ASSASSINO DE BLUMENAU

Identificar psicopatas pelo "formato do corpo"? Especialista desmonta tese nazista de psicanalista de SC

Nelson Nisenbaum, especialista em psiquiatria clínica, falou à Fórum sobre a declaração de Edina Esmeraldino, que causou revolta ao analisar perfil do assassino da creche de Blumenau com teoria sem qualquer fundamento

Edina Esmeraldino, que afirmou ser possível identificar psicopatas "somente pelo formato do corpo".Créditos: Reprodução
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O episódio bárbaro do ataque à creche Cantinho Bom Pastor, de Blumenau (SC), em que 4 crianças foram assassinadas, gerou não só indignação, como também inúmeras perguntas sobre as motivações que levaram o assassino a cometer tal ato. 

Muitos, na tentativa de explicar o episódio, vêm classificando o criminoso como um psicopata. Uma dessas pessoas é Edina Esmeraldino, que afirma ser doutora em psicanálise clínica, com atuação em Santa Catarina. Em entrevista recente à imprensa, em frente à creche onde ocorreu o atentado, Edina afirmou que é possível identificar psicopatas "somente pelo formato do corpo"

"Vou te falar desse psicopata em especial [do assassino da creche de Blumenau]. Nós fazemos a análise pela foto, eu não preciso conversar com a pessoa, pelo formato do corpo você consegue analisar e saber se essa pessoa tem tendência a ser um psicopata ou não. E o que me chamou a atenção na análise que fiz do criminoso é que o corpo dele não tem essa tendência", disparou a suposta psicanalista. 

"Existe um formato de rosto específico que a gente já percebe que a pessoa tem uma tendência a cometer crimes, tem toda uma forma de analisar. E a dele não tem. O formato de corpo que ele tem, o formato de corpo dele por incrível que pareça era pra ser uma pessoa amorosa e carinhosa, das pessoas mais afáveis e amigáveis", afirmou ainda. 

A fala de Edina Esmeraldino vem causando revolta nas redes sociais. Um dos primeiros a denunciar a declaração da suposta psicanalista foi o ativista do movimento negro Antonio Isupério, que compartilhou a cena em seus perfis do Instagram e Twitter. 

"O que ela esta dizendo é a base do Racismo Cientifico. Pesquisem sobre Frenologia, sociedade em que o excelentíssimo Allan Kardec foi diplomado. Essa temática é justificativa e repertório de recrutamento de pessoas negras ao encarceramento", alerta Isupério. 

O jornalista e ex-deputado Jean Wyllys também repercutiu a fala através de suas redes sociais. "A desfaçatez e a segurança com que a 'psicanalista' vomita sua teoria racista, reciclada do lixo da criminologia racista de Cesare Lombroso, são espantosas! Nota-se que a sujeita passou ao largo de qualquer formação seria em psicanálise ou psicologia", criticou. 

Para esclarecer o que está por trás da tese de Edina Esmeraldino, Fórum procurou o médico e escritor Nelson Nisenbaum, especialista em psiquiatria clínica, que foi enfático: "Ela fala uma grande mentira"

Tese lombrosiana e nazista

Nelson Nisenbaum explicou à Fórum que a fala da suposta psicanalista associando o formato do corpo a tendências psicopáticas de uma pessoa remete a teóricos do começo do século 20, principalmente em períodos de regimes fascistas

"[Esses regimes] tentaram estabelecer uma correlação genética, fisionômica, morfológica a determinados perfis de personalidades ou capacidades mentais. O auge disso foi na própria Alemanha nazista, onde tentou-se estabelecer pela craniometria, eles mediam as dimensões anteroposteriores, laterais, volume, peso do cérebro para tentar provar cientificamente que os judeus eram uma raça inferior", introduz o especialista. 

Segundo Nisenbaum, a teoria está atrelada, ainda, ao pensamento do psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1835 - 1909), considerado um higienista, que defendia a tese de que a predisposição biológica do indivíduo estaria atrelada a uma conduta antissocial e criminosa. "Tentava estabelecer este tipo de correlação entre forma de corpo, rosto, fisionomia e tendências psicopáticas cruéis, perversas, etc", detalha. 

"Isso não encontra fundamento na prática psiquiátrica moderna, na prática psicanalítica moderna, não encontra fundamento absolutamente nenhum. Isso é apenas uma ilação sem menor sentido, sem o menor poder científico", assevera Nelson Nisenbaum. 

Imagens feitas por Cesare Lombroso para identificar "rostos de criminosos" (Wikimedia Commons)

Segundo o médico psiquiatra, a única coisa correta que Edina Esmeraldina disse na entrevista em questão é que "o ambiente transformou" o assassino de Blumenau em um "monstro". 

"O ambiente pode influenciar uma pessoa que não nasceu com determinadas tendências a tornar-se uma pessoa extremamente cruel e perversa. Isso foi muito demonstrado por um trabalho que foi feito por psicólogos americanos durante o julgamento de Nuremberg. Os presos nazistas de Nuremberg foram exaustivamente entrevistados por psicólogos americanos na tentativa, justamente, de se encontrar algum elemento biográfico, de traço de personalidade ou qualquer coisa que explicasse o nível de perversidade que os nazistas alcançaram. E absolutamente nada foi encontrado que pudesse prever que aquelas pessoas se tornassem o que se tornaram", pontua. 

"É a prova da tese final dela, que o ambiente pode fabricar esse tipo de coisa. E o ambiente na Alemanha era realmente muito tóxico no final da década de 20, início da década de 30. As crianças que foram educadas no regime nazista cresceram acreditando que tudo aquilo era o melhor a ser feito. Soldados nazistas ao final da vida, sobreviventes, foram entrevistados e diziam: 'matava judeus porque eu a vida inteira aprendi que era o que tinha que ser feito, fui educado nessa forma, foi muito difícil me desfazer isso porque foi a base da minha educação'. Uma coisa muito assustadora, mas foi o que aconteceu", emenda. 

Sobre a capacidade do ambiente em que a pessoa vive transformá-la, o especialista ainda associa o fenômeno à própria postura da suposta psicanalista de Blumenau.

"Eu posso dizer a mesma coisa sobre essa pessoa .O ambiente fez dela uma psicanalista perversa. É inacreditável que no século 21, no ano que estamos, uma pessoa que se diz psicanalista se arrogue em falar uma barbaridade desse tamanho", finaliza.

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência se manifesta

Como Edina Esmeraldino afirma ser "Diretora da SBPC em Santa Catarina", muitos questionaram a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, identificada justamente pela sigla "SBPC", sobre a declaração da psicanalista. 

A entidade, então, veio a público, através de nota oficial, para esclarecer que a mulher em questão não "não é sócia e nem, tampouco, diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)". 

"A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) vem a público esclarecer que, embora tenha 75 anos de fundação, a sua sigla não é de domínio exclusivo e existem outras entidades com propósitos completamente distintos que utilizam siglas semelhantes. Um exemplo disso foi um fato que veio à tona esta semana, quando uma suposta 'psicanalista', que se apresenta como diretora de uma entidade com sigla semelhante à da SBPC, concedeu uma entrevista sobre a tragédia na creche de Blumenau, cujas afirmações violam não só a prática científica, mas a Ciência Psicológica e os Direitos Humanos – e que repudiamos veementemente", diz o comunicado.