Um ano de pandemia: morte, fome e indignação – Por Raimundo Bonfim

Não bastasse toda a crise sanitária e econômica que enfrentamos, Bolsonaro só contribui para a piora da situação

A situação da pandemia no Brasil, depois de um ano, nos coloca no quadro de pior país do mundo na gestão da doença, segundo estudo do grupo australiano Lowy Institute. Vivemos o pior momento da pandemia da Covid-19.  É um cenário dramático de crise sanitária, com quase 260 mil mortes e 11 milhões de pessoas infectadas. Isso, somado ao altíssimo número de 13,4 milhões de desempregados, tem levado o país a uma tragédia humanitária sem precedente, com mortes, desespero e fome. Passado um ano da chegada do novo coronavírus, Bolsonaro continua com suas mentiras, nutrindo desprezo e atentando contra a vida. O país não dispõe de um Plano Nacional de Imunização e não tem vacinas suficientes nem para os grupos prioritários. E mesmo com pouca vacina, o governo não consegue organizar a distribuição. Mandou doses do Amazonas para o Amapá.

Enquanto países que priorizaram a vacinação se preparam para voltar à normalidade, o Brasil vive a quarta onda da Covid-19. Há mais de um mês são mais de mil mortes por dia. A situação é gravíssima e dramática. Porém, enquanto o povo morre nos hospitais, na fila por leitos de UTI, por falta de medicamentos básicos (como o oxigênio, ou amarrado para suportar a dor, porque a anestesia acabou), por falta de vacina, o presidente Bolsonaro continua com sua posição negacionista, criminosa, promovendo encontros e aglomerações sem o uso da máscara de proteção, colocando em risco a vida de milhões de pessoas.

Em janeiro deste ano, assistimos ao caos na capital amazonense, quando 31 pessoas morreram em Manaus, só entre os dias 13 e 14, porque houve falta de abastecimento de oxigênio. E o que estava por trás deste genocídio? O presidente Bolsonaro e o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que sabiam da situação, mas não fizeram nada para salvar vidas. Ao contrário, montaram e financiaram uma força-tarefa para ir a Manaus visitar Unidades Básicas de Saúde (UBSs), para defender o uso de cloroquina e hidroxicloroquina, medicamentos que já tiveram ineficácia comprovada para a doença.

Temos um processo de vacinação extremamente lento, com falta de vacinas e ausência de um cronograma estabelecido. A cada semana o ministro da Saúde anuncia um cronograma de vacinação, porém, ninguém confia, pois já fez o mesmo reiteradas vezes. É o resultado do negacionismo, do desprezo pela vida e pela saúde do povo.

Nesse momento, os especialistas alertam que estamos diante da possibilidade real de colapso geral do sistema de saúde. O vírus se espalha pelo interior do país. As pequenas e médias cidades não dispõem de rede hospitalar como as capitais e, em todo território nacional, a ocupação de UTIs se aproxima de 100%.    

Em meio à crise sanitária que o país enfrenta, o nosso Sistema Único de Saúde (SUS) tem sido a grande esperança do povo. É quem tem garantido acolhimento e tratamento adequado para os contaminados. Se não tivéssemos o SUS, a situação seria muito mais dramática. A Central de Movimentos Populares (CMP), em conjunto com outras entidades e organizações de movimentos socais e populares, ao longo dos anos, desde que foi criado em 1988, tem defendido o fortalecimento do SUS, com mais recursos e valorização dos profissionais.

Na contramão da defesa do SUS, Bolsonaro, mais uma vez, no ano passado, investiu forte pela privatização do sistema. Houve uma intensa reação contra essa tentativa de vender a saúde para empresários ligados a convênios particulares. Fomos e somos contra, pressionamos e denunciamos. É preciso ficar sempre alertas e preparados para este embate, porque este absurdo pode voltar à pauta dos liberais a qualquer momento. Por isso, a defesa do SUS, para nós, é uma luta constante, não podemos dar trégua nunca.

Não bastasse toda a crise sanitária e econômica que enfrentamos, Bolsonaro só contribui para a piora da situação.  Em dezembro do ano passado, com a justificativa de não estourar o teto de gasto, cortou o auxílio emergencial de 600 reais. Ainda que insuficiente, esse auxílio foi o que garantiu o alimento básico na mesa do povo empobrecido, apesar do alto custo dos alimentos. Lembremos que, em 2020, alimentos como arroz, óleo, carne, entre muitos outros, tiveram seus preços muito elevados e continuam em alta.

