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13 de julho de 2018, 19h21

Seleção da França começou a se destacar com a diversidade étnica, diz pesquisador

Na opinião de Irlan Simões, jogadores imigrantes ajudam seleções europeias, mas o racismo e a xenofobia permanecem no continente

A seleção francesa, que conta com muitos jogadores de origem africana, está na decisão da Copa da Rússia – Foto: Wikimedia Commons Depois que o Norte da África e o Oriente Médio sofreram com guerras civis e outros tipos de conflitos, novas diásporas marcaram o mapa mundial e a Europa foi alvo de uma verdadeira onda de imigração. A França, por exemplo, que atuou como colonizadora de inúmeras regiões do Oriente Médio e da África, acabou por criar uma intensa cultura de racismo e xenofobia contra esses imigrantes. O alcance dessa prática alcançou, inclusive, a seleção francesa de futebol. Em...

A seleção francesa, que conta com muitos jogadores de origem africana, está na decisão da Copa da Rússia – Foto: Wikimedia Commons

Depois que o Norte da África e o Oriente Médio sofreram com guerras civis e outros tipos de conflitos, novas diásporas marcaram o mapa mundial e a Europa foi alvo de uma verdadeira onda de imigração. A França, por exemplo, que atuou como colonizadora de inúmeras regiões do Oriente Médio e da África, acabou por criar uma intensa cultura de racismo e xenofobia contra esses imigrantes. O alcance dessa prática alcançou, inclusive, a seleção francesa de futebol.

Em relação à Copa do Mundo da Rússia, esse debate voltou com força, para reforçar a multiculturalidade das seleções europeias. Hoje, a França tem uma legislação que favorece a formação de uma nação multirracial. E o desempenho da sua equipe é muito resultado disso.

O cerne da questão se passa, necessariamente, por temas como história colonial e imigrações pós-coloniais. A análise é de Irlan Simões, jornalista, mestre em Comunicação e que há mais de uma década pesquisa sobre futebol e indústria cultural.

“A França começou a ter grandes resultados esportivos quando sua população se diversificou e quando sua seleção começou a se diversificar etnicamente. Isso não é uma forma fechada, mas é um fato interessante da motivação desses times serem muito mais competitivos do que alguns anos atrás”. Simões aborda essa e outras questões em entrevista para a Fórum.

Fórum – Em que medida a imigração africana e árabe contribuiu para a ascensão técnica das seleções europeias?

Irlan Simões – Como o futebol projeta algumas questões sociais, ele contribui com a explicação, mas nunca consegue explicar sozinho. Por conhecer a vida, a história desses imigrantes e filhos de imigrantes na Europa, com discussões sobre xenofobia e racismo, me chamava muito a atenção e me preocupava como algumas publicações cometiam os mesmos erros de abordagem: a confusão entre nacionalidade e descendência. Há um erro gravíssimo, que é negar a esses jogadores, esses homens, a sua condição de cidadãos europeus. Por exemplo: muitas publicações disseram que, nesta Copa do Mundo, 18 jogadores franceses são africanos. No entanto, se você analisar, claramente são apenas dois. O restante é de descendência africana ou são negros ou filhos de imigrantes, mas são rapazes que cresceram na Europa, em cidades francesas ou belgas, assim como se a Holanda estivesse na Copa haveria essa mesma discussão, que é outro país que tem muito essa diversidade étnica. No entanto, o mais importante é frisar que são jovens que cresceram em cidades europeias, inclusive em bairros pobres, bairros excluídos, bairros de comunidades de imigrantes, em condições difíceis de vida, exatamente por conta da xenofobia e do racismo. Por mais que eles fossem nascidos lá, sempre foram tratados como cidadãos de menor valor. Essa é a grande questão. Voltando ao tema central da pergunta, eu acho que a multiculturalidade nesses países europeus, principalmente os que são mais abertos a esses processos imigratórios, influencia nesses jovens, que, em situação de exclusão e de vulnerabilidade, tendem a procurar formas de ascensão social, onde a cor dele e a origem dele não são a parte mais importante desse processo: o esporte, a arte, a música, o cinema, esses tipos de ambientes, onde a cor importa muito menos do que o talento.

Para o pesquisador Irlan Simões, o racismo está presente no futebol e prejudica muitos jogadores – Foto: Arquivo Pessoal

Fórum – Você quer dizer que não existe racismo no futebol?

Irlan Simões – Isso não quer dizer que não exista racismo no futebol e que o racismo não seja prejudicial a muitos jogadores. Porém, comparando com outros setores sociais, como a disputa de cargos políticos, a disputa de grandes cargos diretivos em empresas multinacionais, a entrada nas universidades, é óbvio que o futebol, para esses jovens, é muito mais acessível do que esses outros setores. Então, é fácil entender os motivos que França, Holanda e Bélgica, mas a França, em uma medida muito maior, se for analisar os números de formação de jogadores, formam tantos negros e árabes no futebol. E não é à toa que boa parte deles, por mais que sejam nascidos na França ou na Holanda, estão jogando no Marrocos, na Tunísia e Senegal, no caso dessa Copa do Mundo. Nas últimas três Copas estamos vendo esse processo também. Eu acredito que a multiculturalidade é muito interessante para o futebol, também porque é um esporte coletivo e, de certa forma, não quer dizer que seja uma regra, que seja um objetivo final, o futebol demanda uma diversidade de tipos físicos para compor um coletivo mais encaixado, digamos assim. Você tem um país onde boa parte da população é muito alta, você tem específicos setores dentro do campo onde uma estatura muito grande é prejudicial, como um lateral, que tem de subir e descer, onde os jogadores bons são os mais baixos, mais ágeis, mais habilidosos. Ao mesmo tempo em que você vai ver a necessidade de ter jogadores altos, como por exemplo, foi o grande problema do Japão nessa Copa. Então, eu acredito que a multiculturalidade para o futebol tem uma funcionalidade muito interessante. Não quer dizer que necessariamente pelo fato de serem negros ou árabes isso vai se reverter em grandes resultados. Agora, de fato, a França começou a ter grandes resultados esportivos quando sua população se diversificou e quando sua seleção começou a se diversificar etnicamente. Isso não é uma forma fechada, mas é um fato interessante da motivação desses times serem muito mais competitivos do que alguns anos atrás.

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Fórum – Ao longo dos anos, vimos exemplos de seleções europeias que apresentavam manifestações de racismo e xenofobia, como Holanda e a própria França. Em 1998, antes de a França ganhar a Copa, Jean-Marie Le Pen disse que não gostava de tantos “estrangeiros” na seleção, se referindo aos negros e descendentes de norte-africanos. Você acha que essa questão já foi superada?

Irlan Simões – Como no futebol, o que importa é a qualidade que você tem no pé, seu talento, mais do que a sua origem, eu acho que o racismo, quanto problema de espaço para o jogador negro ou árabe, na disputa da competitividade, não é preponderante há muito tempo. Na sociedade francesa, não tenho a menor dúvida de que não tem nada superado em relação aos dilemas raciais. Não é à toa que na Europa, como um todo, a extrema-direita tem crescido de forma assustadora. Aí surgem o discurso xenófobo, o discurso racista, o discurso doente de busca de uma nacionalidade pura, que ninguém sabe de onde ela saiu. Ninguém acredita, de fato, que exista pureza em qualquer país europeu, muito pelo contrário. Mas, um ponto que eu acho central nessa discussão, é algo abordado nesse documentário que está em destaque recentemente, o “Les Bleus”, que trata da história da seleção francesa de 1996 até 2016. Pelo depoimento dos próprios jogadores, você percebe que a multiculturalidade daquela seleção campeã de 1998, por mais que ela fosse positiva para dar uma resposta simbólica a essa extrema-direita xenófoba, que crescia com o Jean-Mary Le Pen, ao mesmo tempo foi utilizada de uma forma um tanto maquiadora, de uma superação dos dilemas sociais claríssimos que existiam na França. Então, só porque a seleção era multicultural e bem-sucedida, não queria dizer que a vida dos jovens árabes e negros na França estava resolvida, muito pelo contrário. Duas décadas depois, a discussão segue a mesma. Acho também que é a pressão francesa de estar trazendo esse debate. Este ano, novamente, voltaram a se posicionar sobre isso. A própria Marine Le Pen foi achincalhada nas redes sociais, porque comemorou a classificação da França para a final. O cinismo é tão grande nesse setor político, que ela colocou uma mensagem de comemoração nas redes sociais, para saudar a vitória de uma seleção que ela destruiu, detonou e insultou, pelo fato de ser negra e árabe. Inclusive, ela colocou um emoji de um bracinho branco, fazendo um gesto de força. Então, é muito engraçado como esse debate provoca a hipocrisia. Mas, politicamente, ele é muito delicado, porque é extremamente manipulável e fácil de ser instrumentalizado. Aí, a depender da habilidade que os seus apropriadores estão tendo naquele momento é muito provável que isso reverta em disfunções ainda mais complexas. De fato, o racismo na França está muito longe de ser superado.

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Fórum – Acredita que o mundo globalizado foi responsável por um processo irreversível que transformou a Europa, ou seja, ondas imigratórias das antigas colônias europeias na África e na América mudaram o quadro demográfico do Velho Continente?

Irlan Simões – Eu acho que a gente corre um risco muito grande de estar cometendo um erro com o sinal trocado. Por exemplo, a multiculturalidade da seleção francesa, que de 23 jogadores tem 17 negros ou árabes. Até que ponto isso explica a sociedade francesa como um todo? Aí entra a grande questão. O futebol tem um potencial simbólico muito grande, tem uma capacidade imensa de criar imagens. E não é à toa que tanta gente se utiliza do futebol para criar grandes análises sociológicas, seja para a extrema-direita xenófoba da família Le Pen, seja do ponto de vista mais progressista, que saúda essa multiculturalidade. Então, como estudioso do futebol há dez anos, mas, também, com uma curiosidade imensa de ver o futebol de forma intensa, eu tenho sempre o cuidado e a preocupação de falar para as pessoas: o futebol ajuda a explicar a realidade e contribui para que a gente entenda como as coisas funcionam, mas sozinho ele não explica nada, pelo contrário. Sozinho, ele distorce muito a realidade.

Fórum – O atacante belga Romelu Lukaku, de pais congoleses, disse o seguinte: “Quando as coisas iam bem… eles me chamavam de atacante belga. Quando as coisas não iam bem, eles me chamavam de atacante belga de ascendência congolesa”. Isso representa uma espécie de reação ao preconceito ainda presente?

Irlan Simões – O caso do Lukaku é emblemático, porque não é por ser um jogador que está em grande fase agora, por mais que tenha sido contestado durante a carreira, mas também porque ele expõe, de forma muito interessante, o próprio posicionamento dele, que não é tão comum. Talvez as pessoas achem que a vida de jogador de futebol é muito fácil. O cara ganha milhões, tem a vida resolvida, digamos assim, tem prestígio, fama, tudo que ele precisa. Mas não quer dizer que o racismo não atinja esses rapazes. Então, essa fala do Lukaku, de fato, resume muito. Seleção nacional, há muito tempo, basicamente, não representa nada em termos de nacionalidade. O mundo hoje não tem qualquer condição de ficar exaltando nacionalidade, as fronteiras estão cada vez mais fluidas, os fluxos imigratórios são imensos, a própria ideia de nação na Europa foi muito contestada, porque havia uma demanda política e econômica de formar um bloco europeu. Então, a ideia de ser europeu fazia parte da necessidade de quebrar essa ideia de nação. Inclusive, falando também dos traumas europeus, como guerras e genocídios, que foram causados por um grande equívoco de se interpretar o nacionalismo como fundamento da sociedade.

Fórum – Você acha que a Europa reluta em se abrir para essas questões?

Irlan Simões – Eu acho que o caso de Lukaku é interessante por causa disso. Por mais que aparentemente a Europa ocidental esteja se abrindo para essa multiculturalidade, no fim da discussão, sempre vão julgar um cara como Lukaku, ou, por exemplo, um marroquino como Chadli ou outro marroquino como Fellaini, pela sua origem. São todos belgas, nascidos e criados na Bélgica. Porém, são árabes ou são negros. Então, sempre serão julgados, em qualquer circunstância, pela sua cor ou sua origem. O que é algo que aconteceu muito no Brasil também. Se você puxar o caso de Barbosa, goleiro da seleção na Copa de 1950, vai ver que ele ficou muito marcado por ser o goleiro “preto, que fazia merda na entrada ou na saída”, o que é uma grande marca do racismo à brasileira. Não são a mesma história, porque são sociedades totalmente distintas. Porém, você sempre vai perceber que a questão racial está imbricada nessa ideia do desempenho esportivo, da vitória e das derrotas. Quando o Le Pen, por exemplo, fala de forma incisiva que não concorda com a multiculturalidade da seleção francesa, ele também quer dizer isso. Mas, óbvio, ele só vai aparecer na hora das derrotas. Na hora das vitórias, ele não vai colocar a multiculturalidade como tema central dessa discussão sobre o desempenho esportivo da seleção francesa. É aquela questão: queira ou não queira, por mais que um jogador de futebol tenha uma vida muito diferente de um cidadão comum, principalmente de origem negra ou árabe na Europa ocidental, eles também são muito atingidos por essa realidade.

Além de jogarem juntos na seleção da Bélgica, Fellaini e Lukaku atuam na mesma equipe: o Manchester United – Foto: Reprodução/YouTube

Fórum – Uma das frases mais usadas por pessoas que estudam o tema é: O futebol é um reflexo da sociedade. Você acredita nessa afirmação?

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Irlan Simões – É importante colocar esses sistemas em xeque. Esses movimentos ultranacionalistas europeus têm crescido muito. São anacrônicos e, ao mesmo tempo, extremamente preocupantes, porque são reais, são fortes e as ondas imigratórias são cada vez maiores. O fato de o futebol ajudar a explicar todo esse contexto coloca algumas questões centrais: a importância de se entender o que o futebol representa; de compreender, também, a dinâmica interna do futebol e, por outro lado, a responsabilidade de a gente perceber que esses estudos de futebol têm sempre de estar permeados por outros saberes. Eu acho que nesse caso específico, os estudos decoloniais, históricos, do que foi a colonização europeia na África – a República Africana não tem sequer 100 anos – contribuem muito para esse entendimento. E esse processo de globalização, de movimentação fácil de informação e dinheiro também significa movimentação fácil de corpos, de mão de obra, de trabalhadores. Isso tudo tem de estar colocado no mesmo balaio. A discussão não pode se perder em projeções, em demasiados simbolismos. Entender o futebol em sua estrutura, enquanto indústria cultural, global e monstruosa é fundamental. Eu digo isso porque nesse processo de discussão sobre imigrações e escolhas de seleções para jogar, uma das coisas mais importantes, talvez a crucial, é entender que ser jogador de futebol hoje é um certo privilégio. Não é qualquer pessoa que pode escolher jogar em uma seleção. O primeiro critério para ser jogador de futebol é ser bom. Estamos falando de uma pequena parcela da população que joga futebol, e uma pequena parcela de jogadores profissionais que têm qualidade suficiente para jogar em alto nível em uma Copa do Mundo. Ou seja, não estamos falando de um recorte social amplo o suficiente para transformar isso em uma explicação sociológica. Estamos falando de vidas específicas, que têm histórias específicas, trajetórias específicas, que podem explicar melhor isso. Como entusiasta dos estudos do futebol, eu acho que isso tem de estar em mente. O futebol é muito interessante, mas não vai andar sozinho e tratar com seriedade como as coisas funcionam no futebol, permite entender esses processos, que são crescentes hoje em dia, de uma forma muito mais clara e sem demasiados simbolismo e instrumentalização política. Ajuda muito a entender o mundo que a gente vive, mas precisa desse suporte das ciências humanas como um todo.

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