e acessórios (suporte para televisão e câmeras).

Após duas décadas, a exclusão digital segue como um problema a ser superado. Parte pode ser resolvido com a retomada do emprego, do salário e da renda da população. No entanto, quando a pandemia acabar, a existência de espaços de convivência presencial, como os Telecentros, será ainda mais importante.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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João Cassino

Jornalista, doutorando e mestre em Ciências Sociais.

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