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Fobia de altura (Acrofobia): o que causa? Tem cura?

Entenda o que pode causar e quais as condições do medo de altura

Poster do filme Um Corpo Que Cai, uma das mais icônicas obras sobre medo de alturaCréditos: Divulgação
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A fobia de altura — ou acrofobia — é um dos medos mais comuns entre adultos. Embora muitas vezes seja vista apenas como uma reação emocional, estudos indicam que suas raízes podem ser também fisiológicas.

A pesquisadora Catarina Costa Boffino investigou a relação entre acrofobia, controle postural e desempenho cognitivo, encontrando evidências de alterações reais no equilíbrio de indivíduos acrofóbicos. O estudo compilado se tornou sua tese de mestrado "Medo de Altura: Desempenho Cognitivo e Controle Postural", do Instituto de Psicologia da USP.

O que é acrofobia?

A acrofobia é uma fobia específica caracterizada por um medo intenso e irracional de lugares altos. Como explica Boffino, “fobia é o medo intenso, irracional”, enquanto o medo simples é uma emoção adaptativa. A fobia envolve esquiva — a tendência a evitar situações que provocam o medo — e pode prejudicar escolhas e a qualidade de vida do indivíduo.

O que causa a fobia de altura?

1. Fatores biológicos e controle postural

Um achado central do estudo é que muitos acrofóbicos apresentam alterações no controle postural, mesmo quando não estão em altura. Boffino destaca que “existem evidências de que anormalidades no controle da postura possam estar envolvidas na gênese do medo de altura”. Isso sugere que, além dos fatores psicológicos, pode haver um componente fisiológico importante.

2. Disfunção vestibular e dependência visual

Deficiências — mesmo sutis — no sistema vestibular podem levar o indivíduo a depender mais da visão para manter o equilíbrio. Em lugares altos, a falta de referências visuais próximas provoca uma situação-limite, aumentando a sensação de instabilidade. Boffino descreve um “terreno fisiológico onde o déficit ou a falência dos mecanismos de controle postural levariam a um perigo real de queda”.

3. Nem sempre há um trauma antecedente

Ao contrário do que muitos pensam, a acrofobia nem sempre surge após uma queda ou evento traumático. Estudos citados por Boffino “não puderam correlacionar o início dos sintomas acrofóbicos com a ocorrência de eventos traumáticos”, apontando para uma possível aquisição não-associativa do medo (isto é, independente de aprendizado por trauma).

4. Interação com a ansiedade

Os sintomas físicos comuns na acrofobia (tontura, náusea, palpitação) também aparecem em transtornos de ansiedade. A autora relaciona essa sobreposição e descreve condições como “desconforto com espaço e movimento” e “vertigem de altura”, que conectam alterações vestibulares com respostas emocionais. 

Por que os sintomas são tão intensos?

Em altura, o sistema sensorial recebe informações conflitantes (visual, vestibular e proprioceptiva). Para quem depende demais da visão ou tem limitação vestibular, isso gera um conflito visuo-vestibular e a sensação de desorientação. Boffino define a vertigem de altura como “uma condição fisiológica que associa instabilidade postural com sintomas vestibulares”.

O que o estudo mediu?

Foram comparados 31 indivíduos com acrofobia e 34 controles usando plataformas de posturografia (avaliando a oscilação do centro de pressão) e um teste de rastreio visual manual. Resultados mostraram que os acrofóbicos apresentaram pior estabilidade postural e pior desempenho na tarefa cognitiva, especialmente quando as duas tarefas eram realizadas simultaneamente. Segundo a pesquisadora, “Indivíduos com acrofobia apresentaram uma pior estabilidade postural e um pior desempenho no teste atencional”.

Acrofobia tem cura?

Cura é uma palavra forte, mas existem tratamentos eficazes. A escolha depende da compreensão das causas:

  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC) com exposição: técnica consagrada que ajuda o paciente a enfrentar gradualmente locais altos. Boffino observa, porém, que esse tratamento “não trata o fator que origina a fobia, mas sim a expressão comportamental".
  • Reabilitação vestibular: indicada quando há alterações no equilíbrio. O estudo aponta que este tipo de tratamento pode ser eficaz, mas que mais estudos devem ser desenvolvidos

Quando procurar ajuda?

Procure um profissional de saúde mental ou um especialista em equilíbrio quando o medo atrapalhar o trabalho, a vida social ou gerar esquiva persistente. O diagnóstico formal segue critérios do DSM (duração, intensidade e impacto funcional).

A acrofobia é um transtorno que combina elementos psicológicos e fisiológicos. Compreender que parte do problema pode estar no controle do equilíbrio abre caminho para tratamentos mais completos — e muitas vezes mais eficazes. Trabalhar tanto a mente quanto o corpo aumenta as chances de recuperação e de qualidade de vida.

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