O desabafo de uma professora – Por Luciana Oliveira
As crianças e os adolescentes não têm nada a ver com a incompetência e a crueldade de quem nos (des)governa
A gente passa o ano inteiro assistindo às manobras de um sistema que trabalha diariamente para nos adoecer, nos cansar e nos fazer esquecer o que realmente importa.
Se crescem por meio de números, gráficos e estatísticas de provas externas para justificar app superfaturado, e a gente que lute com essas avaliações e plataformas que prometem modernidade, mas só desumanizam e reafirmam, na prática, que o mesmo sistema que cobra, falha miseravelmente!
Fingem que se importam com a gente e com a molecada, mas nós sabemos a verdade.
Ainda assim, tem dias em que o cansaço bate forte, a injustiça pesa, a autoestima afunda e a vontade é de largar mão mesmo, fazer o básico e dane-se.
Mas aí lembramos qual é a matéria-prima do nosso trabalho. Lembramos que um dia fomos nós ali, tentando fazer alguma coisa dar certo nessa p*, mas atrasadas porque eles nunca operam a nosso favor. Não querem que a gente saia saudável, lúcida ou pronta pra enfrentar nada do que precisa.
Então, a gente levanta cansada mesmo e faz o corre certo. Mesmo com pouca ajuda (é nóis por nóis sempre), mesmo sem estrutura, mesmo com um sistema que insiste em desmontar todo o processo histórico que fez, a passos curtos, a educação caminhar - basta ler o Currículo da Cidade (SP), escrito a muitas mãos, citando Milton Santos logo de cara para falar de território, e dando a maior letra de como sustentar uma educação pública de qualidade, por exemplo.
As crianças e os adolescentes não têm nada a ver com a incompetência e a crueldade de quem nos (des)governa. É por isso que ficamos, que inventamos, que resistimos e teimamos. Não tem nada a ver com amor pelo trabalho. É sobre luta pela igualdade.
Eu faço o que faço por esse motivo. Ouço muitas críticas o tempo todo, mas não vou parar. Que a gente encontre jeitos de enfrentar tudo isso sem que as crianças e os adolescentes tenham que pagar a conta!
“Tentaram, mas não vão nos calar
Tu sabe, nada vai nos parar
É treta, mas vamos prosseguir
Somos Chico, Sabotage e Zumbi
É tempo de geral se organizar
Juntar a menorzada que é pra desorganizar
Sangue e suor, meu chapa, de um povo inteiro, que mesmo cheio de dor
Levanta pra trabalhar e vai lá”.
*Luciana Oliveira é professora da rede municipal de Santos.
**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.