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09 de fevereiro de 2012, 11h52

A irracionalidade do automóvel

Um país que cresceu movido pela indústria automobilística e que já teve presidente para quem governar era “construir estradas” dificilmente superará a visão de que o transporte individual é a solução.

Por Revista Fórum

 
Passam anos, décadas, e permanecemos parados no mesmo ponto. Vivemos em cidades travadas, onde usar a palavra trânsito é incidir numa contradição em termos, afinal, tudo que não se faz é transitar. Repetimos à exaustão o mantra de sempre: “por que não se investe em transporte coletivo?”. Periodicamente, São Paulo bate recordes de engarrafamento, torna-se um dos lugares mais poluídos do mundo, torra milhões de reais esvaziando tanques de combustível sem sair do lugar. Em diferentes escalas, essa realidade se repete em muitas grandes cidades brasileiras. Um país que cresceu movido pela indústria automobilística e que já teve presidente para quem governar era “construir estradas” dificilmente superará a visão de que o transporte individual é a solução. A menos que não tenha opção…

O caso do transporte nas metrópoles brasileiras demonstra como determinados conceitos culturalmente arraigados afirmam-se, contra toda racionalidade. Afinal, como justificar o privilégio conferido ao automóvel em políticas de transporte, em que uma única pessoa ocupa o espaço que poderia ser ocupado por muitas num ônibus ou metrô? A ideologia do sucesso individual, que leva as pessoas a associarem imediatamente o status social ao carro que possuem, se confunde com a falta de consciência do compartilhamento do espaço público.

O que está em questão é o próprio sentido de cidadania. Afinal, compartilhar o rico e complexo espaço de uma cidade requer uma postura de respeito pela coletividade, e isso afeta (ou deveria afetar) as escolhas que cada um faz na constituição de seus hábitos cotidianos. O avesso disto, que insiste em se reafirmar na realidade, são essas escolhas irracionais que, com máscara de solução individual, tornam-se uma condenação de todos à má qualidade de vida e ao desperdício de recursos. Sabemos que é tempo de mudar. Aliás, para sermos precisos, é tarde para mudar. Mas antes tarde do que nunca.


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