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22 de outubro de 2011, 14h07

Toques musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Por Julinho Bittencourt

 

Sozinho em um quarto de hotel em Brasília assisto ao filme A ODISSÉIA MUSICAL DE GILBERTO MENDES. No monitor da TV, ao lado da janela onde explode dourado o incomparável céu do planalto, surgem Santos, a minha cidade, meus amigos, a música e a vida do querido maestro. Tudo colabora para turvar qualquer capacidade crítica. Tenho a alma comprometida com o que vejo, mas nem por isso deixo de ver e achar lindo o que posso enxergar. E também o que me escapa. Lembro que, há três anos, a última coisa que fiz antes de vir para longe foi passar uma tarde na casa do maestro, fazendo uma entrevista para esta Fórum. Lá, na companhia dele e da esposa Eliana, ouvi sobre suas histórias, músicas e paixões.
Neste momento, no filme, ouço muitas delas novamente e várias que não conhecia, narradas cândida e belamente pela sua neta, filmadas pelo filho Carlos de Moura Ribeiro Mendes e fotografadas pelo outro filho Odorico Mendes.
Não sei muito de cinema. O olhar aqui é outro. É o olhar de dentro e também, é claro, o olhar do ouvido, que atravessa a tela e o tempo, as cores e a música. O filme tem o mérito de lançar o espectador para a música e a vida afetiva de Gilberto Mendes como nada que houvesse visto antes.
É simples assim. Diante de um navio, na murada do bairro da Ponta da Praia, o maestro conta sua vida de garoto, aponta os locais onde remava e passeava. Inesperadamente, a enorme embarcação apita interrompendo a tarde. O ouvido santista abre o sorriso de menino que contava suas aventuras e pergunta: “Pegou isso?”. Em qualquer porto do mundo onde um barco cantar assim estaremos novamente lá, em Santos, na murada da Ponta da Praia. O filme sai da cidade e roda o mundo atrás de Gilberto e sua música.
Russos, belgas, alemães, americanos e muitos outros povos se rendem ao seu talento e suas obras inventivas e ousadas. As cenas de concerto são inusitadas e emocionantes. A apresentação da peça Santos Futebol Music, com o maestro em dois tempos, nos nossos dias, no momento da feitura do filme, e na década de 1970, regido por Eleazar de Carvalho, dá a dimensão exata da sua atemporalidade.
Regendo a platéia com suas placas, faz com que o público seja parte das texturas orquestrais complicadas e atonais que constrói. Uma charanga improvisando um samba invade o teatro, uma rádio transmite um jogo do Santos de Pelé. A barafunda é completada por atores que jogam futebol no palco, chutam, gritam e batem pênaltis. Eleazar cabeceia a bola e a orquestra finalmente é expulsa de campo. Tanto em 1970 quanto em dois mil e tantos Gilberto é aclamado. Tanto no Brasil quanto no mundo.
Poderia escrever o resto da noite sobre Gilberto Mendes, seu filme e sua obra. Tudo o que vejo ali é sempre bem menor do que de fato me parece. O maestro e sua música inundam a tarde. Nele, como na vida, Gilberto sempre volta à terra natal e a seus amigos. Ensina que nada se faz sozinho. E através da sua odisséia musical, o mundo acabou de me contar o quanto a sua música é imprescindível.
Para celebrar, TEMOS A VOLTA DOS MUTANTES, quase todos, em um concerto no Barbican, em Londres, em homenagem ao movimento tropicalista. Rita Lee nem pensou na hipótese de comparecer. Os outros remanescentes se juntaram à jovem Zélia Duncan, um dos melhores sopros de vida da nossa nova música pop, e correram pro abraço. O resultado é um delicioso disco ao vivo, que conta toda a história do show histórico, com sobras de energia e um projeto de futuro construído com ecos do passado.
OS MUTANTES AO VIVO EM LONDRES É UM DISCO E TANTO. Tem sofrido críticas aqui e acolá de fãs mais ardorosos e conservadores, por conta, entre outras coisas, da falta da madame Lee e das comparações absurdas com os discos de outrora. É claro que a vida íntima da banda está intrinsecamente ligada à Rita Lee e à década de 1960. Não dá pra separar os dois irmãos disso tudo e, muito menos, o período lisérgico e instigante em que tudo se deu. Não dá, enfim, pra transpor um tempo em outro. Quem viveu, viveu, e quem não viveu que ouça e aprenda. E é exatamente aí que entra a importância dessa nova reunião.
O legado dos Mutantes é muito mais importante do que muitos imaginam. Os Beatles da Pompéia tornaram a inteligência algo possível dentro de um mercado desprovido de qualquer substância que não fosse a pose e o excesso. Sua música transcendeu as possibilidades calculadas pelos executivos e suas gravadoras. Eram músicos de roque que se comunicavam com a inteligência da nossa música. Tocaram com Gil e Caetano, foram parceiros do Tom Zé, interpretaram Jorge Benjor e por aí afora. Foram produzidos e arranjados por um dos maestros mais inventivos e talentosos do nosso tempo, o já citado e comentado nesta coluna Rogério Duprat, recém-falecido e inesquecível.
Uma série de ingredientes se formou em torno do talento inabalável da rapaziada. O tempo passou e mandou tudo pras páginas da história, em forma de acervo e biografia. O show no Barbican foi uma celebração possível de tudo isso que muitas vezes nos pareceu impossível. Zélia Duncan não é Rita Lee, é claro. Mas é moderna, legítima e entrou na história toda pra fazer o próprio papel. E se saiu muito bem. Nada soa falso. Além dos próprios Mutantes de então, estão lá também alguns músicos de apoio, como a percussionista Simone Soul. Os herdeiros do legado dos Mutantes tocam em tom de reverência todas aquelas canções e arranjos que a gente aprendeu a amar.
São poucas as bandas que podem dar este prazer ao seu público. São poucos os músicos capazes de tamanha dignidade, ou seja, lá pela casa dos 60 e tal parecerem mais jovens do que nunca. Isso tudo sem contar que a qualidade de áudio, os instrumentistas e tudo o mais está impecável. Um som impensável para 40 anos atrás. Mas, pensando bem, eles eram mesmo impensáveis para 40 anos atrás.


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