Fórumcast #19
09 de fevereiro de 2012, 14h14

Uma estratégia altermundista

Membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial, Gustave Massiah lança novo livro em que aborda como é possível ir além das discussões sobre a crise do neoliberalismo e elaborar respostas concretas que representam sua superação.

Por Douglas Estevam, de Paris

 

“Como para todo movimento histórico de emancipação, a questão estratégica é determinante para o movimento altermundista.” É a complexidade dessa questão que o último livro de Gustave Massiah, Une Stratégie Altermondialiste, analisa detalhadamente. Com uma longa trajetória de participação em varias organizações sociais, entre as quais poderíamos citar a vice-presidência da Attac da França, Massiah também é membro do Conselho Internacional do Fórum Social Mundial.

A obra analisa o contraditório debate estratégico no qual se engaja o movimento altermundista e que se constitui numa das prioridades do movimento, “para além das discussões sobre a crise”.
Longe de querer demonstrar uma tese, o objetivo do trabalho é apresentar o debate a partir da “confrontação das estratégias dos diferentes membros do movimento”. Para tanto, o autor inicia com uma análise da situação atual, “caracterizada por uma crise do neoliberalismo e do capitalismo”, para logo avançar sobre os projetos de superação que estão em discussão. Massiah afirma que se a “ideologia neoliberal desmoronou, a lógica neoliberal não desapareceu e ela induz à racionalidade dominante.” Na análise da situação atual, ele identifica três projetos de “saídas possíveis da crise global”: o “neoconservadorismo ou neoliberalismo de guerra”, uma tentativa de “refundação do capitalismo” representada pelo “modelo do Green New Deal” e, por fim, as proposições de “superação do capitalismo.”

Segundo ele, para compreender a crise do neoliberalismo é necessário analisar sua lógica sistêmica e a maneira como ela se impôs, fazendo uma “releitura das fases das globalização capitalista” e tendo como referências os conceitos de “economia-mundo”, do historiador Fernand Braudel, e de “sistema-mundo”, de Immanuel Wallerstein. Esse referencial serve de base para as análises que se referem a períodos de “longa duração”, de “urgência” e de “espaço”, que servem tanto para a análise do “sistema dominante” quanto para as estratégias do movimento. Assim, a crise atual, que se apresenta como financeira, monetária e econômica, tem fundamentos muito mais profundos, o que caracterizaria que estamos atravessando “uma crise social, democrática, geopolítica e ecológica” que, no seu conjunto, configuram “uma crise de civilização”. Esse cenário abriria novas perspectivas e dá responsabilidades particulares ao movimento altermundista.

As saídas possíveis para a crise global

Entre os projetos de saída da crise que estão em disputa, um deles é o “neoconservadorismo ou neoliberalismo de guerra”, caracterizado por um “endurecimento social” que prolonga em todo o mundo “as correntes regressivas,”  reforçando o moralismo evangelista, a ideologia securitária, a instrumentalização do terrorismo, a religião do mercado e a guerra de civilizações. Para conter a crise, os planos de austeridade fiscal impostos para compensar as dívidas públicas representaram graves perdas para os trabalhadores e os programas para salvar os bancos “não permitiram impor um controle do setor bancário e financeiro”. Face ao maior risco de crise social, “regimes autoritários e ditatoriais” podem se impor. Para essa corrente neoconservadora, uma possibilidade de assegurar seus objetivos seria firmar um compromisso com os defensores de uma refundação do capitalismo para assegurar que “o mercado mundial de capitais possa conservar um lugar importante nas novas lógicas de regulação.” Uma outra opção desse grupo seria manter suas posições reforçando as “funções repressivas do Estado para manter a lógica sistêmica neoliberal”.

Uma segunda posição localizada no cenário atual é a proposição de uma “refundação do capitalismo, levando-se em conta os fracassos do neoliberalismo e algumas proposições do movimento de resistência antissistêmico.” Classificado como Green New Deal, esse modelo corresponde a uma revalorização de formas de regulação pública, retomando as “políticas keynesianas de Estado social”. As bases dessas proposições são o relatório da comissão Stiglitz, apresentado à Assembleia Geral das Nações Unidas, e os documentos produzidos pela ONU e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).  No seu conjunto, o Green New Deal considera as dimensões sociais e democráticas da crise, propondo uma redistribuiçao e uma política de reforço do estatuto social do assalariado. Essa reorientaçao necessita de um “reforçamento do Estado Social, da regulação pública e do controle dos setores financeiros e bancários”. Essa proposta também leva em consideração a dimensão geopolítica, propondo uma reforma do sistema internacional, uma ampliação do multilateralismo e a reforma das instituições internacionais, dando maior importância aos países emergentes e à temática ecológica. O movimento altermundista acompanha com atenção a evolução dessas proposições para definir seu posicionamento.

