O ex-presidente Jair Bolsonaro afirmou ontem (23), em audiência de custódia, que tentou romper a tornozeleira eletrônica após apresentar um quadro de alucinações e “paranoia”. Ele atribuiu o comportamento ao uso conjunto de pregabalina e sertralina, ambas medicações conhecidas no tratamento de transtornos ansiosos e depressivos.
Efeitos raros segundo as bulas
Embora a combinação seja amplamente usada na psiquiatria, as bulas indicam que reações graves são raras. As duas substâncias podem provocar sonolência, queda de atenção, tontura e agitação, especialmente no início do tratamento.
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Episódios perceptivos intensos aparecem apenas como possibilidade remota, geralmente associados a doses altas ou vulnerabilidade prévia. De acordo com as bulas, ambos os medicamentos podem causar alucinações, inquietação, mudanças bruscas de humor e despersonalização, embora ocorram de 0,1% a 1% dos pacientes. Não há informações sobre efeitos adversos pelo uso concomitante dos dois medicamentos.
- Pregabalina: mecanismo e efeitos:
A pregabalina atua reduzindo a excitabilidade dos neurônios e é indicada para dor neuropática, fibromialgia, ansiedade generalizada e epilepsia. Entre os efeitos adversos mais comuns estão irritabilidade, alterações de apetite, euforia, dificuldades de concentração, insônia, redução da libido, tremores, sonolência excessiva, visão dupla, náuseas, diarreia, dores musculares, inchaço e cansaço persistente.
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Entre os efeitos incomuns (0,1% a 1% dos pacientes) estão alucinações, distanciamento da realidade, mudanças bruscas de humor, desmaios, distúrbios motores, piora visual, batimentos irregulares, sangramentos, urticária e febre.
- Sertralina: para que serve e seus efeitos
A sertralina é um antidepressivo da classe dos ISRS e aumenta a disponibilidade de serotonina. É usada para depressão, ansiedade, pânico, TOC, fobia social e TEPT. Os efeitos adversos mais frequentes incluem náusea, diarreia, tontura, tremores, falta de apetite, insônia ou sonolência, fadiga, sudorese e disfunções sexuais. Entre as reações raras estão hipomania, sangramentos anormais, dores articulares e alterações hepáticas.
Confusão é um termo "equivocado" para o caso
Após a audiência, a equipe médica do ex-presidente divulgou um relatório em que detalha outros medicamentos que também faziam parte de seu tratamento. O documento afirma que Bolsonaro utiliza clorpromazina e gabapentina para controlar crises de soluços e que a interação entre esses remédios e a pregabalina é conhecida por ampliar riscos neurológicos.
A ata da audiência registra que Bolsonaro afirmou ter apresentado sono fragmentado, sensação de perseguição e comportamento impulsivo. Ele contou que, durante a madrugada, decidiu manipular a tornozeleira com um ferro de solda e negou intenção de fuga durante a sessão na Superintendência da PF, em Brasília. Segundo ele, a “paranoia” teria surgido entre sexta e sábado, poucos dias após iniciar o novo tratamento.
Especialistas, no entanto, chamam atenção para o uso incorreto do termo “confusão mental”, citado como justificativa para a ação do ex-presidente.
O psiquiatra Táki Cordás explicou, em vídeo publicado nas redes sociais, que a expressão não se refere a dúvida, desorientação leve ou a alguém “fazer confusão”, mas a um quadro neuropsiquiátrico sério, marcado por rebaixamento do nível de consciência.
Segundo ele, uma pessoa em confusão mental apresenta sonolência, desorientação no tempo e no espaço, dificuldade de raciocínio e incapacidade de realizar ações complexas. Cordás exemplifica que um paciente assim pode não saber onde está nem que horas são, e não consegue executar tarefas coordenadas, como manusear objetos, organizar passos sucessivos, conversar de forma lógica, tomar banho ou se vestir. Por isso, afirma, o termo deve ser usado apenas quando o sintoma está de fato presente, e não para justificar condutas que demandam planejamento e coordenação motora fina — como manipular um ferro de solda para tentar abrir uma tornozeleira eletrônica.
Confira o vídeo: