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08 de fevereiro de 2012, 21h26

No meio do caminho, a arte

O pintor Zé Damas, 70 anos, teve o talento revelado ao se aposentar como ourives: sua simplicidade e a beleza de suas obras somam-se hoje aos divinos encantos da mineira Tiradentes

Por Maria Angélica Ferrasoli

 

Na pequena Tiradentes, cidade histórica mineira, a principal igreja aberta à visitação é a matriz, dedicada a Santo Antônio. Seu interior tem preciosos altares de talha dourada e um suntuoso órgão português datado de 1788, além dos projetos da fachada e portada atribuídos a Aleijadinho. O visitante mais atento há de perceber que existem ali santuários singelos, mas igualmente comoventes. Um deles é a casa-ateliê do pintor naïf José Vicente Ferreira, o Zé Damas, na rua do famoso chafariz de São José, construído em 1749, com uma imagem do santo em terracota.
Além de sua arte, seu Damas, de 70 anos, traz à tona simplicidade e beleza – o talento espontâneo, revelado quase que por acaso (e reconhecido internacionalmente), vem acompanhado da despretensão de quem nada ambiciona além de seguir pintando. “Eu, que só tenho o primário, com tudo que me aconteceu só posso agradecer a Deus”, afirma. Embora sempre tivesse gostado de desenhar “com lápis preto”, a pintura só chegou à sua vida aos 54 anos.
Trabalhou como ourives para o cunhado, até que, aposentado, viu seu rendimento cair a um salário mínimo, que recebe até hoje. “Resolvi então começar a pintar na tela, e na primeira que fiz já dei muita sorte”, conta. O retrato da rua da Câmara de Tiradentes foi levado para o Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil, o Mian, no Rio de Janeiro. “O rapaz veio aqui em casa e queria comprar a tela, na qual pintei. Ia levar para ver se o museu aprovava. Mas eu dei a ele, e depois ele me enviou um documento com a aprovação”, recorda. Esse primeiro quadro é parte do acervo do Mian, um dos maiores do mundo no gênero, com mais de 6 mil obras de pintores brasileiros e de outros 100 países, desde o século XV.
Da rua da Câmara aos muitos monumentos históricos, passando pelo casario de Tiradentes, tudo em volta começou a ganhar cor com os pincéis de Zé Damas. Dois anos depois de pintar o primeiro quadro, em 1993, faltou dinheiro para comprar as telas. “O que eu fiz então foi pegar as pedras na rua, o cascalho, e pintar. Deu certo, as pessoas gostaram.” Até hoje, logo cedo, uma ou duas vezes por semana, ele vai ao rio das Mortes separar pedras. “Escolho, limpo, passo a base branca e quase sempre já pinto com o pincel mesmo, sem usar o lápis, porque assim tenho mais firmeza”, ensina.
Outras personalidades do mundo da pintura passaram a reconhecer o trabalho do pintor, que já expôs em Brasília e na cidade mineira de Barbacena, e até em Washington, nos Estados Unidos.

Cotidiano

Nascido e criado em Tiradentes, passou a maior parte da vida com os pais e um sobrinho, não se casou nem teve filhos. Sua rotina inicia muito cedo, em geral pelas quatro ou cinco da manhã, quando já começa a pintar. Embora nos últimos tempos tenha sido obrigado a usar óculos com mais de quatro graus por “problema de vista fraca”, Zé Damas acha que as coisas estão melhores do que quando se aposentou. “Aqui o movimento maior é de sexta a domingo, vem gente de todo lado, de todo o mundo. Diversão é mais no fim de semana, mas não pra mim. O que eu mais gosto mesmo é de pintar.”
Por R$ 30 é possível sair do ateliê de Zé Damas com três telas pequenas e várias pedrinhas pintadas, e o cliente sempre leva vantagem na hora de negociar. O preço baixo que estipula para suas obras já foi questionado por amigos, mas ele parece não se importar: “assim, sempre alguma coisinha se vende”. Sem vaidade, sem pretensões e uma autenticidade tão forte nas palavras quanto no traço, Zé Damas lembra mesmo a Minas quase divina resgatada em livros, músicas e o repicar de sinos de suas tantas igrejas. E, mais do que isso, o retrato preciso do que diz ser: “Estou satisfeito”, explica.


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