Fórum Educação
24 de outubro de 2011, 15h41

Pesquisa destaca os danos da Veja

A revista Veja tem sido, na última década, provavelmente a publicação mais estudada e analisada nas universidades brasileiras

Por Hamilton Octavio de Souza

 

A revista Veja tem sido, na última década, provavelmente a publicação mais estudada e analisada nas universidades brasileiras. Não como exemplo de jornalismo ético, democrático e referencial para a boa formação acadêmica e profissional. Mas como uma publicação que costuma distorcer os fatos, manipular a realidade conforme seus interesses, que discrimina setores sociais e defende o neoliberalismo acima de qualquer senso crítico. A maioria das pesquisas sobre a publicação tem por objeto demonstrar que o jornalismo praticado por ela é extremamente danoso para a sociedade.
No final de 2007, a formanda em jornalismo Priscila Morgado Cury, da PUC-SP, concluiu uma pesquisa sobre as reportagens de capa da revista Veja focadas na miséria – especialmente no tratamento dado aos temas relacionados com a desigualdade econômica e social, o desemprego e a violência urbana e rural.
Em seu trabalho, denominado Construção da Miséria nas Capas de Veja, Priscila identificou que os aspectos destacados no material jornalístico da revista não fornecem aos leitores os elementos essenciais para a compreensão mais precisa da realidade. Numa edição de 2002, que tratou da “Miséria – o grande desafio do Brasil”, a revista personificou a miséria nas crianças – de tal maneira a provocar “um efeito passional de piedade no leitor”.
Além de assegurar que a mobilidade social no Brasil é grande (“cerca de 80% dos brasileiros que se encontram hoje no topo da pirâmide social tiveram uma origem mais humilde”), a revista procura responsabilizar os mais pobres pela própria situação em que se encontram, porque não se qualificam para ascender socialmente. Chama a atenção o fato de que, em 12 páginas de “reportagem”, Veja só citou pela primeira vez a questão da distribuição da renda na nona página, mas sem se deter no aspecto da concentração e da desigualdade – uma das maiores do mundo.
Ao analisar outra edição, sobre “A fome no Nordeste”, Priscila Morgado Cury chega à seguinte conclusão: “A miséria e a fome no Nordeste são caracterizadas, a partir do estudo da reportagem da Veja, como um evento esporádico, que só ocorre nos ciclos da seca. Para o enunciador da revista, a seca, como fenômeno climático sem qualquer relação com os aspectos socioeconômicos da região, é a geradora da pobreza dos estados nordestinos”.
Nos últimos anos, a revista dedicou várias matérias de capa aos problemas da violência, geralmente com tratamento sensacionalista sobre o aumento da criminalidade e a falta de segurança das classes médias. Em 2002, deu a manchete “O Brasil Ensangüentado”, com uma foto de um fuzil-metralhadora; em 2005, a foto de Fernandinho Beira-Mar com o título “Ele Zomba da Lei” e, em outra edição, a manchete “7 soluções testadas e aprovadas contra o crime”; em 2006, uma capa assustadora com a manchete “PCC – como funciona e o que fazer para acabar com o terror”.
Nessas edições, segundo o estudo, a revista Veja “reduz as causas da violência a uma questão de policiamento” e propõe “soluções” quase sempre no sentido do endurecimento do sistema penal, no aumento de gastos e no aparelhamento da polícia e numa série de medidas voltadas para ampliar a repressão do Estado em cima das populações mais pobres, das periferias dos grandes centros urbanos e dos movimentos sociais.
Ao analisar as reportagens que tratam positivamente do crescimento econômico e das maravilhas do neoliberalismo, a pesquisadora demonstra que a revista Veja entra em evidente contradição, pois, se de um lado defende o Estado forte, grande, bem equipado e eficiente para combater a “criminalidade” e garantir a segurança das classes médias, de outro lado, quando trata do plano econômico, diz Priscila, “a revista defende a teoria do Estado mínimo e enaltece os valores de mercado”.
A pesquisadora conclui que as “reportagens sobre pobreza omitem e manipulam dados históricos, apontam causas superficiais, indicam soluções imediatas e criticam os movimentos das classes populares”. Para ela, “fica claro que a revista Veja não incentiva qualquer espécie de organização da sociedade civil para alterar o quadro de desigualdade do Brasil”.


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