Imagine não conseguir colocar em palavras o que sente ou não perceber as emoções que passam pelo corpo, como tensão no peito, frio na barriga ou aperto na garganta. Essa é a realidade das pessoas com alexitimia, também chamada de “cegueira emocional”.
O termo foi cunhado em 1972 pelo psiquiatra Peter Sifneos, professor de Harvard, e significa “ausência de palavras para as emoções”. Ao contrário do que muitos imaginam, a alexitimia não é um transtorno mental, mas uma característica de personalidade. No entanto, ela interfere diretamente na forma como a pessoa percebe, compreende e expressa seus sentimentos, afetando a qualidade das relações afetivas e sociais.
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Estima-se que entre 10% e 13% da população tenha alexitimia, sendo mais frequente em homens. Pessoas com essa característica podem parecer frias, distantes ou insensíveis, mas na verdade enfrentam dificuldades internas para reconhecer e verbalizar suas próprias emoções.
Causas e fatores de risco
A alexitimia surge a partir de uma combinação de fatores genéticos, ambientais e neurológicos:
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Genética: Estudos com gêmeos indicam que a predisposição genética influencia o desenvolvimento da alexitimia. Parentes de primeiro grau de pessoas com essa característica apresentam maior probabilidade de tê-la também.
Experiências na infância: Traumas, abusos e negligência emocional podem dificultar o desenvolvimento da inteligência emocional, aumentando o risco de alexitimia.
Condições neurológicas: Lesões cerebrais, acidentes e algumas doenças neurológicas podem contribuir para a manifestação da característica.
Como a alexitimia afeta a vida das pessoas
Pessoas com alexitimia enfrentam desafios significativos no dia a dia:
Dificuldade em nomear sentimentos: Em vez de expressar emoções específicas, podem usar termos vagos como “me sinto estranho” ou “me sinto mal”.
Impactos psicológicos: A incapacidade de perceber as próprias emoções dificulta a regulação emocional e aumenta o sofrimento psicológico. “As emoções nos dizem se situações são seguras, urgentes ou relevantes. Quem não consegue reconhecê-las tem dificuldade em interpretar e tomar decisões sobre si e o mundo”, explica o psicólogo Brett Marroquin, PhD.
Impactos nos relacionamentos: Pessoas com alexitimia têm dificuldade em reconhecer emoções alheias e expressar as próprias, tornando complicados vínculos amorosos, familiares e sociais. Isso pode gerar frustração, desconfiança e sensação de distância entre parceiros.
Associação a transtornos mentais: Depressão, estresse pós-traumático e transtornos do espectro autista apresentam maior incidência de alexitimia, embora ela não seja um diagnóstico clínico isolado.
Alexitimia adquirida
Além da alexitimia do desenvolvimento, há casos de alexitimia adquirida, resultante de lesões cerebrais ou doenças neurológicas. Esses casos fornecem evidências únicas sobre a neurobiologia da consciência emocional.
Lesões cerebrais traumáticas (LCT), por exemplo, afetam frequentemente regiões difusas do cérebro e podem levar a déficits emocionais significativos. Entre sobreviventes de LCT, estima-se que entre 30% e 60% apresentem alexitimia clinicamente significativa, independentemente da gravidade da lesão. Esses indivíduos mostram redução da empatia, aumento de queixas somáticas e maior risco de ideação suicida.
Na doença de Parkinson, a alexitimia também é mais comum do que na população geral, sendo associada a alterações na motivação e na aprendizagem de recompensas. Pacientes com doenças neurovasculares, como AVC no hemisfério direito, ou doenças neurodegenerativas, como esclerose múltipla, demência frontotemporal e Alzheimer, podem igualmente apresentar alexitimia adquirida, embora a pesquisa nesses casos seja mais limitada.
Tratamento e manejo
Embora a alexitimia possa parecer um desafio, existem maneiras de lidar com ela de forma eficaz. Psicoterapia focada na regulação emocional, práticas de mindfulness e exercícios de autoconsciência podem ajudar a reconhecer e expressar melhor os sentimentos. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), por exemplo, auxilia na identificação de estados emocionais, promovendo mudanças comportamentais positivas e adaptativas.
Além da terapia, pequenas práticas de autocuidado podem fortalecer a consciência emocional e reduzir os impactos da alexitimia na vida cotidiana e nos relacionamentos. Manter um diário emocional, meditar, praticar exercícios físicos regularmente e dedicar-se a atividades artísticas são estratégias que ajudam nesse processo. Em alguns casos, medicamentos para sintomas associados, como ansiedade ou depressão, podem contribuir para uma melhora na percepção emocional.
Reconhecer a alexitimia é o primeiro passo para gerenciá-la. Isso significa que, antes de qualquer estratégia de tratamento, é importante perceber que a pessoa tem dificuldade em identificar e expressar suas emoções. Sem esse reconhecimento, fica mais difícil aplicar métodos eficazes para lidar com os sentimentos e melhorar a saúde emocional.
Profissionais de saúde mental podem usar ferramentas específicas, como o Toronto Alexithymia Scale (TAS). O TAS é um questionário desenvolvido para medir o quanto alguém tem dificuldade em reconhecer e verbalizar emoções. Ele ajuda o psicólogo ou psiquiatra a entender o perfil emocional do paciente de forma objetiva.
Com informações da "National Library of Medicine" e "Neuropsychiatry Journal"