Vala aberta, Hospital fechado

A existência de bilionários em um país como o Brasil já é escandalosa por si só, mas que a turma do topo da pirâmide tenha dobrado de tamanho é algo atroz

Uma denúncia do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) diz muito sobre o tempo e o sistema em que vivemos: o hospital Menino Jesus, localizado no bairro Ermelino Matarazzo, na zona leste da cidade de São Paulo, segue fechado e sem qualquer indicativo, por parte da prefeitura, de que vá ser aberto.

Ao mesmo tempo, o prefeito paulistano, Bruno Covas (PSDB), anunciou uma operação para abrir 600 valas diárias nos cemitérios municipais da capital paulista.

O esforço é para gerir a morte e não a vida.

Militantes do MTST protestam na porta do hosptal Menino Jesus/ Foto: MTST

Esse escândalo assombroso se soma a outros dois: a aprovação do Projeto de Lei 948, pela Câmara dos Deputados, que permite o setor privado furar a fila da vacinação. Criando assim a luta de classes das vacinas, alo que nem os EUA, onde o sistema de saúde é privado, permitiu.

O outro fato é tão escandaloso quanto: segundo o último relatório da Forbes o número de brasileiros bilionários cresceu de 45, em 2020, para 65. Isso durante a pandemia. É sempre bom reforçar isso.

Os 99% do planeta ficaram mais pobres. Os trabalhos ainda mais precarizados. Mas, os milionários ficaram bilionários.

O mesmo relatório informa que os brasileiros bilionários somam US$ 291, 1 bilhões ou R$ 1,6 trilhões.

Essa riqueza trilhardária de 65 brasileiros equivale a uma fortuna aproximadamente igual a um quinto da riqueza econômica gerada no Brasil em 2020.

Não pode abrir hospital, mas as valas estão garantidas. Não pode pagar R$ 600 de auxílio emergencial para que as pessoas possam ficar em casa, mas os bilionários dobraram no Brasil durante a pandemia.

Mas pode privatizar, diminuir drasticamente o investimento em educação, destruir o investimento em pesquisa (da iniciação científica ao pós-graduação). A essa altura do campeonato soa redundante e cansativo fazer tais afirmações.

Isso é o neoliberalismo em seu nível máximo, porém, com um grande aliado para explorar e enriquecer ainda mais: as adversidades produzidas pela pandemia.

O que se passa no Brasil desde 2019 serve para nos mostrar que: a elite brasileira é profundamente movimentada por uma mentalidade colonial incapaz de enxergar o Outro. É movida pela desumanização de tudo aquilo que está fora de sua classe.

A existência de bilionários em um país como o Brasil já é escandalosa por si só, mas que a turma do topo da pirâmide tenha dobrado de tamanho é algo atroz. Porém, completamente condizente com o neoliberalismo aplicado pelo atual governo Federal: ultraliberal na economia e desumano nos costumes.

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Marcelo Hailer

Jornalista (USJ), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e doutor em Ciências Socais (PUC-SP). Professor convidado do Cogeae/PUC e pesquisador do Núcleo Inanna de Pesquisas sobre Sexualidades, Feminismos, Gêneros e Diferenças (NIP-PUC-SP). É autor do livro “A construção da heternormatividade em personagens gays na televenovela” (Novas Edições Acadêmicas) e um dos autores de “O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente” (AnnaBlume).