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15 de outubro de 2011, 10h54

O reencantamento do mundo

São muitas as utopias anunciando o que pode ser o futuro do mundo, o que podem ser as outras formas de ser, os diferentes tipos de individualidade e coletividade. Todas começam por convidar a uns e outros a soltar a imaginação, pensando o presente, relembrando o passado e imaginando o futuro

São muitas as utopias anunciando o que pode ser o futuro do mundo, o que podem ser as outras formas de ser, os diferentes tipos de individualidade e coletividade. Todas começam por convidar a uns e outros a soltar a imaginação, pensando o presente, relembrando o passado e imaginando o futuro

Por Octávio Ianni

A globalização do capitalismo tanto germina a integração como a fragmentação. Na mesma medida que se desenvolvem as diversidades, desenvolvem-se também as disparidades. A dinâmica das forças produtivas e das relações de produção, em escala local, nacional, regional e mundial, produz interdependências e descontinuidades, evoluções e retrocessos, integrações e distorções, afluências e carências, tensões e contradições. É altíssimo o custo social, econômico, político e cultural da globalização do capitalismo para muitos indivíduos e coletividades ou grupos e classes sociais subalternos. Em todo o mundo, ainda que em
diferentes gradações, a maioria é atingida pelas mais diversas formas de fragmentação. São principalmente esses os setores sociais mais drasticamente atingidos pela ruptura dos quadros sociais e mentais de referência. A realidade é que a globalização do capitalismo implica globalização de tensões e contradições sociais, nas quais se envolvem grupos e classes sociais, partidos políticos e sindicatos, movimentos sociais e correntes de opinião pública em todo o mundo.

Cabe reconhecer que essa globalização implica desenvolvimento de uma nova divisão transnacional do trabalho e da produção. Tudo o que antes se apresentava como principalmente nacional revela-se também transnacional, mundial ou propriamente global. O capital, a tecnologia, a força do trabalho, a divisão do trabalho social, o mercado, o planejamento e a violência organizada e concentrada expandem-se por diferentes lugares do mundo. O “fordismo”, o “toyotismo” e outras formas de organização técnica e social do trabalho e da produção caminham mais ou menos livremente pelo mapa do mundo, como caminham as empresas, as corporações e os conglomerados.

Simultaneamente, desenvolvem-se os grupos e as classes sociais em âmbito transnacional. São indivíduos e coletividades crescentemente relacionados e interdependentes, umas vezes organizados, outras desorganizados ou em processo de organização. Todos são desafiados pelas transformações mais ou menos profundas dos quadros sociais e mentais de referência. Na mesma medida que se transnacionalizam as forças produtivas, compreendendo as instituições, os códigos e os parâmetros que organizam as relações de produção, transnacionalizam-se os grupos e as classes sociais. Tanto é assim que se formam estruturas e blocos de poder dominantes em âmbito transnacional, ou propriamente global. Assim se desenvolve a globalização pelo alto, desde cima, articulando os grupos e classes, ou blocos e tecnoestruturas que controlam o poder econômico e político.

Enquanto isso, os setores populares, ou os grupos e as classes sociais subalternos, são desafiados a ajustarem-se a uma realidade social, econômica, política e cultural de âmbito mundial. Os seus quadros sociais e mentais de referência, principalmente nacionais, passam a ser desafiados pelos quadros sociais e mentais de referência abertos com a mundialização das relações, processos e estruturas, redesenhando o mapa do mundo.

É assim que a questão social adquire dimensões globais. As relações de trabalho, as condições de organização, as possibilidades de conscientização, as técnicas de reivindicação e os horizontes de lutas sociais, tudo isso se lança em âmbito mundial. Sem esquecer que a globalização da questão social se enriquece ou complica com as intolerâncias e os preconceitos raciais, de gênero, religiosos, relativos a línguas e outros. A questão social revela-se complexa e emaranhada em implicações diversas, dentre as quais se destacam as econômicas, políticas e culturais. Uma parte importante dessa realidade revela-se com as tensões e os conflitos que se multiplicam com os movimentos migratórios transnacionais e transcontinentais.

Uma face particularmente importante e grave da questão social revela-se no desemprego estrutural. De par-em-par com o desemprego conjuntural, relativo ao metabolismo recorrente das atividades produtivas, desenvolve-se o desemprego estrutural. Devido à intensa e generalizada tecnificação do processo de trabalho e produção, muitos são expulsos do emprego. A adoção de tecnologias eletrônicas e informáticas provoca a potenciação da força produtiva do trabalho, o que leva à dispensa de crescentes contingentes de trabalhadores. Muitos desses transformam-se em desempregados de médio e longo prazo, ou permanentes. São dispensáveis, descartáveis ou sucateáveis, como qualquer outra mercadoria, já que a sua mercadoria, isto é, a sua força de trabalho, torna-se excedente, dispensável. Nesse sentido é que o desemprego estrutural revela-se uma face importante da globalização1.

Esse é o difícil e complicado cenário no qual os setores populares estão sendo desafiados a movimentar-se, organizar-se e conscientizar-se, para reivindicar e lutar pela mudança das suas condições de trabalho e vida, pela transformação das instituições, códigos e parâmetros, nos quais prevalecem os interesses dos grupos e classes sociais dominantes. A idéia de neo-socialismo implica o reconhecimento de que os dilemas sociais, econômicos, políticos e culturais manifestam-se, simultaneamente, em âmbito local, nacional, regional e mundial. Mas reconhece, necessariamente, que o âmbito mundial tem adquirido relevância crescente. Reconhece que as relações, os processos e as estruturas de

Com o neo-socialismo, o “desencantamento do mundo” abre possibilidades reais e universais para a emancipação de povos, tribos, nações e nacionalidades; o que abre outras possibilidades de “reencantamento do mundo”. Se pode ser uma nova modalidade de “reencantamento do mundo”, o neo-socialismo obviamente será aberto à pluralidade dos mundos

dominação e apropriação, simultaneamente de integração e fragmentação, desenvolvem-se em escala global e entram na determinação de muito do que é local, nacional e regional. O neo-socialismo pode ser denominado “neo” inclusive porque se apóia na avaliação crítica dos regimes socialistas instalados na União Soviética, em países da Europa Central, China, Angola, Moçambique e outros estados.

Nesses casos, nos quais evidentemente houve muitas realizações importantes, também aconteceram equívocos e distorções. Mas deve-se reconhecer que algumas dessas distorções foram provocadas ou acentuadas pelo clima ideológico e geopolítico criado pela Guerra Fria, orquestrada pelos governantes dos Estados Unidos e apoiada pelo Japão e por países da Europa Ocidental e do então Terceiro Mundo. A Guerra Fria funcionou inclusive como um poderoso esquema geopolítico de militarização dos países alinhados aos Estados Unidos. Além disso, dinamizou e generalizou a expansão do capitalismo. Daí, em parte, o agravamento de algumas distorções sociais, econômicas, políticas e culturais nos paises socialistas; além da militarização grandemente induzida pelo complexo industrial militar norte-americano2.

Em tudo o que tem sido de inovador e realmente socialista, assim como em tudo que tem sido problemático e distorsivo, essas experiências socialistas nacionais representam uma base importante para a eleição de meios e modos para a redefinição de novas propostas sobre as condições e as possibilidades de socialismo no mundo. Sim, “socialismo no mundo”, e não apenas em âmbito nacional. A globalização das tensões e contradições sociais, bem como das reivindicações e lutas, lançam em nível internacional, ou propriamente global, o que se imaginou que seria viável em nível nacional.

É na escala da sociedade global, tendo em conta a trama de suas relações, processos e estruturas, bem como o jogo de suas forças sociais, que se coloca a idéia e a prática de mudança, transformação ou revolução, em moldes socialistas. Esse é o âmbito no qual se revelam e desenvolvem as diversidades e as desigualdades, as interdependências e as complementariedades, as integrações e as fragmentações, as tensões e as contradições, que tornam a sociedade global o novo palco da história.

