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20 de outubro de 2011, 10h56

Toques Musicais

A visão de Julinho Bittencourt sobre música

Por Julinho Bittencourt

 

O DOCUMENTÁRIO MÚSICA É PERFUME, SOBRE A CANTORA MARIA BETHÂNIA, que acaba de ser lançado em DVD pelo selo Biscoito Fino, tem um aspecto vital, que o transforma num grande e curioso filme para nós brasileiros e admiradores da cantora. O filme foi feito pelo francês Georges Gachot e, por conta disso, tem uma visão completamente diferente da nossa, tanto com relação à Bethânia quanto ao Brasil e, é claro, à música brasileira. Engana-se, no entanto, quem pensa que a visão do francês é exótica. A cantora e o país que ele nos apresenta são muito mais sensíveis e sofisticados do que até mesmo nós conseguimos perceber.
Gachot viu Bethânia pela primeira vez no festival de Montreux, na Suíça, em 1998. De lá até 2003, o diretor pesquisou a vida da cantora e a música brasileira. Encantado com o nível artístico do que viu, caiu em imersão num universo até então bastante estranho para ele. O resultado é um sujeito com um olhar sensível e privilegiado, diante de um universo novo e ao mesmo tempo transbordando de talento.
O nome do filme parte de uma idéia de Bethânia, que compara a memória afetiva das canções com a dos cheiros. O signo é reforçado ainda pelo olhar francês, um olhar vindo da capital dos odores. A primeira imagem que o espectador tem é da praia de Copacabana de noite, seus varredores e lixeiros, pessoas andando a esmo pra lá e pra cá e, finalmente, o mar. Ao fundo ouvimos Bethânia declamando “Pátria Minha”, de Vinícius de Moraes. Corte para a cantora no estúdio regendo seus músicos em “Gente Humilde”, antiga melodia de Garoto com letra póstuma de Vinícius e Chico Buarque. Ao final, exultante, elogia os arranjos. Outro corte e ela conta histórias, dá opiniões, fala, fala e também falam dela. Tudo é cercado de afeto e energia. Tudo converge em Bethânia e seus lugares, de onde veio e para onde vai.
O tripé do filme se sustenta na cantora, seu tempo e espaço e a sua música. A partir desses elementos, tudo o que acontece é regido por ela e sua força, destilada sempre com muita naturalidade e simplicidade. A forma como ela chega em seu produto final é desconcertante. Tanto quando declama quanto quando canta, está sempre em sintonia com os músicos, através do produtor Jaime Alem e com o público, quando está ao vivo. Tem domínio de tudo. É uma profissional absolutamente consciente do que acontece à sua volta. Música é Perfume é uma grande lição que o francês Gachot nos dá. Um olhar de fora que nos traduz de forma límpida uma grandeza infinita a que nós nos acostumamos e não temos conseguido enxergar, talvez por olhar tão de perto.
E GRANDEZA QUE MERECE SER OUVIDA A QUALQUER DISTÂNCIA TAMBÉM ESTÁ NO RECÉM-LANÇADO CASA DE VILLA, DO VIOLONISTA E COMPOSITOR GUINGA. Nele, o músico resolveu finalmente atacar de cantor. E o resultado é muito bom, em um disco repleto de excelentes canções. Interpreta com inteligência e jeito único as suas composições tão próprias. Guarda no seu canto uma certa melancolia que cabe como nenhuma outra nas modinhas sinuosas e melodias inesperadas que inventa.
E essas melodias são todas construídas a partir do brejeiro da canção popular e do choro e também das estruturas que Villa-Lobos fez a partir disso. O que Guinga constrói é, de certa forma, uma alternativa ao que Tom Jobim se entregou de corpo e alma na segunda metade da sua obra. Cada um deles, no entanto, têm um jeito muito único de percorrer os infinitos atalhos deste mesmo caminho.
E, assim como Tom também, a canção popular é apenas uma das vertentes da música de Guinga que, apesar de cantar excelentes canções neste Casa de Villa, mostra também vários temas instrumentais, dando a impressão, muitas vezes, que foram feitos por outro músico. “Villalobiana”, por exemplo, parece ter saído de uma sala de concerto enquanto a deliciosa “Bigshot” tem todo o jeito de ter vindo de uma New Orleans plantada no subúrbio do Rio de Janeiro.
Casa de Villa, de Guinga traz uma surpresa atrás da outra, a cada faixa executada. Assim como todos os outros discos do autor, é feito para ouvir uma, duas, várias vezes. E, assim como os outros também, reiventa tudo e, o que é melhor, reinventa a si próprio também.
E QUEM TAMBÉM TEM REINVENTADO O RIO DE JANEIRO É O CANTOR MARCOS SACRAMENTO. Sua música singra soberana pelas ruas e botequins do bairro da Lapa. O cantor, que se apresenta regularmente por lá, é a cara do lugar. Seu som tem o mérito de modernizar o choro e o samba da malandragem carioca sem adulterá-lo. É inventivo, grava discos com freqüência louvável para artistas independentes, mas é com os antigos, com o repertório mais tradicional que consegue seus momentos mais modernos.
Acaba de lançar SACRAMENTOS, mais um disco dele repleto de bossa e excelentes sambas de Noel Rosa, Custódio Mesquita, Ataulfo Alves entre outros bambas do pedaço, que o cantor faz questão de manter de pé. O disco é quase uma continuação do seu Memorável Samba, feito em 2003, nos mesmos moldes. Repertório antigo interpretado com reverência, mas ao mesmo tempo com um sabor novo.
As sutilezas e detalhes operam o que há de melhor em Sacramentos. Com canções mais do que consagradas, como “Meu Barracão” e “Dama do Cabaré”, de Noel Rosa; “Adivinhe Coração” e “Mentirosa”, ambas de Custódio Mesquita em parceria com Evaldo Ruy e Mário Lago respectivamente, entre vários outros clássicos, o cantor reza na mesma cartilha e descobre um outro alfabeto. A gravação de “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro é um bom exemplo do que é o disco. Sacramento coloca a canção à meia distância da versão consagrada por Elis Regina. É como se ela cantasse de uma boite e ele do quintal. As duas gravações são ricas em ritmo e harmonias, em modernidade e tradição. Elis aponta um futuro provável e Sacramento lembra o passado que constrói outro tempo. Duas vertentes válidas e tão próximas quanto distantes. O disco encerra com 3 canções contemporâneas com jeito de antigas. “Ilusão”, de Fátima Guedes, “Falo de Amor”, de Paulo Baiano e do próprio Marcos Sacramento e “Sacramentos”, de Luiz Flávio Alcofra, o violonista do disco. De todas elas, “Ilusão” talvez seja a única concessão ao moderno que o autor faz. De resto, assim como Drummond, prefere apostar no eterno.


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