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11 de janeiro de 2013, 13h33

Produção cultural em redes

Projeto investe em cultura digital e prepara terreno para o conhecimento livre

Projeto investe em cultura digital e prepara terreno para o conhecimento livre

Por Moriti Neto

Surgido de uma convergência de ações entre o Pontão de Cultura Digital iTEIA de Recife (PE) e o Ponto de Cultura do Circo do Capão em Palmeiras (BA) após a realização de atividades ligadas à economia solidária no território da Chapada Diamantina, o projeto R.E.D.E.S. investe forte na cultura digital e participativa. A iniciativa desenvolveu a integração entre redes locais e regionais, tendo como principal marco do processo o I Encontro de Conhecimentos Livres da Chapada Diamantina, realizado em 2009, no Circo do Capão, em Palmeiras.

Reconhecido em 2009 pelo Ministério da Cultura com o Prêmio Tuxáua Cultura Viva, Pedro Jatobá, além de idealizador da tecnologia social que trabalha o conceito de produtora cultural colaborativa, desenvolve no R.E.D.E.S. o papel de coordenador, organizando o ciclo de formação em cultura digital, que será realizado até maio de 2013 com a organização do II Encontro de Conhecimentos Livres da Chapada Diamantina.

Em entrevista à Fórum, ele conta sobre o funcionamento do projeto, as áreas geográficas de abrangência, além de explicar os conceitos de produtoras culturais colaborativas, de preço aberto e de práticas baseadas em cultura digital, ferramentas de produção livre e economia solidária.

Fórum – Em que regiões o projeto atua?

Pedro Jatobá – O projeto R.E.D.E.S.~C.D.² (Redes para o Ensino e Desenvolvimento da Economia Solidária e da Cultura Digital na Chapada Diamantina) tem como área de atuação as cidades, vilas e zonas rurais da Chapada Diamantina, tendo iniciado as ações no Vale do Capão, especificamente na Vila de Caeté-Açu, em Palmeiras. Também teve participação de coletivos de outros territórios da Chapada, como Lençóis e Rio de Contas.

Fórum – Qual o público que vocês atingem atualmente?

Pedro – Produtores, artistas, empreendimentos locais, educadores, jovens estudantes.

Fórum – Por que o foco na Chapada Diamantina?

Pedro – A Chapada Diamantina foi escolhida como foco justamente por ser ainda um território sustentável e com uma base cultural e social bem ativa e propícia a ações em rede. Dentro deste território, temos dez pontos de cultura reconhecidos pelo governo estadual e pelo Ministério da Cultura e outras centenas de grupos e artistas dispostos a construir uma lógica mais sustentável de desenvolvimento e vida com a natureza. Pensando que esses territórios possuem uma juventude cada vez mais ligada às tecnologias digitais, é fundamental realizar esse link entre o antigo e o novo.

Fórum – E quais são os principais objetivos do projeto?

Pedro – Valorizar tecnologias, saberes, produtos e serviços desenvolvidos e ofertados na Chapada Diamantina com a tecnologia social das produtoras culturais colaborativas junto a coletivos e artistas dos municípios que compõem este território.

Fórum – O que são as produtoras culturais colaborativas?

Pedro – Produtora cultural colaborativa é uma tecnologia social que transforma espaços de inclusão digital em empreendimentos solidários de produção cultural e formação em cultura digital. Pode ser instalada por um coletivo ou por um conjunto de atores e um arranjo produtivo local em rede.

A proposta tem alicerce em quatro eixos: cultura digital, licenças livres, softwares livres e economia solidária. Esses eixos garantem que toda a produção cultural possa ter uso previamente liberado, de acordo com condições estabelecidas pelo autor da obra. É elaborado com o uso de software livre para garantir quebras de monopólios e o fortalecimento das comunidades desenvolvedoras desses programas abertos para uso, modificação e distribuição da versão original ou editada.

Entre as ferramentas digitais livres para gestão e comunicação destacamos: a plataforma Corais (www.corais.org), a Rede Colaborativa iTEIA (www.iteia.org.br), o Espaço Escambo (www.escambo.org), Rede Cirandas (www.cirandas.net), Fronteiras Imaginárias Culturais (fic.imotiro.org) e Catarse.Me (catarse.me). Entre as ferramentas de audiovisual destacamos: o LibreOffice, Dia, Gimp, Inkscape, KdenLive, Blender, Ardour, Audacity, Rivendell.

Fórum – E que resultados têm sido obtidos em termos de mobilização?

Pedro – O projeto R.E.D.E.S. iniciou ações de mobilização na Chapada Diamantina com a oficina de Gestão Colaborativa de Empreendimentos Criativos em outubro de 2012. Mas a tecnologia social da produtora cultural colaborativa já vem sendo trabalhada pelo Pontão de Cultura Digital iTEIA desde 2009, em diferentes realidades. Há um histórico de implantação e adaptação dessa tecnologia social em mobilizações fora da Chapada Diamantina também.

Fórum – No curso que foi oferecido recentemente, entre 17 e 21 de outubro, como foi a participação do público?

Pedro – Tivemos, durante a oficina, 22 participantes, sendo a maioria do Vale do Capão, onde começamos a estruturar uma rede local interessada em tecnologia social da produtora cultural colaborativa. Além disso, existe já uma rede em formação em Rio de Contas, que também esteve presente na formação.

O fechamento da atividade foi um palco livre, onde atrações locais se apresentaram e foram registradas e produzidas pela turma da oficina. O evento aconteceu no Circo do Capão e tivemos uma média de público de quase 300 participantes.

Fórum – No conteúdo do curso, chama atenção o conceito de “preço aberto”. Na prática, como funciona?

Pedro – Dentro das metodologias que compõem a tecnologia social da Produtora Cultural Colaborativa, trabalhamos com o grupo no desmembramento de custos que compõem produtos e serviços. O preço aberto está ligado diretamente ao conceito de comércio justo e ajuda a tornar mais transparente o preço real oferecido por um determinado produto, serviço ou saber.

Fórum – E a questão do direito autoral e licenças livres, como é isso no cotidiano dos locais onde atuam?

Pedro – Considerando que os veículos tradicionais de mídia não garantem visibilidade para artistas locais, trabalhamos com a internet como mídia e vitrine global do que está sendo produzido. Para potencializar essa ação e realizar isso de forma legalizada, fomentamos o uso de licenças livres para divulgação dos saberes e fazeres nas redes digitais.

Fórum – Existe uma atuação política, não exatamente partidária, no projeto?

Pedro – A atuação política é de valorização da cultura local, envolvimento dos jovens com os mestres e produtores do território, fomento à tomada de decisão coletiva com tecnologias e metodologias livres, trocas solidárias entre membros da rede e criação de identidade e de espaços comuns entre grupos e indivíduos do mesmo território. O projeto R.E.D.E.S. é completamente apartidário e acredita em fazer política no micro, trabalhando com a democracia participativa de vilas, bairros e pequenas cidades, independente do poder público vigente.


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