Trata-se de um novo palco da história no qual se movem indivíduos e coletividades, grupos e classes sociais, nações e nacionalidades, geoeconomias e geopolíticas. Aí se manifestam as relações, acomodações, tensões e contradições entre capital e trabalho, mercado e planejamento, propriedade privada e propriedade coletiva, assalariados e proprietários, mulheres e homens, jovens e adultos, nativos e conquistadores, negros e brancos, africanos e europeus, orientais e ocidentais, islâmicos e cristãos. São múltiplos, diferenciados e encadeados os nexos, articulações, acomodações, tensões e contradições que se desenvolvem todo o tempo em todos os lugares.

É óbvio que a idéia de neo-socialismo reabre o tema da modernidade-mundo. O próprio neo-socialismo pode ser visto como um desenvolvimento da modernidade-mundo, no sentido de que traduz e realiza conquistas da ciência em benefício de indivíduos e coletividades. Traduz e realiza os princípios de liberdade, igualdade e solidariedade para todos, abolindo desigualdades sociais, raciais, de gênero, religiosas e outras. Envolve a criação das condições sócio-culturais e político-econômicas para a crescente generalização das conquistas materiais e culturais, de tal modo que todos os setores sociais subalternos deixem de sê-lo, possam participar plenamente das produções, realizações e conquistas. Com o neo-socialismo, o “desencantamento do mundo” abre possibilidades reais e universais para a emancipação de povos, tribos, nações e nacionalidades; o que abre outras possibilidades de “reencantamento do mundo”.

Se pode ser uma nova modalidade de “reencantamento do mundo”, o neo-socialismo obviamente será aberto à pluralidade dos mundos. Não expressará nem realizará apenas uma idéia, mas as condições e as possibilidades de transparência nas relações sociais em geral. Nisto também se trata de “neo” socialismo. Ao expressar e realizar idéias de modernidade, será plural e múltiplo, conforme as condições e possibilidades de indivíduos e coletividades, em todo o mundo. Um mundo no qual hinduísmo, budismo, confucionismo, taoísmo, africanismo e indigenismo são expressões de modos de ser, agir, pensar, sentir e imaginar.

Faz tempo que indivíduos, coletividades, povos, tribos, nações e nacionalidades criam e recriam as mais diversas utopias. Aí predominam formas de sociabilidade nas quais uns e outros podem desenvolver mais plenamente as suas possibilidades de ser.

São utopias que nascem e renascem no contraponto das forças sociais, envolvendo sempre passado e presente, existência e consciência, alienação e emancipação. São muitas as utopias anunciando o que pode ser o futuro do mundo, o que podem ser as outras formas de ser, os diferentes tipos de individualidade e coletividade. Todas começam por convidar a uns e outros a soltar a imaginação, pensando o presente, relembrando o passado e imaginando o futuro.

“Faz tempo que o mundo tem um sonho, do qual basta ter consciência para convertê-lo em realidade. É claro que não se trata de traçar uma reta do passado ao futuro, mas de realizar as idéias do passado. Veremos, finalmente, que a humanidade não se iniciará em um novo trabalho, mas que realizará desde o princípio, conscientemente, seu trabalho antigo”3.

1. Banco Mundial, O Trabalhador e o Processo de Integração Mundial, Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial, Washington, 1995: Jeremy Rifkin, O Fim dos Empregos (O Declínio Inevitável dos Níveis dos Empregos e a Redução da Força Global de Trabalho), Makron Books do Brasil, São Paulo, 1995; Ricardo Antunes, Adeus ao Trabalho?, Cortez Editora e Unicamp Editora, São Paulo, 1995. (voltar)
2. Eric Hobsbawm, Era dos Extremos (O Breve Século XX: 1914-1991), trad. De Marcos Santarrita, Companhia das Letras, São Paulo, 1995; Seymour Melman, Pentagon Capitalism (The Political Economy of War), McGraw-Hill Book, Nova York, 1970.(voltar)
3. Carta de Marx a Ruge, datada de dezembro de 1843, publicada em: Karl Marx e Arnold Ruge, Los Anales Franco-Alemanes, trad. de J. M. Bravo, Ediciones Martinez Roca, Barcelona, 197O, p. 69.


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