Por fim, a terceira saída possível da crise se organiza em torno das proposições de “superação do capitalismo.” As “alternativas radicais” feitas por esse bloco, que não é homogêneo, se baseiam no “acesso de todos aos direitos fundamentais e à igualdade de direitos”. Trata-se de ir à raiz do problema e de construir uma sociedade baseada na satisfação das necessidades sociais, no respeito à natureza e na plena participação popular. Esse projeto de “emancipação coletiva” supera os projetos keynesiano e soviético, renunciando ao produtivismo que era comum a ambos e concluindo que é impossível “uma refundação com a continuidade das políticas atuais”, além das críticas sobre “o modelo energético, alimentar, climático” e, principalmente, “ao modelo de crescimento”.

As controversas da estratégia altermundista

Segundo Massiah, é a esse momento histórico que a estratégia altermundista deve apresentar respostas. A situação atual cria oportunidades para o movimento que se inscrevem “na urgência, na curta duração,” com a necessidade de “um programa de melhoras imediatas” que responda à “deterioração das condições de vida, à restrição das liberdades e às guerras”. Mas a estratégia deve ao mesmo tempo responder à necessidade de uma transformação das sociedades e do mundo inscritas numa perspectiva de longa duração”, à instauração de uma nova lógica sistêmica de superação do capitalismo.

Mas essas oportunidades só serão agarradas “se as resistências se amplificarem e se as lutas sociais, ecológicas, por liberdades e contra a guerra se intensificarem. Gustave afirma que “resistir é criar.” As lutas de resistência, das mulheres, contra o racismo, a luta ambiental, o comércio local, o software livre, os bens comuns, a soberania alimentar são práticas que constroem uma nova cultura política a partir da qual pode-se propor um novo modelo.

É reforçando o potencial representado pelas resistências que o altermundismo “abre perspectivas de saída da crise”. Ele permite a luta contra a “construção de um novo bloco hegemônico formado pela aliança entre os neoliberais e os neokenesyanos e pressiona o Green New Deal mundial a superar seus limites.” No entanto, as proposições do movimento altermudista não estão livres de “serem recuperadas” para “reforçar a lógica do sistema”. O momento é de possibilidades e incertezas, mas para Massiah, que entende o movimento altermundista como “um movimento histórico” que se apoia nas “lutas e práticas alternativas daqueles que vivem desde o presente em conformidade com suas ideias,” trata-se de refutar desde agora “a fatalidade e de se engajar nos caminhos da liberdade.”
A resposta imediata e a construção de um novo mundo

Fórum – O seu livro retoma algumas discussões que já estavam prensentes em textos que você havia escrito anteriormente. Como você organizou o livro e como nasceu a ideia de escrevê-lo?

Gustave Massiah – Efetivamente, faz anos que intervenho nos debates da Attac, do  Centre de Recherche et Information pour le Développement (CRID), do Initiatives Pour un Autre Monde (IPAM) e do FSM. Fiz vários artigos sobre as diferentes discussões e pouco a pouco me dei conta, durante essas discussões, que uma questão que me parecia muito importante e era muito mal compreendida, era a questão da estratégia. As pessoas discutiam muito sobre o que deve ser feito imediatamente, qual a política imediata, como podemos melhorar as condições de vida, o que devemos denunciar, e discutiam também sobre como ultrapassar o capitalismo, como construir um novo mundo etc. Mas havia muita dificuldade para ligar os dois. Então, durante os últimos anos, fiz muitas intervenções sobre a estratégia, quer dizer, como ligar os objetivos, as ações imediatas e a construção de um novo mundo. Essa foi uma das primeiras razões pelas quais acreditei que seria interessante fazer um livro.

