Entrevista exclusiva com Lula
09 de fevereiro de 2012, 12h12

X-Tudo

A primeira vez que tomei um tacacá, em Belém, fiquei como todo iniciante na apreciação da culinária paraense: com a língua adormecida, não conseguindo falar direito

Por Mouzar Benedito

 

A primeira vez que tomei um tacacá, em Belém, fiquei como todo iniciante na apreciação da culinária paraense: com a língua adormecida, não conseguindo falar direito. Para quem não conhece, o tacacá é um caldo, um caldo feito da goma da mandioca, molho tucupi e camarão, com muitos temperos e um ingrediente especial, o jambu, uma erva amazônica que dá a sensação de adormecimento da língua, um formigamento esquisito.

Depois tomei outras vezes e passei a me impressionar com outra coisa: a cuia em que o tacacá é servido é bem dura e tem uma cor preta que não se apaga. Você pode usar a cuia durante anos que a cor preta se mantém. Como não existem cuias pretas — pelo menos eu não conheço —, fiquei imaginando que tinta tem essa qualidade.

Pesquisei e “descobri”. A cuia paraense tem toda uma tecnologia indígena. Ela é dura naturalmente, diferentemente das nossas cuias daqui. E é bem menor. Chama-se cuietê, quer dizer, cuia verdadeira, na língua tupi. A cor preta é que tem seus segredos.

Não sei se ainda usam a tecnologia indígena, mas acredito que sim. A tinta é feita da casca do jenipapo, que é preta, a mesma usada na pintura corporal indígena. Para fixar na cuia e ficar resistente ao tempo e aos líquidos, inclusive quentes, a tecnologia indígena consiste em urinar num terreiro e pôr a cuia emborcada em cima, com umas pedrinhas embaixo dela, para não encostar no chão urinado. O sol faz o amoníaco existente na urina evaporar do solo, e ele é que fixa a tinta. Depois, usar o mesmo processo para fixar a tinta do lado de fora.

Mais tarde, lendo sobre Hercules Florence, francês que morava em Campinas, fiquei sabendo que ele inventou a fotografia, em Campinas mesmo, muito antes da invenção de Daguerre, em Paris. Lá, a primeira fotografia foi produzida em 1839, enquanto a invenção de Florence é de 1832. Ele veio para cá numa expedição científica que percorreu boa parte do Brasil, inclusive a Amazônia, e resolveu ficar por aqui, morando em Campinas. O detalhe que me chamou a atenção é que ele usou urina como fixador das fotografias. Teria ele aprendido a técnica com os índios?

Bom, de Florence e fotografias, volto a comidas típicas do Brasil, como o tacacá no Pará. Lá a origem com certeza é indígena. Muitas das nossas comidas foram criadas por escravos, a quem o “senhor” só dava o que ele achava ruim. Do porco, no Rio, sobravam para os escravos as orelhas, língua, focinho, pés… Pois com a criatividade deles, juntaram ao feijão e à farinha (falando nisso, o feijão é originário do Brasil e a farinha de mandioca uma criação indígena) essas partes desprezadas do porco, e assim nasceu nossa apreciada feijoada.

Em Minas, os escravos criaram a canjiquinha com suã. Canjiquinha é o milho quebrado, a quirela, que precisa ficar muitas horas de molho até amolecer e tornar-se comível. Com o suã — a coluna dorsal do porco, que os senhores não gostavam — virou um prato muito apreciado.

No Paraná, os trabalhadores (não escravos, mas pobres) só tinham acesso à carne de vaca fibrosa, que nem era de segunda, mas de terceira, e inventaram um jeito de torná-la macia e saborosa. Colocavam numa panela de barro com muitos temperos, tampavam a panela e punham barro vedando todas as possíveis saídas de ar (daí o nome barreado), colocavam para cozinhar no fogo lento do fogão de lenha enquanto iam trabalhar, e depois de muitas horas tinham uma gororoba com aspecto não muito bom (como a feijoada, aliás), mas muito gostosa. O barreado é prato do litoral paranaense, especialmente Morretes e Antonina.

Pois na década de 1990, em Antonina, passei por uma lanchonete e ela tinha na porta uma placa com as ofertas da casa: x-burguer (o cheese dos gringos virou x aqui), x-salada e… x-barreado! Nem as comidas mais originais escapam de uma geração que tem como modelo os Estados Unidos. Fiquei pensando que algum dia teremos o x-feijoada, x-canjiquiha… Talvez com molho de tacacá.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags