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04 de fevereiro de 2019, 17h46

Sérgio Moro e a decadência intelectual das elites

Dennis de Oliveira, em novo artigo, diz que Moro é “uma celebridade que não tem nenhum estofo acadêmico, pelo contrário. Ele e seus companheiros da República de Curitiba são intelectualmente medíocres”

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O ministro da Justiça Sérgio Moro exprime a decadência intelectual de parcela da sociedade brasileira, em especial a classe média e alta. No início do século XX, as elites brasileiras, ainda imbuídas de um viés aristocrático da recém-abolida monarquia, admiravam o eruditismo e as belas artes que funcionavam como lenitivos morais das práticas desumanas realizadas nas relações de trabalho no campo e nas industrias, baseadas no racismo mais cruel. Ao mesmo tempo que exploravam brutalmente trabalhadoras e trabalhadores e defendiam políticas eugenistas, admiravam a produção artística europeia, em especial da França.

Em 1934, as elites paulistas financiaram a construção da Universidade de São Paulo, uma instituição que buscava recuperar o prestigio do Estado por meio da formação de uma intelegentsia local com a participação de intelectuais europeus.

Um pouco antes, em 1922, parcela das oligarquias cafeeiras apoiou o movimento do modernismo brasileiro, a despeito das posições progressistas de grande parte dos seus expoentes.

Um exemplo marcante desses tempos foi o empresário Assis Chateaubriand, dono do maior conglomerado midiático daquela época. O seu conhecido estilo truculento não o impediu de dar impulso ao projeto de construção do Museu de Arte de São Paulo (MASP), arrecadando fundos com uma série de empresários brasileiros.

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A truculência das classes dominantes, expressa na superexploração de classe que caracteriza o capitalismo brasileiro, passou a ser pintada com cores de erudição mais recentemente com a admiração pelo “príncipe” Fernando Henrique Cardoso e toda sua trupe. Apesar de grande parte dos seus admiradores não conhecerem a fundo sua obra, este deslocamento da figura do intelectual para a de celebridade é a marca dos tempos mais recentes. Entretanto, no início foi um processo de colonização de figuras que fizeram sua carreira nas estruturas acadêmicas para as lógicas midiáticas. Por isso, o autor da teoria da dependência vira a celebridade que chama as críticas ao seu governo de “nhem-nhem-nhem” (clique aqui para ver).

E Sérgio Moro completa este ciclo como uma celebridade que não tem nenhum estofo acadêmico, pelo contrário. Ele e seus companheiros da República de Curitiba são intelectualmente medíocres, o pretenso embasamento da sua atuação na Operação Mãos Limpas é contestada pelo próprio magistrado italiano (clique aqui) e a sua participação em um governo que tem a marca de um teatro de absurdos (com um ministro das Relações Exteriores paranoico, que vê comunismo em todo lugar, e um outro que acusa um jornalista da Globo de ser agente da KGB) coroa sua trajetória de querer ser uma “atenuante racional” de uma onda de imbecilidade que tomou conta do país.

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É com este “capital simbólico” que o ex-magistrado quer ter a legitimidade para propor um Pacote Anticrime, cujo centro é punitivista, aumenta demasiadamente o poder de interpretação de juízes e coloca no primeiro ponto a sua obsessão em garantir a prisão de Lula, ao querer regulamentar a prisão em segunda instância. Nada, nesse pacote, que trata da efetiva aplicação da Lei Maria da Penha (como, por exemplo, a obrigatoriedade do funcionamento das delegacias da mulher, implantação de centros de referência e casas de passagem, entre outros) ou da Lei Caó. O maior problema para Moro são os crimes contra o patrimônio, expressando o pensamento de setores mais conservadores.

Apesar de vários indicadores mostrarem que existe uma violência dos agentes policiais de forma desmedida, ao invés de aperfeiçoar os mecanismos de controle das forças de segurança, ele propõe atenuantes para eventuais casos de homicídios praticados por policiais (clique aqui).

Os aristocratas do início do século enchiam a boca para falar francês, Moro prefere empolar a voz para introduzir o “plea bargain”, instrumento de barganha do condenado quando ele confessar o crime. Este anglicismo vai ao encontro dos seus defensores que argumentam que ele é capacitado “porque fez vários cursos nos EUA” (sic). Afinal, muitos dessa turma se regozijam com o desejo (ou a sua realização) de fazer compras em Miami –  que entrou no lugar dos sonhos da aristocracia do início do século XX que era visitar os museus em Paris, ou do próprio Fernando Henrique Cardoso que fala sempre dos seus tempos na Sorbonne.

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Fim das perspectivas civilizatórias do capitalismo, como diz Mandel? Ou a democratização da imbecilidade proporcionada pelas redes sociais, conforme afirma Umberto Eco?

Fica para pensar.

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