Cortado desde dezembro, a falta do auxílio levou milhões de pessoas para a situação de pobreza, além de contribuir para o agravamento da situação econômica do país, pois os quase R$ 300 bilhões destinados ao auxílio emergencial em 2020 foram fundamentais para evitar uma queda ainda maior na atividade econômica. Esse montante de dinheiro assegurou a 68 milhões de pessoas o mínimo de renda para se alimentar e evitou o fechamento de pequenos negócios instalados nas periferias e comunidades de todo o Brasil. Com o corte do benefício e a falta de um plano de incentivo aos pequenos comerciantes por parte do governo, muitos tiveram que fechar as portas, causando mais desemprego.

Com o fim do auxílio de 600 reais, o povo tem sido jogado na linha da extrema pobreza. Sem emprego e sem o auxílio, a fome tem aumentado em nosso país. Com o auxílio as pessoas conseguiam manter o básico da casa, especialmente comprar alimentos, pagar o aluguel, o gás de cozinha, a energia e a água. Com o fim do benefício, falta comida e a vida das famílias nas periferias piorou muito. Sem emprego e sem auxílio emergencial, milhões de pessoas dependem de ações de solidariedade para colocar comida na mesa e não morrer de fome. É muito triste e revoltante ouvir relatos de pais e mães de que sofrem ao verem seus filhos pedirem o básico para se alimentar e não poder dar, enquanto os poucos milionários, mesmo em plena pandemia, continuam aumentando suas riquezas – fruto da exploração da força de trabalho da classe trabalhadora. 

Bolsonaro e o Congresso querem pagar só 250 reais e por apenas quatro meses. A CMP tem se somado a várias entidades na luta pela volta urgente do auxílio emergencial de 600 reais até o fim da pandemia e, com a mesma força, denunciado a cruel artimanha do governo que, por meio da PEC de autoria do senador Márcio Bittar (MDB-AC), propõe prorrogar o direito do auxílio, mas com a condição de não cumprir a exigência mínima de gastos com Saúde e Educação na União, estados e municípios. Não vamos abrir mão e nem admitir a troca do direito ao auxílio em detrimento dos investimentos obrigatórios em Saúde e Educação, conseguidos com muita luta pelo povo e a classe trabalhadora. A pressão e mobilização fez com que o Congresso, ao menos por enquanto, abandonasse a desvinculação obrigatória de investimento em Saúde e Educação. Defendemos a taxação das grandes fortunas e heranças como medida justa de arrecadar dinheiro para os programas sociais e de distribuição de renda, como o auxílio emergencial.

O governo Bolsonaro e seus aliados se aproveitam do estado de calamidade em que estamos vivendo para, mais uma vez, colocar em prática seu projeto fascista e de destruição do Brasil. Querem “passar a boiada” e acabar com conquistas históricas.

Investir nas áreas sociais é investir nas pessoas. Garantir o auxílio emergencial é dar chance à sobrevivência com o mínimo de dignidade. A vida em primeiro lugar e nenhum direito a menos!

Diante do morticínio, explode uma série de manifestações em todo o país. Também se multiplicam reações em defesa da ciência, do meio ambiente, por vacina, em defesa do auxílio, da saúde, da educação, contra o aumento dos alimentos, da gasolina, do gás de cozinha, por habitação e outras reivindicações sociais. Cresce a resistência ao fascismo, por meio das mais variadas formas de lutas. Aumenta a rejeição a Bolsonaro, apesar do capitão reformado tentar sufocar a insatisfação com ameaças à democracia e uso recorrente da mentira.

Nossa luta tem sido incansável pela volta urgente do auxílio emergencial de 600 reais. A CMP, além de outras entidades, tem promovido carreatas e bicicletadas em todo o Brasil para denunciar as atrocidades do governo Bolsonaro – sustentado pelo mercado, pelos militares, o centrão e grupos mafiosos e milícias armadas. Estamos na luta pela vacina já, gratuita e para todos, Fora Bolsonaro, e pelo retorno do auxílio emergencial, enquanto não eliminarmos a Covid-19 e o Brasil voltar a ter uma política industrial que permita a retomada do crescimento econômico, investimento público, distribuição da riqueza e criação de emprego.

Após um ano de pandemia, de angústia, medo, incertezas e desgoverno – responsável por milhares e mortes e fome – é preciso lutar e ter esperança em dias melhores. Com coragem e luta para enfrentar o fascismo e ações diretas de solidariedade como antídoto ao desprezo pela vida. 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Raimundo Bonfim

Raimundo Bonfim é advogado, coordenador nacional da Central de Movimentos Populares (CMP) e membro da coordenação nacional da Frente Brasil Popular (FBP). Iniciou a militância nos movimentos populares em 1986, na Favela Heliópolis, a maior de São Paulo

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