GENÉTICA

Tipo sanguíneo ‘híbrido’ aparece em apenas três pessoas e surpreende pesquisadores

Levantamento com 544 mil amostras encontrou uma mutação que desafia métodos convencionais usados em transfusões

Tipagem sanguínea convencional não detectou a mutação que caracteriza o novo fenótipo.Créditos: Reprodução/Pexels
Escrito en SAÚDE el

Uma investigação realizada na Tailândia identificou um tipo sanguíneo até então desconhecido, encontrado em apenas três pessoas entre mais de 544 mil amostras analisadas ao longo de oito anos. A descoberta reacende o debate sobre variantes raras do sangue humano que passam despercebidas nos testes de rotina.

O estudo foi conduzido por uma equipe liderada pela hematologista Janejira Kittivorapart, da Universidade Mahidol, e publicado na revista Transfusion and Apheresis Science. Os pesquisadores analisaram material coletado no Hospital Siriraj, em Bangcoc, e localizaram uma variação inédita do fenótipo B(A), um tipo de sangue B que apresenta níveis mínimos, mas identificáveis, do antígeno A.

Erro de compatibilidade levou ao achado

O ponto de partida da pesquisa foi a investigação de casos em que os resultados dos testes de tipagem sanguínea não coincidiam. Nessas situações, os glóbulos vermelhos indicam um tipo, enquanto o plasma sugere outro, uma discrepância conhecida como incompatibilidade ABO, que pode atrasar transfusões e gerar riscos adicionais ao paciente.

Entre as 544.230 amostras analisadas, apenas 198 apresentaram incompatibilidades reais. Dentro desse grupo, um paciente tinha o fenótipo B(A). O mesmo padrão apareceu em dois doadores, entre quase 300 mil analisados. A frequência estimada é de 0,00055% da população, o que equivale a cerca de uma pessoa a cada 180 mil.

Mutações nunca registradas

Diante da raridade, a equipe sequenciou o gene ABO, responsável por produzir a enzima que define os antígenos dos glóbulos vermelhos. Os cientistas encontraram quatro mutações inéditas, que alteram o funcionamento da enzima e fazem com que o sangue do tipo B apresente discretamente o antígeno A.

Essa pequena interferência é suficiente para confundir os testes tradicionais de tipagem, que classificam o sangue com base na presença ou ausência desses marcadores. Na prática, trata-se de um tipo B com “traços” do tipo A, uma assinatura híbrida difícil de detectar sem análise genética.

Impacto para transfusões e tratamentos

A descoberta não altera protocolos para a população em geral, mas pode ter relevância em situações específicas, como transfusões, transplantes ou tratamentos hematológicos complexos. Nesses casos, variantes escondidas podem levar a reações adversas.

De acordo com os pesquisadores, o achado mostra que o sistema de classificação sanguínea ainda tem lacunas. Isso porque há variantes raras demais para serem detectadas por métodos convencionais. Estudos futuros são essenciais para entender as consequências funcionais dessas alterações. 

Outros tipos raríssimos já foram identificados

Nos últimos anos, a ciência tem registrado novos grupos sanguíneos,  algo antes considerado improvável. Em 2024, pesquisadores finalmente desvendaram um mistério iniciado em 1972 ao descobrir que uma anomalia em uma mulher grávida correspondia a um novo sistema sanguíneo.

Mais recentemente exames de rotina revelaram o chamado “Gwada-negativo”, possivelmente o tipo sanguíneo mais raro já descrito. Na ocasião, os cientistas disseram que a paciente “é a única pessoa no mundo compatível consigo mesma”.

Pesquisas seguem abertas

O caso tailandês do fenótipo B(A) reforça que, apesar de amplamente estudados, os tipos sanguíneos ainda não são totalmente compreendidos. Encontrar três casos entre meio milhão de amostras aponta para a existência de outras variantes que permanecem invisíveis aos testes laboratoriais convencionais. Com informações do portal "Science Alert"

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