O voto expresso – Por Lelê Teles

É mais do que urgente botarmos nossa cara na rua e expressarmos o nosso voto, não podemos nos dar por satisfeitos com os números das pesquisas, o que conta é gente na rua e voto expresso

Vovó Lizete, duplamente vacinada, acordou hoje toda serelepe e com o espírito #29M: camisa vermelha, rubra máscara LulaLivre, álcool em gel na bolsa e, no bolso, um frasco de gás de pimenta para se defender do abuso policial.

Da cozinha, exalava um cheiro deliciante do café arábico que Tia Gorete passava enquanto cantarolava Agoniza Mas Não Morre, do Nelson Sargento: “samba, negro, forte, destemido…”

Biloca, o cãozinho politicólogo, estava saltitante por perceber que iria às ruas manifestar-se.

E sabia disso porque Vovó Lizete havia pendurado em seu pescoço um lenço onde se lia Voto Expresso.

As duas senhoras e o sapiente cãozinho caminharão até a Esplanada para cumprimentar a juventude destemida, cotovelos com cotovelos, juntando-se à marcha pela vida.

Pedirão comida no prato e vacina no braço, auxílio emergencial prorrogado, fim do genocídio do povo pardo, preto e pobre, bem como o fim da matança dos povos da floresta pelos pilhadores de sempre e, cereja do bolo, cuspirão na foto do Necrarca, promovendo um pânquico cuspaço.

Mas antes de matar a fome por justiça e democracia, é preciso forrar o estômago.

Gorete trouxe à mesa o cuscuz com ovo caipira de gema mole, queijo fresco, aipim cozido, suco de pitanga e cafezinho preto.

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“Que história é essa de voto impresso que o Ciro passou a defender agora?”, pergunta Gorete, olhando pro cãozinho que mastigava uma ração vegana.

Biloca respondeu latindo. Disse, com seus au-us, que João Sacana sabe que os votos progressistas são do Barba e que só resta a Ciro lutar pelo voto conservador;  por isso emula o discurso do Necrarca.

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Ciro, latiu Biloca, tá de olho nos votos que derrotaram Haddad.

“Concordo com Biloca”, disse a vovó, “o Necrarca tá derretendo, cresce o número de bolsominions arrependidos e esses efeagacês de sapatênis votarão em Ciro contra Lula, se o cearense de Pindamonhangaba chegar à segunda volta”.

Biloca sacudiu o rabinho e remexeu as orelhas, concordando.

O trio considerava terraplanismo essa fuleiragem de voto impresso.

“Se é pra maquininha cuspir um papelzinho, não é melhor dispensar a maquininha e voltarmos a votar pelo papelzinho, como fazem nos esteites?”, questiona Gorete.

Vovó retruca, “mas aí, os derrotados, seja o Necrarca, seja o Ciro, pedirão a recontagem dos papeizinhos, aécicamente. Milhões de papeizinhos!”

Biloca disse que Bush ganhou no papelzinho, numa fraude descarada, que se fosse na maquininha, Al Gore teria levado e teria elevado o discurso ecopolítico antes mesmo do nascimento da pequena Greta.

O cachorro, que é contra o voto em cédulas, marcado a Bic, e contra o voto impresso, por achá-lo desnecessário, lembrou do episódio em que um bombadão saltou o alambrado do Anhembi, arrancou as cédulas de votação das mãos dos jurados e rasgou-as, melando o sufrágio do carnaval paulistano.

“Quem duvida que, quando a Boca de Urna anunciar a vitória do Barba, no primeiro turno, não surgirão Daniéis Silveiras por todas as zonas eleitorais Brasil afora, rasgando votos impressos na unha e na dentada, para melar o pleito?”, alerta o sábio vira-latas.

O cachorro fez uma releitura do gesto de rasgar a placa de Marielle com a rasgação de cédulas no Anhembi e enxergou uma possível invasão de zonas eleitorais por ciristas e gadistas derrotados, fazendo assim uma incrível e cachorresca ginástica de futurologia.

Por isso, continuou com seu raciocínio canino, é mais do que urgente botarmos nossa cara na rua e expressarmos o nosso voto, não podemos nos dar por satisfeitos com os números das pesquisas, o que conta é gente na rua e voto expresso.

Tia Gorete, que entende tudo pela metade, ensaiou um discurso antes de saírem: “Sou a favor do voto expresso, nada de urna eletrônica ou de cédulas grafadas à BIC, é no gogó, na garganta. Vota em quem, pergunta o mesário, voto em fulano, responde o eleitor, e registra-se o voto em ata”.

“Que coisa mais atrasada”, contestou a vovó.

“Atualíssima”, retruca Gorete, “atual e chique, é assim que fazem nos leilões de joias da Tiffany, no grito e na martelada”.

“E se o eleitor for mudo?”, pergunta o cãozinho.

“Ora”, responde Gorete, “esse vota em libras, faz um éle com os dedos e o mesário marca Lula lá”.

E assim, sorrindo como crianças, ganharam as ruas. No caminho, receberam buzinadas de incentivo e encorajamento.

O cãozinho latia uma canção de feliz revolta: “a sorrir eu pretendo levar a vida, pois chorando eu vi a mocidade perdida…”

Palavra da salvação.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Twitter: @leleteles

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Lelê Teles

Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.

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