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09 de janeiro de 2013, 18h39

A literatura marginal de Ferréz

Deus foi almoçar, que levou oito anos para ser elaborado, se distingue dos demais romances do autor pela linguagem apurada e pela renovação dos recursos textuais que estruturam o enredo

Deus foi almoçar, que levou oito anos para ser elaborado, se distingue dos demais romances do autor pela linguagem apurada e pela renovação dos recursos textuais que estruturam o enredo

Deus foi almoçar

Ferréz

Editora Planeta do Brasil, 240 págs.

Quinze anos atrás, um jovem que ambicionava ser escritor reunia amigos e familiares na biblioteca pública mais próxima de sua casa, na zona sul paulistana, para o lançamento de Fortaleza da desilusão, livro de poesias patrocinado pela empresa de recursos humanos em que trabalhava. Há poucos meses, o já reconhecido Ferréz publicava, sob o aval de uma editora de prestígio, a sétima obra de sua carreira, Deus foi almoçar, com direito a uma concorrida sessão de autógrafos numa das maiores livrarias de São Paulo.

Nesse percurso, ganhou visibilidade com o romance Capão Pecado (2000), e confirmou-se escritor com outra narrativa de fôlego, Manual prático do ódio (2003). Talvez para demonstrar versatilidade, aventurou-se na literatura infanto-juvenil com Amanhecer Esmeralda (2005), publicou o livro de contos Ninguém é inocente em São Paulo (2007) e outro de crônicas, intitulado Cronista de um tempo ruim (2009), este último por seu próprio selo editorial, o Selo Povo. E ainda lançou um CD de rap, tornou-se roteirista de televisão e cinema e empresário bem-sucedido de uma marca de roupas e acessórios no estilo hip-hop, organizou uma biblioteca comunitária e uma ONG voltada para ações educacionais no Capão Redondo, bairro onde mora.

O pseudônimo artístico que o fez famoso é um híbrido de “Ferre”, numa homenagem a Virgulino Ferreira, o Lampião, e “Z”, em referência a Zumbi dos Palmares. Uma escolha provocativa do autor para assinalar seu nome no campo literário e que continuou se manifestando nos títulos das suas obras e na recorrência da crítica social em sua escrita. Aliás, provocar, incomodar e contestar são verbos que regularmente acompanham releases e resenhas dos seus livros para o público adulto, especialmente os romances, que deram a Ferréz projeção nacional por trazer à tona, por meio de um realismo exacerbado, algumas das experiências de pobreza e violência da periferia urbana, sob o ponto de vista de um morador desse tipo de espaço social.

Expoente de um projeto coletivo que coloca periféricos como sujeitos da escrita, Ferréz também alcançou visibilidade ao defender o uso do termo “literatura marginal” para classificar a sua produção e de outros autores que vivenciam alguma situação de marginalidade econômica, geográfica, social ou em relação à lei. Mas é importante que se ressalte que essa produção marginal – igualmente propagada como litera-rua, da periferia e do gueto –, mesmo quando se mostra assumidamente documental, engajada ou calcada em construções textuais que destoam da norma culta, apresenta-se como literatura, reivindicando o lugar da expressão dos marginalizados na história cultural brasileira.

O mais recente romance de Ferréz, no entanto, tem chamado a atenção da crítica e do público justamente pela ausência do cenário e das temáticas que consagraram o escritor. Em Deus foi almoçar, não há referências textuais ou imagéticas a regiões pobres de São Paulo, narrativas sobre mortes violentas, assaltos ou traições entre amigos e amantes. Saem Cebola, Capachão, Burgos, Lucio Fé, Celso Capeta e Neguinho da Mancha na Mão, que figuraram em Capão Pecado e Manual prático do ódio, e entram Lourival, Hamilton, Carol, Melinda. E Calixto, o complexo personagem principal, cujos dramas psicológicos e relação com o mundo real e o imaginado são o foco do novo livro. Apesar de ser homem como todos os outros protagonistas construídos pelo autor, Calixto não tem nenhum B.O. para resolver, a não ser consigo mesmo. Arquivista de meia-idade, melancólico, pessimista, solitário, com algumas manias incomuns como andar com uma colher no bolso da calça, Calixto ressente os dramas da falta de perspectivas profissionais e pessoais, assim como do abandono da família.

Por um lado, Deus foi almoçar, que levou oito anos para ser elaborado, se distingue dos demais romances do autor pela linguagem apurada e pela renovação dos recursos textuais que estruturam o enredo. Não há uma cronologia linear, narradores em primeira e terceira pessoa se alternam em um mesmo capítulo e o travessão não se faz presente para pontuar falas diretas e diálogos. Por outro lado, o amor pela literatura e o interesse pelo universo dos quadrinhos de alguns personagens, tal como a deferência pela ufologia, confirmam a recorrência de elementos biográficos em suas ficções. Ferréz reforça, ainda, outras de suas marcas como escritor, com a descrição de muitas cenas de sexo, para ressaltar aspectos da personalidade do protagonista, e com a crítica acentuada, dessa vez em direção às relações de trabalho, à cultura de massa e à manipulação religiosa.

No novo romance, não há dedicatórias aos parceiros da quebrada, tampouco a advertência de que se trata de ficção, porque o texto não dá margem para que a obra possa ser reduzida à representação autorizada da periferia no plano literário pelos mais conservadores. Ferréz revela amadurecimento do seu papel social como autor e reafirma a importância que sua trajetória tem para consolidar as contribuições estéticas, históricas e políticas da produção dita marginal. Deus foi almoçar, além de ser uma narrativa que se sustenta, sinaliza que há outras referências, recursos e experiências sociais que um escritor – que se assume originário e porta-voz da periferia – pode mobilizar quando se dedica à literatura.

Érica Peçanha é mestre e doutora em Antropologia Social pela USP, com pesquisas voltadas à produção cultural da periferia paulistana. Autora de Vozes marginais na literatura.


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