Fórumcast #20
09 de fevereiro de 2012, 14h16

Quem pode conter o fluxo?

Frases curtas no Twitter escritas às pressas ou observações postadas no Facebook sem muita reflexão já renderam muita dor de cabeça para algumas celebridades (que se dizem “patrulhadas” como se não estivessem “falando” em praça pública). Ações judiciais podem atingir também usuários anônimos que estrebucham racismo e outros preconceitos, achando que a rede aceita tudo.

Por Vange Leonel

 

As redes sociais ganharam relevância e visibilidade com o surgimento da web 2.0, termo que se refere à segunda geração de serviços mais interativos na internet. Nela, o usuário tem voz e interage cotidianamente com os fornecedores de conteúdos e notícias, pode publicar seu próprio blog e torna-se, ele próprio, filtro, produtor e divulgador de informações. Sites como Orkut, Facebook e Twitter são frutos desta web 2.0 mais interativa. Como resultado desta nuvem de vozes múltiplas e aparentemente disparatadas, nascem convergências, mas também muitas discordâncias, nem sempre travadas em alto nível.

Frases curtas no Twitter escritas às pressas ou observações postadas no Facebook sem muita reflexão já renderam muita dor de cabeça para algumas celebridades (que se dizem “patrulhadas” como se não estivessem “falando” em praça pública). Ações judiciais podem atingir também usuários anônimos que estrebucham racismo e outros preconceitos, achando que a rede aceita tudo.

Veja também:  Com desgaste de Bolsonaro, rede bolsonarista alavanca tag #SomosTodosMichelle

Não. A rede não aceita tudo. E não precisa de censura prévia. Quando há abuso na web (pedofilia, homofobia, xenofobia e qualquer discurso de ódio) existem meios para denunciá-lo. Pode-se acionar o Ministério Público do seu estado, registrar a ocorrência e esperar que os procuradores decidam se é ou não caso de polícia.

Há outros assédios menos graves na web e estes fazem parte da cultura das redes sociais: são os praticados pelos “trolls”. O termo “troll”, diz a Wikipedia, nasceu numa das primeiras redes da internet (Usenet) e se refere àquela “pessoa cujo comportamento tende sistematicamente a desestabilizar uma discussão, provocar e enfurecer as pessoas envolvidas nela”.

Existe uma máxima nas redes: “não alimente os trolls”. Ou seja: ignore-os e não dê ibope a eles. Minha regra, porém, é outra: se o “troll” é anônimo e inofensivo, eu ignoro; se é nefasto e faz apologia a qualquer atitude criminosa, eu denuncio; e se o “provocador” é famoso (na web ou “fora” dela) aí eu respondo, debato, enfrento e discuto – em alto nível.

Veja também:  Padre nega emprego a faxineira e põe culpa em cachorro: "Não gosta de negros"

Os “provocadores com ibope” como o comediante Danilo Gentilli, do programa CQC da TV Bandeirantes, chocou a comunidade judaica ao fazer “piada” racista no Twitter. Seu colega, Rafinha Bastos, acha que pode existir humor em piadas que envolvem estupro. Dá para ignorar estes “provocadores”? Muitos me aconselharam a “não alimentar” o ibope deles. A jornalista Cilmara Bedaque rebateu no mesmo Twitter: “O ibope é do cara. Meu negócio é promotoria e patrocinadores tirando apoio”. Assim, é preciso, acredito, confrontar este tipo de “provocador com ibope” enviando enxurradas de e-mails para portais, escrevendo posts em blogs e repercutindo nas redes sociais.

Finalmente, essas redes são um espaço público para organizar manifestações espontâneas como foi o “Churrascão de Gente Diferenciada” que, em quatro dias, reuniu centenas de pessoas para protestar festivamente pela construção de uma estação do metrô no bairro paulistano de Higienópolis, contra a vontade de parte da elite local.

A rede, assim, vai aprendendo a viver em comunidade, a se autorregular, como uma sociedade de fato. A internet, ao contrário do que pensam alguns luminares que perderam o bonde, não é uma “coisa diferenciada”, “um espaço em separado”, “uma bolha” ou “uma bobagem”. Web é fluxo, e não existe “dentro da rede” ou “fora da rede”. Tudo flui. E quem pode conter o fluxo?

Veja também:  MP investiga Ricardo Salles por enriquecimento ilícito de R$ 7,4 milhões em cinco anos

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum