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15 de fevereiro de 2018, 17h39

A série Orange is The New Black e o caos das privatizações

O drama de Piper Chapman e suas colegas presidiárias é o mesmo que se alastra em todo o mundo e não só em presídios

Quem assiste a série americana ‘Orange is The New Black’ desde o começo quase nem se lembra mais que a sua protagonista principal foi a personagem Piper Chapman, interpretada pela atriz Taylor Schilling. Uma sucessão de fatos reveladores e uma explosão étnica poucas vezes vista nas TVs, reverteram a narrativa de tal forma, que a loirinha abastada que cai num presídio de segurança mínima por se envolver com tráfico de drogas foi quase que para o esquecimento. E não se trata de falta de talento nem da atriz tampouco do roteirista. O fato é que, de caso pensado e previsto...

Quem assiste a série americana ‘Orange is The New Black’ desde o começo quase nem se lembra mais que a sua protagonista principal foi a personagem Piper Chapman, interpretada pela atriz Taylor Schilling. Uma sucessão de fatos reveladores e uma explosão étnica poucas vezes vista nas TVs, reverteram a narrativa de tal forma, que a loirinha abastada que cai num presídio de segurança mínima por se envolver com tráfico de drogas foi quase que para o esquecimento.

E não se trata de falta de talento nem da atriz tampouco do roteirista. O fato é que, de caso pensado e previsto ou não, a série pulou da história de uma cinderela às avessas para a vida real na quarta temporada, que estreou em 2016.

O estopim de tudo foi a privatização do presídio de Litchfield. A empresa que passa a administrar o local, até então uma prisão modelo, com atividades para as detentas, espaço satisfatório e asseado e comida decente, transforma o local num inferno, pra dizer o mínimo.

A superlotação acirra a briga de gangues e, sobretudo, o conflito étnico. O que era uma comédia passa a ser um drama com a corda esticada, tensão permanente e um ou outro esquete cômico. A série, que chegou a ser referência para lésbicas e bissexuais – Lea DeLaria, que faz a hilária Big Boo, veio, em 2016, para a Parada Gay de São Paulo – tendo à frente conflitos amorosos, vira quase um thriller policial.

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A coisa se acirra a tal ponto que a temporada seguinte, apresentada em 2017 e, até agora a mais recente, se passa totalmente com o presídio rebelado. Cenas de violência, uso de drogas e disputas se tornam mais frequentes. Tudo fica muito mais sombrio e infeliz. O ambiente se deteriora rapidamente e de forma visível. A imundice toma conta do espaço, a iluminação diminui, a comida fica intragável e o espectador fica entre fascinado pela nova trama e enganado pela transformação.

No caso de ‘Orange is The New Black’, a arte imitou a vida. Os presídios americanos foram privatizados na década de 80, em uma onda que arrastou o mundo, jogando serviços essenciais nas mãos do mercado. O resultado, os próprios americanos se deram conta trinta anos depois, foi devastador. Tanto assim que, no mesmo momento em que o fictício presídio da série era privatizado, em 2016, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciava o final do projeto.

Conforme matéria da BBC, um relatório do Office of Inspector General (divisão de fiscalização do Departamento de Justiça) concluiu que é preciso melhorar a fiscalização e revelou que as prisões privadas registram mais casos de agressões, contrabando e motins, além de oferecerem menos serviços de reabilitação, como programas educacionais e de treinamento profissional.

O documento cita motins provocados pela má qualidade da comida e de atendimento médico e incidentes nos últimos anos que “resultaram em amplos danos a propriedade, ferimentos e a morte de um agente penitenciário”.

A mudança será gradual. O Departamento de Justiça instruiu sua agência responsável pela administração do sistema federal de prisões, o Bureau of Prisons, a não renovar os contratos com empresas privadas que começarem a vencer ou, nos casos em que ainda seja necessária renovação, reduzir “substancialmente” o número de leitos previstos. Leia mais sobre o assunto em matéria de agosto de 2016, na BBC.

Caso o deputado federal Jair Bolsonaro vença as eleições presidenciais de 2018, uma das suas primeiras medidas, conforme já anunciou inúmeras vezes, seria fazer um teste de privatização com os presídios brasileiros.

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A volta ao passado do que não deu certo em diversos países desenvolvidos também não deu por aqui. O assunto é velho. Texto da Rede Brasil Atual relembra: Foi pauta, como se pode imaginar, no governo do então presidente Fernando Henrique Cardoso, período em que o encarceramento em massa foi insuflado no país. Na década de 1990, havia cerca de 90 mil presos, e hoje são quase 700 mil.

A Umanizzare, empresa que administra o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, expôs ao mundo a arapuca do modelo neoliberal de encarceramento privado, com 56 presos mortos e mais de 180 foragidos depois de 17 horas de rebelião. Para saber mais, leia texto de Tuga Martins, na Rede Brasil Atual.

O mundo, apesar de complexo e dramático, funciona quase que numa mesma ciranda, onde o drama da personagem Piper Chapman se confunde com tantos outros de todas as partes. A entrega parcial ou total de serviços que devem ser executados com eficiência pelo Estado, à iniciativa privada, joga o foco para todas as partes, menos no cidadão.

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O jogo de tentativa e erro tem custado muitas vidas e não parece querer parar. A próxima truculência deverá ser a entrega da previdência brasileira ao mercado.

E ele não está nem um pouco preocupado com os nossos velhinhos.

 

 

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