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24 de outubro de 2011, 18h12

Lugo: “só queremos recuperar nossa dignidade”

Confira a entrevista exclusiva com o candidato Fernando Lugo

Por Daniel Cassol

 

Na semana em que a reportagem esteve no país para acompanhar a campanha eleitoral, Fernando Lugo participou de comícios organizados pelo Partido Liberal, visitou personalidades como o presidente da Conmebol, Nicolás Leoz, e participou – apenas como observador – de um ato do Exército em homenagem à morte de Francisco Solano López, na localidade histórica de Cerro Corá. Ordenado sacerdote em 1977 e vinculado à Teologia da Libertação, Lugo vem de uma família de colorados – como quase todos os paraguaios – que foi perseguida pela ditadura de Stroessner. Espera contar com o voto das bases coloradas, empobrecidas como todo o povo, e diz estar preparado para correr o “grande risco” de governar o Paraguai após seis décadas de corrupção, violência e miséria sistêmicas no seu país.

Fórum – Como sua candidatura está se preparando para eventuais fraudes nas eleições?
Fernando Lugo –
 Há dois elementos importantes. O primeiro é a solidariedade dos grandes observadores de todo o mundo. Da Comunidade Européia, de países, de grupos afins, da OEA [Organização dos Estados Americanos], do Grupo Carter, do Mercosul. E outro elemento é o grande controle eleitoral que a APC está preparando. Um controle eleitoral que leve em conta todas as possíveis formas de fraudes, no dia das eleições e antes das eleições. Esses dois elementos podem garantir, não 100%, mas eleições transparentes e, ao mesmo tempo, legitimidade das pessoas eleitas.

Fórum – O senhor tem dito que o Paraguai não vai copiar nenhum modelo de país na América Latina. Mas o governo Lugo será socialista ou a ampla aliança que foi feita vai impor limites?
Lugo –
 A Aliança é ampla, é pluralista. Temos dito que o Paraguai tem que passar pelo seu próprio processo. O país precisa passar por uma purificação, pela acentuação de um nacionalismo e de um patriotismo, mas aberto a todos os países. O Paraguai se caracterizou nos últimos tempos por uma política externa sem definição. Nós só queremos recuperar a dignidade do país como nação, aberto à região, ao continente, ao mundo. Nestas relações, procurar como os países podem enriquecer-se em termos culturais, políticos, econômicos.

Fórum – Que ações você pretende implementar junto ao Brasil para levar adiante o debate sobre Itaipu?
Lugo –
 Creio que o debate já está instalado. Não é um pecado fazer uma revisão histórica dos tratados de Itaipu e Yaciretá. É simplesmente reclamar de modo legítimo o que é uma injustiça. Creio que os governos de Argentina e Brasil não podem fechar os olhos a essa realidade dilacerante, em que o Paraguai é tratado em inferioridade de condições.

Fórum – Quais são suas propostas para a reforma agrária?
Lugo –
 Em primeiro lugar, é legitimar a posse da terra. Não se pode pensar em uma reforma agrária se não sabemos, com exatidão, como está distribuída a terra no Paraguai. Há muitos estudos, indicadores, mas a verdade é que queremos um cadastro nacional das propriedades, o que pode levar um ano. Paralelamente a isso, realizar conversações, para desenhar o modelo de reforma agrária que mais convenha ao país. E faremos isso junto com os proprietários de terra, as empresas, os sem terra e os setores da sociedade que desejem debater este tema.

Fórum – Os colorados provavelmente limparão os cofres, caso percam as eleições. Um futuro governo Lugo está preparado para esta situação?
Lugo –
 Nós desejamos uma grande auditoria internacional, que nos possa dar pelo menos os indicadores de como se encontra o Estado paraguaio, suas instituições, ministérios. Estaremos em contato com as instituições latino-americanas que possam nos ajudar neste sentido. Queremos fazer um governo transparente e, para isso, precisamos conhecer a fundo em que condições recebemos as instituições.

Fórum – Seu governo terá de ser sustentado pelos movimentos sociais. Não há risco de desmobilização, uma vez que os principais quadros dirigentes estarão ocupando cargos eletivos e no Executivo?
Lugo –
 Creio no contrário. A presença no governo de pessoas que se identificam com a esquerda no Paraguai vai garantir uma governabilidade mais pacífica, baseada na racionalidade, na discussão, no pluralismo. A presença de pessoas de esquerda e direita no governo vai ser um desafio, para uma discussão racional, temática, e não simplesmente emotiva. E isso é o que queremos. A democracia tem que se basear num pluralismo sadio. Isso vai enriquecer, inclusive, os protestos, que sempre têm de ocorrer, desde que dentro dos limites da lei e da racionalidade.

Fórum – O senhor pode entrar para a história como a pessoa que tirou os colorados do poder no Paraguai. Qual é a responsabilidade desta tarefa?
Lugo –
 Não digo que precisamente o Partido Colorado, mas uma cúpula que se apropriou do partido. Eu venho de uma família que pertenceu ao Partido Colorado, tanto por parte de mãe como de pai, e sempre tenho aqui o manifesto da Associação Nacional Republicana (ANR), datado de 1887. Todos os meus irmãos pertencem ao Partido Colorado. O partido foi expulso do poder há muito tempo. Uma cúpula identificada com as oligarquias, com as multinacionais e com a máfia controla o poder, mas há um resto fiel aos princípios do Partido Colorado que está dentro da Alianza Patriótica para el Cambio. E penso que é um desafio grande, mas colocando em primeiro lugar o país. Vale a pena correr este grande risco de desenhar e tentar implementar a mudança real que hoje as grandes maiorias do país estão clamando, unanimemente.


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