Cid Benjamin

18 de março de 2019, 07h46

Reflexões sobre as lutas identitárias

Cid Benjamin, em sua coluna na Fórum: "O sectarismo de certos ativistas das pautas identitárias muitas vezes beira a falta de civilidade"

Obra "Operários", de Tarsila do Amaral (Reprodução)

Depois que Bolsonaro reconheceu o autoproclamado Juan Guaidó como presidente da Venezuela, o ator José de Abreu também se autoproclamou presidente do Brasil. Foi uma boa sacada. O capitão mordeu a isca e ameaçou processar Abreu. Achei ótimo. Adoraria que a história – digna de Sucupira, cenário do seriado “O Bem Amado”, de Dias Gomes – fosse adiante. Com Bolsonaro no papel de Odorico Paraguassu.

Mas as coisas não são, assim, tão simples.

No último dia 8 de março, Abreu foi saudado com gritos de “presidente” por um grande número de militantes no bar Amarelinho, no Rio de Janeiro, depois da manifestação das mulheres. Mas houve quem o criticasse.

Era o Dia Internacional da Mulher (ou o 8M, como agora dizem os iniciados). E algumas ativistas viram oportunismo político no gesto de Abreu. Para elas, naquele dia só deveria haver manifestações relacionadas com a luta das mulheres.

No mesmo dia foi ensaiada uma vaia à deputada Jandira Feghali quando, num discurso, ela saudou os “homens feministas”. Na opinião de certas ativistas, é impossível haver homens feministas. Existem apenas mulheres feministas, pois só elas sofrem diretamente a opressão de gênero.

É uma opinião. Haverá quem concorde e quem não concorde com ela. Assim são as coisas. Pena que essa opinião se expressasse ali sob a forma de vaias num ato unitário. Assim, o que poderia ser só uma questão semântica ganha importância política, pois, em nome do tal “lugar de fala”, se ensaia uma tentativa de impedir a participação de homens na luta contra o machismo.

Levando-se ao pé da letra este raciocínio, chega-se a situações absurdas. Por exemplo: quem na infância não foi vítima de pedófilos pode, depois, estar na linha de frente do combate à pedofilia?

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O que dizer, também, de parte importante da obra de Chico Buarque de Holanda que, com extrema sensibilidade, retrata o universo feminino e os sentimentos de mulheres? Como fica o “lugar de fala” nesse caso?

A propósito, vale ver o que disse outro artista, o escritor moçambicano Mia Couto, ao ser perguntado se era cobrado por escrever sobre negros, sendo ele branco e filho de portugueses.

“Esse é um debate novo, mesmo no Brasil. É uma coisa que vocês estão a importar de algum lado, não sei de onde, mas desconfio. Mas há também escritores negros que se colocam na posição de brancos. Aliás, a escrita se for interrogada desse ponto de vista de lugar de fala, ela morre. Eu só escrevo porque eu viajo para outros. Eu sou mulher, eu sou criança, eu sou velho, eu sou outros quando escrevo. Se eu só posso escrever naquela competência do meu lugar de fala (…), eu só falo sobre mim. O que cria a literatura é essa capacidade de ser um outro.”

Na lista de absurdos a que se poderia chegar, ocupa lugar de destaque Friedrich Engels, com a sua obra “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, escrita no século XIX. O livro tornou-se um relato clássico sobre as condições de vida dos trabalhadores com a revolução industrial. Engels mostra que a taxa de mortalidade em Manchester e Liverpool, o coração industrial da Inglaterra, tornou-se mais elevada do que no resto do país.

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Era o jovem capitalismo abrindo caminho a ferro e fogo.

Pois bem, Engels era filho de um próspero industrial, embora tenha dedicado a vida à luta dos trabalhadores, sendo o mais próximo companheiro de lutas de Karl Marx. Mas talvez fosse hoje alvo de ataques dos defensores do “lugar de fala”. Afinal, não sofria na pele a opressão do capital.

A rigor, o próprio Marx poderia ser alvejado. No “Capital” ele também denuncia duramente as condições de trabalho dos operários e retrata de forma crua o sacrifício de milhões de seres humanos para a acumulação primitiva do capital.

Devo dizer que não vejo como atributo revolucionário alguém ser negro, mulher ou homossexual. Aliás, vale a pena dar uma olhada no que são as “bancadas” de negros ou de mulheres na Câmara dos Deputados. Elas não destoam da média. São conservadoras.

E nem falo, aqui, da “bancada” de homossexuais, porque entre 513 deputados, apenas Jean Wyllys se assumia como tal. Agora, com o seu exílio, o lugar foi ocupado por David Miranda. Nem há tal bancada. Os demais deputados homossexuais – e certamente eles existem – preferem não se assumir como tal. Tudo bem. É direito deles.

O sectarismo de certos ativistas das pautas identitárias muitas vezes beira a falta de civilidade. Há casos de mulheres brancas abordadas por ativistas do movimento negro para que tirassem os turbantes que estavam usando. Segundo as ativistas, apenas negras teriam o direito de usar o adereço. Seria uma “apropriação cultural” indevida…

Essa agressividade de alguns ativistas é de tal ordem que intimida muita gente. Há quem se acovarde e só expresse sua verdadeira opinião em círculos restritos, nos quais sabe que não será apontado como machista ou racista.

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Decididamente, há algo fora do eixo.

Saúdo a combatividade das feministas que criticaram Zé de Abreu e vaiaram Jandira. Não, claro, pela crítica e pela vaia. Mas porque lutam contra a opressão das mulheres. Somos aliados, queiram elas ou não.

Da mesma forma, saúdo a combatividade de quem pretende o monopólio do uso de turbantes aos negros. Não por concordar com esse comportamento. Mas porque estamos juntos na luta conta o racismo.

Sou branco, homem e heterossexual e tenho origem numa família de classe média. Luto contra toda forma de opressão, não aceitando depender da autorização de quem quer que seja para isso. Digo mais: tenho a certeza de que a adesão de pessoas com perfil semelhante ao meu ajuda a luta das mulheres, dos negros e dos homossexuais.

É positivo que os oprimidos devido à cor da pele, ao gênero ou à orientação sexual se revoltem. É natural que tenham protagonismo ao serem travadas essas lutas específicas. Mas é muito positivo, também, que elas contem com o mais amplo apoio.

Em primeiro lugar, porque devem se articular com a luta pelo aprofundamento da democracia, pelo socialismo e pelo fim da exploração do homem pelo homem. Depois, porque não elas são só dos segmentos diretamente afetados.
Como toda e qualquer luta contra a opressão, são lutas da Humanidade.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.