Outrofobia

28 de agosto de 2014, 23h10

sou mulher, me deixe falar!

a bancada do jornal nacional é um microcosmo do sexismo: o apresentador e editor-chefe interrompeu as candidatas mulheres quatro vezes mais do que os homens. alguém ficou surpresa?

quando comecei a dar palestras e cursos, notei uma tendência de ser interrompida por homens durante a minha fala. embora eu incentive as perguntas durante qualquer apresentação que faça, a interrupção de uma frase no meio do caminho costuma ser feita por pessoas do gênero masculino. mas só fui parar para pensar melhor neste assunto quando outras mulheres, que também dão palestras ou aulas, comentaram que o mesmo acontecia com elas.

nem todos os estudos sobre interrupção com o corte de gênero são conclusivos. além do provável sexismo nesta atitude (primeiramente levantado por zimmerman e west) também é preciso considerar diferenças sociais, de idade e temperamento. mas foi pensando nessas questões que resolvi, só por curiosidade, analisar com mais cuidado as entrevistas realizadas com presidenciáveis no jornal nacional. vamos aproveitar que temos duas mulheres no páreo dessas eleições, algo inédito! o resultado está abaixo:

 

entrevista do jornal nacional com presidenciáveis – interrupções

interr-1

william bonner interrompeu homens 10 vezes e mulheres 40 vezes. foram 4 vezes mais interrupções. já patrícia poeta interrompeu homens 9 vezes e mulheres 19 vezes, praticamente o dobro de interrupções (este artigo explica que mulheres também interrompem mais mulheres, levando em consideração a perpertuação do sexismo pelas próprias vítimas.)

houve também um caso em que bonner interrompeu sua colega poeta, e o contrário não aconteceu.

veja que, no caso das entrevistas com candidatos, bonner e poeta interromperam em uma mesma proporção – o que impede de considerarmos que bonner interrompeu mais pois ser o chefe. durante as entrevistas com candidatas, bonner interrompeu o dobro de vezes que sua colega.

embora eu tenha notado, ao assistir as entrevistas, que a atual presidenta dilma havia sido bastante interrompida, eu não havia percebido a grande diferença em comparação com as entrevistas realizadas com candidatos homens. a presença da candidata marina, também mulher, fez ser possível diferenciar a questão partidária da questão de gênero.

a amostra continua pequena. mas vamos lembrar que o brasil está em 68º lugar no quesito “participação política” do relatório global sobre desigualdade de gênero do world economic forum – com um fator de 0.1440 sendo que a igualdade de gênero é considerada no fator 1.

talvez, ao invés de interromper nossas mulheres, devêssemos dar mais poder a elas.

usei como amostra as quatro entrevistas feitas com as pessoas com mais chances durante suas entrevistas (segundo pesquisas de intenção de voto): aécio neves, eduardo campos, marina silva e dilma roussef. tentei, desta forma, manter o mesmo status dentre as candidaturas entrevistadas, isolando ao máximo o corte de gênero. contei absolutamente toda interrupção, inclusive aquelas reincidentes (logo depois uma da outra). não contei interrupções feitas depois do tempo definido para a entrevista, pois essas foram obrigatórias – avisando a pessoa que o tempo havia acabado.

a análise foi feita por curiosidade, sem fins nem rigor científicos. me inspirei nessa autora que resolveu contar as interrupções de crianças brincando no parquinho.

abaixo os números de cada entrevista:

interr-2

aécio / b: 5 / p: 2 • eduardo / b: 5 /p: 7 • marina/ b: 16 / p: 11 • dilma / b: 24 /p: 8

a imagem destacada é da cartunista egípcia doaa eladl. aqui ela conta sobre como é difícil ser mulher e cartunista no seu país.

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