Os ultraprocessados, formulações industriais feitas a partir do processamento de alimentos com o objetivo de alterar a composição e textura originais, já representam quase um quarto da alimentação dos brasileiros. Apesar de altamente perigosos à saúde, atrelados a dezenas de doenças, os ultraprocessados substituem cada vez mais os alimentos in natura e minimamente processados na dieta da sociedade brasileira.
O dado foi extraído de uma coletânea de estudos publicada nesta terça-feira (18) na revista The Lancet, organizada por um grupo internacional de 43 pesquisadores, com liderança de cientistas do Brasil, Austrália e Chile. A pesquisa foi divulgada pela Agência Bori.
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Os estudos chamam atenção para o avanço expressivo dos ultraprocessados na alimentação global. No Brasil, esse avanço pulou de 10% para 23% nas últimas quatro décadas. Apesar do nosso país ser rico na oferta de alimentos in natura, os ultraprocessados vêm ganhando espaço devido à facilidade de acesso – seus preços são muito mais baixos que alimentos saudáveis – e a propagandas que os tornam cada vez mais atraentes.
Essa facilidade foi destacada pela pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e uma das autoras do estudo, Ana Clara Duran. “A conveniência constitui um determinante estrutural fundamental, uma vez que são itens prontos para consumo ou que exigem preparo mínimo”, afirma. “As escolhas também são moldadas por normas sociais, práticas familiares e reforço durante a infância, além da influência do marketing”, complementa.
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Em maio deste ano, a Fórum publicou uma matéria que percorreu a lógica do avanço dos ultraprocessados na alimentação brasileira. Especialistas debateram a oferta desses produtos e como eles estão relacionados também a questões econômicas, que fazem com que sejam ainda mais consumidos pela população mais pobre, expondo esse grupo à maior ocorrência de doenças relacionadas aos ultraprocessados.
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De acordo com diferentes estudos realizados nos últimos anos, os ultraprocessados estão relacionados a 32 doenças não transmissíveis, entre elas diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão e obesidade. Eles também já foram atrelados ao desenvolvimento de cânceres e até de doenças mentais, como depressão e ansiedade.
Ultraprocessados devem pagar mais impostos
Os pesquisadores da coletânea apresentam um conjunto de estratégias para frear o avanço dos ultraprocessados e estimular escolhas mais saudáveis, dentre elas o aumento de impostos sobre esses produtos. “É fundamental adotar políticas públicas regulatórias que tornem o consumo desses produtos menos acessível e atrativo, como o aumento de impostos e o incentivo à produção e comercialização de alimentos in natura”, afirma Duran.
No Brasil, a pressão pela maior taxação dos ultraprocessados é feita por algumas organizações, como a ACT Promoção da Saúde, que realiza incidências polícias no Congresso Nacional para pedir pela medida. Durante a aprovação da Reforma Tributária, o lobby do agronegócio e dos ultraprocessados atuaram para impedir a taxação desses produtos e a inclusão de alguns na cesta básica, que ficou fora da cobrança de imposto. A pressão do setor fez com que alguns ultraprocessados, como macarrão instantâneo, pão de forma, pizzas e salgadinhos ficassem fora do Imposto Seletivo, chamado de "Imposto do Pecado".
O grupo de pesquisadores do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da Universidade de São Paulo (NUPENS/USP) afirmou que pretende aprofundar o conhecimento sobre o tema. Durante reforçou que o objetivo é justamente de investigar a interferência da indústria de ultraprocessados na regulação de políticas alimentares.