Uma segunda razão é que havia necessidade de dar à nova geração referências sobre a nossa geração militante. Como cada uma desenvolve suas próprias proposições, sua cultura, sua maneira de ver o mundo, suas formas de engajamento, o livro seria também uma possibilidade de responder a muitas questões que me foram feitas e de explicar como a geração anterior tinha pensado essa questão da estratégia. Para isso, fui muito ajudado por minha filha, com quem trabalhei e que não faz parte da mesma geração. Ela me interpelou, me obrigando a rever uma série de coisas, a aprofundar, a falar de outra forma e a estabelecer uma relação entre essa nova geração política e a antiga geração militante. Foi isso que deu origem ao livro.

Fórum – E quais são os fundamentos dessa estratégia  altermundista?

Massiah –  No meu livro, proponho uma reflexão sobre como construímos uma estratégia geral, não particular. Desse ponto de vista, o que tentei explicar foi justamente como nós, nos diversos movimentos, pensamos a estratégia, analisamos o que funciona e o que não funciona mais na maneira como a pensamos. Para construí-la, existem várias iniciativas necessárias. Primeiro, é preciso ter uma orientação alternativa; segundo, é necessário definir quais são as bases sociais que defendem essa orientação. Uma terceira questão está ligada à cultura política e às formas de organização que se dão nessas bases sociais ; a quarta diz respeito ao poder e qual é a relação entre ele e a política. E a quinta questão é a das alianças. Toda uma parte de meu livro é dedicada à reflexão sobre essas cinco grandes questões. Hoje, para a construção de uma estratégia, é necessário pensar nisso.

Fórum – Você diz em seu livro que o FSM de Belém (2009) trouxe para o debate sobre a estratégia a questão indígena e a ecológica. Qual foi a contribuição do FSM de Dacar para a evolução da estratégia?

Massiah – A questão da migração efetivamente se opõe à globalização capitalista e apareceu com muita força em Dacar, onde houve o reconhecimento de que as migrações e a diáspora são elementos estruturais do mundo. Essa questão foi reforçada principalmente pelo movimento camponês africano. Uma outra nova contribuição foi a presença dos habitantes locais ; uma parte do FSM foi feita nos bairros populares e isso representou uma convergência do movimento altermundista com o movimento de bairros.

Por fim, uma outra contribuição, que já existia antes, mas que se confirmou e foi muito interessante no último FSM, foi o movimento de mulheres, destacando-se o movimento de mulheres africanas. Gostaria de citar ainda, como uma contribuição nova de Dacar, as caravanas, que já haviam sido realizadas em Belém. Houve também o « Dacar extendido », com o desenvolvimento de fórums sociais em vários locais. Há um  outro elemento importante que foi o ano de ação global de 2010. Houve 70 fóruns, que reforçaram o processo global. Houve uma série de novos movimentos e de reflexões que se desenvolveram e isso significou um fortalecimento do processo. Ainda do ponto de vista do processo, algo que tinha começado em Nairóbi, que avançou em Belém, e que foi um êxito em Dacar foi a questão das Assembleias de Convergência para ação global, que elaboraram uma agenda de mobilização nas quais pôde-se ver o que significa falar a partir do FSM. Até aquele momento havia um grande debate de que não fazíamos declaração em nome do Fórum e, em Dacar houve 30 declarações que eram complementares.

Fórum – No seu livro você não analisa a questão da mídia no movimento altermundista. Qual seria o papel da comunicação na estratégia e no centro do movimento?

Massiah – Sou menos sensível que muitos outros à importância da mídia. O tempo do movimento, o tempo da transformação, é totalmente diferente do tempo da mídia. A mídia constrói opiniões no curto prazo, na atualidade e, de uma certa maneira, há uma ditadura da atualidade. Isso pode criar uma confusão sobre  algumas coisas, mas não penso que isso possa influenciar a longo prazo. Na realidade, os movimentos não são tão sensíveis à midia. O MST, por exemplo, não se pauta por ela.

Fórum – Sim, mas o processo de criminalização dos movimentos sociais passa pela construção de um discurso reforçado pela mídia.

Massiah – É verdade, essa é uma batalha ideológica de fundo. A mídia é utilizada para isso, mas não é ela que o cria, a mídia é um meio. Não digo para se subestimar a mídia ou não levá-la em consideração, mas uma verdadeira política não se constroi em relação à midia, mas sim tendo como base grandes orientações e, depois, organizando-se a comunicação.


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