Flávio Bolsonaro não apagou postagem em que elogia “protocolo” da Prevent Senior

Publicação do senador é mais uma evidência que sinaliza envolvimento do clã Bolsonaro com o experimento do plano de saúde comparável a práticas nazistas

Nas redes sociais, inúmeros internautas têm afirmado, nos últimos dias, que o senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) teria apagado uma publicação do ano passado em que elogia o “protocolo” da Prevent Senior para tratamento com cloroquina de pacientes com Covid-19.

Isso porque um dossiê feito pela CPI do Genocídio revelou, na última semana, que o plano de saúde ocultou mortes de pacientes com e sem o diagnóstico de Covid-19 que participaram de estudos sem base científica feitos para apontar uma suposta eficácia dos remédios do “kit covid”, como a hidroxicloroquina e a azitromicina. O “experimento” tem sido comparado a práticas nazistas.

“Gente, Flávio Bolsonaro apagou esse tuíte. Já sabem o que fazer, né?”, postou o deputado federal Marcelo Freixo neste sábado (18), junto a um print de uma publicação do senador feito em abril de 2020.

O tuíte, porém, não foi apagado e continua disponível. Nele, Flávio compartilha uma notícia sobre informações de que a Prevent Senior teria reduzido o tempo de uso de respiradores em pacientes com Covid fazendo o uso do “protocolo” clandestino com cloroquina.

“Prevent Senior diz ter estabilizado situação, tem vagas de UTI, já deu alta para 400 pacientes que tiveram covid-19 e criou protocolo que reduziu de 14 para 7 dias tempo de uso de respiradores. SUS nunca a procurou para saber qual foi o protocolo usado”, escreveu o filho do presidente junto ao link da reportagem.

A postagem de Flávio é mais uma evidência de que o clã Bolsonaro teria envolvimento com o “estudo” que custou a vida de pacientes.

Governo acompanhava protocolo de perto

Reportagem de Samuel Pancher no portal Metrópoles, neste sábado (18), confirma a relação do governo Bolsonaro com o “experimento” que Prevent Senior fez utilizando medicamentos sem eficácia contra a Covid em pacientes.

O vice-presidente da CPI do Genocídio, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), já havia afirmado que o dossiê mostra que a Prevent agiu em conluio com o presidente Jair Bolsonaro. “O documento informa que a disseminação da cloroquina e outras medicações foi resultado de um acordo entre o governo Bolsonaro e a Prevent. Segundo o dossiê, o estudo foi um desdobramento do acordo. Ouvir a Prevent continuará em nossa agenda”, escreveu no Twitter.

Publicidade

Esse conluio citado por Randolfe fica expresso em um vídeo de maio de 2020 divulgado na matéria do portal Metrópoles. Trata-se de uma conversa entre Pedro Batista Jr, diretor-executivo da Prevent Senior, e o virologista Paulo Zanotto, apontado pela CPI como integrantes do “gabinete paralelo” que aconselhava Bolsonaro.

A conversa era justamente sobre o “protocolo” para utilização do “kit Covid” em pacientes internados nos hospitais do plano de saúde.

Publicidade

“Eles estão em Brasília neste momento e estão conversando com o alto escalão do governo brasileiro. Eles estão acompanhando isso, o Pedro sabe, muito mais perto do que vocês imaginam”, diz Zanotto em um trecho da conversa. “Eles”, no caso, seriam Nise Yamaguchi e Luciano Azevedo, médicos que também integrariam o “gabinete paralelo”.

“A gente fez um arrazoado de dados do Pedro, Luciano visitou o Pedro, olhou tudo aquilo, trouxe para esse grupo informações impressionantes. Existe um entendimento muito interessante entre a Prevent Senior e o governo federal brasileiro”, afirma ainda o virologista.

Pedro Batista Jr, representante da Prevent Senior, por sua vez, confirma a relação com o governo federal: “A gente compartilha o tempo inteiro o trabalho que está sendo feito. Eles vieram aqui e coletaram nossas informações. O doutor Luciano, a doutora Nise e o doutor Zanotto”.

Prática nazista

Em seu perfil no Twitter, o médico e advogado sanitarista Daniel Dourado classificou a atuação da Prevent como “o maior escândalo médico da história do Brasil”. “Esse episódio da Prevent Sênior tem que ser investigado e o envolvimento com o governo Bolsonaro precisa ser esclarecido. É gravíssimo”, cobrou.

A médica e influenciadora digital Thelma Assis, campeã do BBB20, se chocou com o caso. “Estou em Choque com a Prevent Sênior. Eu pago esse convênio há quase 10 anos para minha mãe. Estou nesse momento cancelando o plano”, tuitou.

O deputado federal Alexandre Padilha (PT-SP), ex-ministro da Saúde, disse à Fórum que vem denunciando “há 1 ano esta combinação macabra entre charlatanismo e agressão a ética em pesquisa. “Em nome do lucro e do bolsonarismo, desprezaram a vida de milhares de pessoas”, lamentou. “O CONEP, na época, mandou cancelar o estudo”, lembrou.

A jornalista Chloé Pinheiro, que atua na área de saúde, classificou a atuação da Prevent como “muito escabrosa, nível Mengele mesmo”. Pinheiro conversou com um ex-funcionário do plano e destacou no Twitter que “coordenadores acompanhavam as prescrições do kit Covid, como num esquema de meta a ser batida numa loja. Quando o médico prescrevia menos ou não prescrevia, era chamado para conversar e pressionado a mudar de conduta”. “Na enfermaria, os pacientes viravam cobaias”, afirmou.

A jurista Luciana Boiteux disse que Mengele “se orgulharia” da Prevent. “Temos que derrubar Bolsonaro e defender a saúde pública urgente! Inacreditável a atitude da Prevent Senior com seus pacientes idosos, tratados como cobaias com medicamentos sem eficácia para Covid. Josef Mengele se orgulharia da empresa”, tuitou.

“Pesquisa com vidas humanas sem consentimento delas é reedição do nazismo”, afirmou o economista Eduardo Moreira.

Conhecido como “Anjo da Morte”, Josef Mengele foi criminoso de guerra e médico nazista responsável por experimentos humanos em prisioneiros dos campos de concentração do Reich de Adolf Hitler.

Avatar de Ivan Longo

Ivan Longo

Jornalista, editor de Política, desde 2014 na revista Fórum. Formado pela Faculdade Cásper Líbero (SP). Twitter @ivanlongo_

Você pode estar junto nesta luta

Fórum é um dos meios de comunicação mais importantes da história da mídia alternativa brasileira e latino-americana. Fazemos jornalismo há 20 anos com compromisso social. Nascemos no Fórum Social Mundial de 2001. Somos parte da resistência contra o neoliberalismo. Você pode fazer parte desta história apoiando nosso jornalismo.

APOIAR