Raphael Silva Fagundes

11 de fevereiro de 2019, 20h14

Uma ditadura pra quê? O povo escolheu perder seus direitos

Raphael Silva Fagundes: “É preciso lutar contra a corrupção, mas não se trata de uma moeda de troca, e infelizmente um cenário foi montado para isso”

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O objetivo da ditadura foi combater um modelo progressista que visava solucionar a crise econômica abrindo os recursos do país para alguns setores desprivilegiado. Esse modelo não agrada grande parte das elites, que prefere uma política econômica de congelamento dos gastos, concentrando ainda mais a renda.

O modelo implantado pela ditadura fez o Brasil crescer, contudo não diminuiu as desigualdades sociais, muito pelo contrário.

Hoje a questão que se coloca é exatamente a mesma. A esquerda representava um modelo mais aberto da economia. Haddad chegou a mencionar que promoveria um Estado de Bem-estar social.

Já a proposta de Bolsonaro foi de uma economia mais fechada. Dizia que iria tirar os direitos trabalhistas. Seu vice mostrou antipatia ao 13° salário e às férias remuneradas e seu superministro dizia que iria aumentar impostos, privatizações etc.

Cabe lembrar que as propostas econômicas da equipe de Bolsonaro são muito mais radicais que as da ditadura. Propostas que venceram as eleições. Ou seja, naquela época foi preciso implantar uma ditadura para promover uma economia de ampla concentração de renda, hoje essa proposta foi eleita, isto é, preferida pelo povo.

Não foi preciso os quartéis, embora houvesse pessoas que implorassem por uma intervenção. As pessoas votaram conscientes, não houve nenhuma enganação, embora muito “disse não disse”.

Se Castelo Branco estivesse vivo, ele entenderia que as tecnologias de dominação que temos hoje à disposição tornaram a ditadura coisa de criança. Os meios de comunicação sofisticaram-se de tal forma que a produção e a reprodução de “verdades” tornaram-se onipresentes. Essas verdades fazem parte do nosso cotidiano. Está no banheiro quando fazemos as nossas necessidades, na mesa do almoço de domingo etc. Quem investir mais nesses meios certamente vencerá qualquer disputa.

Nos anos 1960 nenhum candidato ganharia uma eleição dando declarações de que é necessário tirar direitos, ou que o 13° salário e as férias são jabuticabas. Era inconcebível. Mesmo com todo ódio que se tinha ao comunismo, declarações deste tipo seriam repudiadas pela população e um tiro no pé de um político.

Contudo, o acordo entre a direita, mídia e judiciário feito hoje conseguiu construir uma imagem demoníaca da esquerda e do seu representante mais popular, Lula. Imagem que não era possível ser criada nos anos 1960.

Não é preciso uma ditadura hoje. O medo em relação a esse fantasma é infundado. Um general que adota um discurso liberal já excita uma esquerda que não está tão preocupada com a relação capital/trabalho.

Ao resumir política apenas à corrupção, a mídia, os críticos etc. deram legitimidade ao político que constrói sua imagem de “não corrupto” de fazer o que bem entender. Mas, evidentemente, só terá apoio se pensar alinhado aos interesses das grandes corporações.

O povo “consciente” (um tipo de consciência política forjada pela mídia, na qual política não é lutar por direitos, mas lutar por honestidade) preferiu largar mão de seus direitos, do amparo estatal, pelo discurso da anticorrupção. Um homem que não é corrupto não pode fazer mal ao povo, por isso tudo que disser é correto. Já um homem que está preso, acusado de corrupção, não pode ter um pensamento legítimo.

É preciso lutar contra a corrupção, mas não se trata de uma moeda de troca (não haverá corrupção, mas também não haverá garantias trabalhistas), e infelizmente um cenário foi montado para isso, já que a perda dos direitos trabalhistas agrada muita gente.

No fim não acabará a corrupção e ainda perderemos os direitos, e os milionários, os que orquestram a política, vencerão mais uma vez mantendo seus interesses obscuros.

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