O que o brasileiro pensa?
25 de junho de 2012, 17h48

Apóstolo Atleta

Num tempo em que não existiam bibliotecas públicas nem escolares na cidade, não havia quadra de esportes nem piscinas, o que fazíamos eram brincadeiras impensáveis hoje

Num tempo em que não existiam bibliotecas públicas nem escolares na cidade, não havia quadra de esportes nem piscinas, o que fazíamos eram brincadeiras impensáveis hoje

Por Mouzar Bebedito

A impressão que tenho quando converso com homens da minha geração que moravam em pequenas cidades mineiras é que quase todos foram coroinhas.

Eu mesmo não escapei disso.

Quer dizer, “não escapei” entre aspas, fui ser porque quis, ninguém me forçou. É que eu via outros moleques indo ajudar nas missas e rezas e, como a gente quase não tinha o que fazer, deu vontade de entrar nessa também.

Num tempo em que não existiam bibliotecas públicas nem escolares na cidade, não havia quadra de esportes nem piscinas, o que fazíamos eram brincadeiras impensáveis hoje.

Víamos os filmes do Tarzã e imitávamos. Numa capoeira que chamávamos “selvinha”, havia cipós para ir de árvore em árvore e alguns meninos eram craques nisso. Eu não. Mas até que com o arco e flecha eu não era tão ruim, embora não fosse um craque como uns outros.

Treinávamos esse “esporte” na beira da selvinha, onde tinha um pasto e ali perto um monte de bananeiras. Cortávamos um tronco de bananeira do nosso tamanho e púnhamos de pé, amarrado com cipó a uma árvore e ele se tornava nosso alvo. Montávamos em pelo numa égua chamada Realina que ficava no pasto e, galopando, passávamos a uns quinze ou vinte metros do tronco disparando flechas para acertar o tronco de bananeira, inimigo imaginário.

Outras brincadeiras eram roubar frutas, brincar em córregos, pescar lambaris… Alguns caçavam passarinhos para colocar em gaiolas, mas eu não gostava disso. E trabalhava, fosse como engraxate, vendedor de frutas ou balconista de boteco.

Então, ser coroinha era uma novidade, algo diferente, e o padre Caio me aceitou para o bando, quando eu tinha uns oito anos. Mas logo ele viu que eu seria um problema: nas rezas, gostava de ficar encarregado do turíbulo, um vaso de queimar incenso, de metal, pendurado em três correntes. Então, o turíbulo era cheio de brasas e a gente tinha que segurá-lo por um pegador no alto das correntes que o prendiam, e ficar chacoalhando de leve, de um lado para o outro, para manter as brasas vivas.

E o que eu gostava era de rodear, na vertical, o turíbulo cheio de brasas, o que era proibido. Mas era só o padre virar para o altar que eu cometia isso. Algumas pessoas riam e ele se virava para mim fazendo cara feia. Tinha que rezar com um olho no altar e outro em mim.

Acabei expulso com alguns outros, porque achamos algumas garrafas de vinho de igreja na sacristia, bebemos, ficamos bêbados e aprontamos um monte de coisas. Um dos coroinhas era implicado com um sino que batia sozinho, dando as horas; subiu à torre ao meio-dia, a fim de impedir que funcionasse uma espécie de martelo que batia no sino de meia em meia hora. Ao meio-dia, daria doze badaladas. Quando o martelo se levantou para bater, ele segurou e só soltou uns minutos depois. Quebrou.

Um ou dois anos depois fui aceito para ser um dos doze apóstolos na missa do lava-pés, na Semana Santa. Ensaiamos uma vez e o padre recomendou:

— Antes de vir para cá, lavem bem os pés e passem talco, porque eu só dou uma lavadinha de leve e depois tenho que ir beijando os pés de um a um…

Na quinta-feira, dia da missa em que haveria a cerimônia do lava-pés, fui jogar futebol no início da tarde. Lá pelas três e meia, saí do campo para ir embora e uns moleques do time adversário começaram a gritar:

— Tá com medo… tá com medo…

Voltei com muita vontade de meter uns gols neles. E cada vez que alguém ameaçava sair era a mesma coisa. Quando vi, estava escurecendo. Foi o tempo de correr, vestir a túnica de apóstolo e entrar na igreja, sem tempo para nada. Acho que fui o primeiro apóstolo de Cristo a entrar na igreja de chuteiras.

Na hora da cerimônia mais esperada, quando o padre Caio chegou em mim, vi sua cara de pavor ao olhar meus pés dentro das chuteiras em estado precário. Desamarrou as chuteiras, tirou-as, deu uma lavadinha nos meus pés e teve que quase encostar os lábios neles sujos e fedorentos, com um olhar que parecia dar fuziladas em minha direção.


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