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21 de outubro de 2011, 18h31

Toques Musicais

Coluna musical de Julinho Bittencourt

Por Julinho Bittencourt

 

DOIS LANÇAMENTOS RECENTES DO SELO BISCOITO FINO voltados para as crianças merecem destaque e deferência. O primeiro deles é o DVD e CD TOQUINHO NO MUNDO DA CRIANÇA, com sete canções do compositor acompanhadas de animações de André Lieban. Algumas destas animações venceram vários festivais, entre eles o aclamado Anima Mundi. O outro fica por conta do disco AULA DE SAMBA, um álbum primoroso, com 12 sambas que foram pra avenida contando a história do Brasil.
TOQUINHO NO MUNDO DA CRIANÇA – Todos conhecem o talento de TOQUINHO para compor canções infantis. Missão ao mesmo tempo difícil e simples, o compositor conseguiu criar clássicos da nossa música feita especialmente para os pequenos. Alguns projetos seus ao lado de Vinícius de Moraes ou de Mutinho, como A Arca de Noé e Casa de Brinquedos, por exemplo, são clássicos que já formaram gerações. Algumas destas canções como “Bicicleta”, “O Caderno”, “O Pato”, “A Casa”, além de “Errar é Humano”, “Mundo da Criança” e o clássico “Aquarela” ganharam neste DVD arranjos diferentes e se transformaram em trilha e tema para desenhos animados deslumbrantes, para dizer o mínimo.
O trabalho todo ainda é completado pelo desenho “Porque o Canguru Salta em Duas Patas” e dois making offs. Um que conta todos os segredos da produção da animação feita pelo pessoal de Laboratório de Desenhos e o outro que mostra Toquinho gravando, passo a passo, a canção “Mundo da Criança”. Assim como as canções, uma viagem inesquecível para a garotada.
AULA DE SAMBA – Uma história do Brasil através do samba enredo. E, apesar de ter um caráter didático, serve a marmanjões de todas as idades, pois traz sambas clássicos que foram sucesso, tanto no disco quanto na avenida, nas décadas de 1940 a 70. O próprio historiador Sérgio Cabral, que assina o texto do encarte, reivindica sambas mais modernos na seleção final. Detalhes à parte, a festa é mesmo quase completa com sambas como “Exaltação a Tiradentes”, na voz de Chico Buarque, “Benfeitores do Universo”, com Zélia Duncan, “Dia do Fico”, com Alcione, “O Grande Presidente”, curioso samba que Padeirinho fez para a Mangueira homenagear Getúlio Vargas em 1956, dois anos após a sua morte, entre outros.
Como licença poética e geográfica, entrou no disco o lindo samba de Silas de Oliveira “Aquarela Brasileira”. Aqui vale um parêntese para o belo trabalho gráfico do cartunista Ziraldo, que aproveitou a deixa e colocou um mineirinho no canto da letra reclamando: “Uai… Num tem Minas”. E, inexplicavelmente, não tem mesmo.
Vários personagens e cantores desfilam pela história do Brasil em alguns de seus mais belos sambas de enredo. A idéia, que só para registro e justiça, foi da cantora Martinália, é tão boa que parece aquela do ovo em pé. Depois de pronta deixa a todos com cara de “como não pensei nisso antes”. Aos pais mais atentos, vale gastar um dinheirinho nestes dois lançamentos. São fantasias que vão valer para todo o sempre.

ASSISTIR VÍDEO CASEIRO É UMA DAS MAIORES CHATICES. Seja de casamento, férias, aniversário de filho etc. O parente ou amigo aparece com o troço e você, pra não ser mal-educado, passa aquela hora e meia ou mais na frente da TV, segurando os bocejos e fingindo interesse. É, de fato, um saco, desde que o protagonista da história não seja o TOM JOBIM, suas tiradas, locais onde morou, e os demais participantes sejam a sua banda, seus parentes e alguns amigos como Dorival Caymmi entre outras celebridades.
O privilégio de um filme assim foi possível graças à Ana Jobim, viúva de Tom, que recolheu todos os seus filmes domésticos, editou e transformou no produto final A CASA DE TOM – MUNDO, MONDE, MONDO. Um presente para fãs e admiradores do maestro.
A cena toda se passa em três lugares vitais para Tom, ou seja, as três casas que manteve durante seus 15 últimos anos de vida: a do Jardim Botânico, cuja construção o Brasil acompanhou com interesse e curiosidade, entrada do piano, altura do pé direito etc.; a casa de Poço Fundo, onde foram compostas canções como “Águas de Março” e “Dindi”; e o pequeno apartamento de Nova Iorque, que ele define como “a view with the room”, algo como uma paisagem com um quarto.
O filme é todo ponteado por Tom declamando seu poema “Chapadão”, que já havia sido publicado no belo álbum Ensaio Poético de Tom e Ana Lontra Jobim, de 1987. Segundo Ana, o poema levou oito anos para ser feito, o dobro do que a casa do Jardim Botânico, que era construída ao mesmo tempo. A seguir, alguns fragmentos do extenso poema:
Vou fazer a minha casa
no alto do chapadão
Vou levar o meu piano
que ficou no canecão.
Vou fazer a minha casa
no alto do chapadão
Vou levar a don’aninha
pra me dar inspiração
Vou fazer a minha casa
no alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
inventar nova megera…

A inteligência, bom-humor e sensibilidade de Tom estão por todo o documentário. Tudo é extremamente leve, tranqüilo, de fato doméstico. Tom conversa, conta casos e piadas, faz gracejos, brinca com a esposa que está junto todo o tempo, interessada no registro de cada uma das paixões do marido. Durante as tomadas de imagens, Ana, que narra a edição final, acaba sendo o fio condutor que ao mesmo tempo desmistifica e reafirma o folclore em torno do protagonista. Os grandes amores do maestro, a partir dela mesma, a música, a arquitetura e a natureza, vão sendo compartilhados com o público, num festival de ingênua intimidade.
Tudo se completa em ensaios e breves apresentações domésticas. A música permeia tudo com delicadeza e intensidade. Tudo o que é executado parece conseqüência natural do que é vivido. No final das contas, o filme vale como um convite de Ana para compartilhar da magia de sua casa. Seu vídeo doméstico, ao contrário dos outros, é irresistível.


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