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24 de fevereiro de 2015, 10h20

“Temos que protestar contra tentativa de intimidação dos blogueiros”, diz Miguel do Rosário

Processado pelo diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, autor do blog O Cafezinho denuncia como a mídia e o judiciário atuam contra a liberdade de expressão

Processado pelo diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, autor do blog O Cafezinho denuncia como a mídia e o judiciário atuam contra a liberdade de expressão Por Adriana Delorenzo Miguel do Rosário: mídia e judiciário atuam contra blogueiros (Divulgação) Na última sexta-feira (20), Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho, divulgou uma carta onde afirma que a “a liberdade de expressão está em risco”. O blogueiro foi condenado pela justiça, em segunda instância, a pagar R$ 20 mil a Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Rede Globo. Com os custos judiciais, a quantia chega a R$ 30 mil, e...

Processado pelo diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, autor do blog O Cafezinho denuncia como a mídia e o judiciário atuam contra a liberdade de expressão

Por Adriana Delorenzo

(Divulgação)

Miguel do Rosário: mídia e judiciário atuam contra blogueiros (Divulgação)

Na última sexta-feira (20), Miguel do Rosário, do blog O Cafezinho, divulgou uma carta onde afirma que a “a liberdade de expressão está em risco”. O blogueiro foi condenado pela justiça, em segunda instância, a pagar R$ 20 mil a Ali Kamel, diretor-geral de Jornalismo da Rede Globo. Com os custos judiciais, a quantia chega a R$ 30 mil, e deverá ser paga com ajuda dos internautas e da blogosfera.

O motivo do processo foi um artigo publicado no blog, onde Rosário critica o jornalismo da concessão pública e utiliza os adjetivos “reacionário” e “sacripanta” contra Kamel. Para Rosário, a emissora faz ataques muito piores a políticos como Dilma e Lula.

Em entrevista à Fórum, o blogueiro afirma que há “uma censura política” no país e diz que os blogs promovem a democracia no Brasil.

Fórum – Qual é o precedente dessa decisão judicial para a liberdade de expressão?

Miguel do Rosário – O meu caso segue uma jurisprudência lamentável. Blogueiros e ativistas digitais têm perdido processos na justiça com frequência, ao mesmo tempo em que grandes veículos têm vencido o mesmo tipo de processo. Há uma desigualdade gritante e inexplicável do Judiciário brasileiro.

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Criou-se uma espécie de censura política. Opiniões progressistas, incômodas ao mainstream, críticas à mídia, são criminalizadas. Opiniões reacionárias, antipolíticas, na linha do que a mídia vem fazendo, são liberadas.

Por isso a importância de uma regulamentação de mídia, porque estamos hoje no pior dos mundos.

Por isso a democratização da mídia significa dar liberdade, e não trazer censura, como tenta vender a mídia corporativa.
Indivíduos e empresas vivem uma eterna insegurança política, podendo ser atacados por uma mídia sem limites e com carta branca do Judiciário (que aliás também é achacado e cúmplice  dela, da mídia).

Já as mídias pequenas, que são a essência do pluralismo político, estão sendo amordaçadas por um Judiciário pusilânime e submisso em relação ao poder econômico e político.

Fórum – Você tem criticado a decisão, denunciando a “arbitrariedade da justiça”. Como arbítrios da justiça contra blogueiros e jornalistas poderiam ser evitados?

Miguel do Rosário – Com política. É preciso fazer campanhas de esclarecimento.  É preciso se insurgir contra isso. O poder emana do povo, e o povo somos nós. Temos que protestar contra essa tentativa sistemática de intimidação dos blogueiros. A grande mídia, naturalmente, é a principal culpada, porque ela finge que os blogs não existem, e quando os citam, é para tentar prejudicá-los.

Para a grande mídia, o único blogueiro que presta é aquela cubana que recebe dinheiro dos EUA e dos grandes grupos mundiais de mídia para falar mal do governo cubano.

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Fórum – Como está sendo a solidariedade da blogosfera e internautas diante dessa situação?

Miguel do Rosário – Muito efetiva, conforme eu já esperava. A solidariedade da blogosfera e dos internautas é um fenômeno extraordinário. Isso explica, aliás, muita coisa. Explica a derrota da direita nas eleições presidenciais, mesmo com toda a grande mídia fazendo campanha demolidora contra os governos Lula & Dilma. Creio que não terei nenhuma dificuldade para pagar a indenização judicial concedida ao Ali Kamel. Lembrando que ele queria 45 mil reais. Eu consegui reduzir para 15 mil na primeira instância, e ele conseguiu subir isso para 20 mil na segunda instância, porque “protestei” no blog e os advogados de Kamel disseram que eu fiz pouco caso.  Não é verdade. Na verdade, eu fiz uma besteira que me custou esses 5 mil. Quando saiu o resultado da primeira instância, eu escrevi um post com um título matador: “Justiça reduz honra de sacripanta para 15 mil”, algo assim. Eu estava muito revoltado. Meu advogado me ligou desesperado, e eu mudei o título, mas já era tarde demais. Havia esquecido que liberdade de expressão, no Brasil, é só para ricos e poderosos…

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Fórum – Na carta aberta, você destaca as dificuldades dos blogs se manterem, ao mesmo tempo em que são importantes para a pluralidade informativa. Como resolver esse impasse?

Miguel do Rosário – Os blogs são fundamentais. É uma questão complicada, porque o mercado de publicidade segue completamente amordaçado pelo monopólio midiático. O famigerado BV, que serviu para condenar Pizzolato (só com ele foi crime) prende as agências com correntes de ouro puro, que elas adoram.

Na minha  opinião, é preciso política pública. Para isso serve o Estado, para promover a democracia e o pluralismo político. O governo dos EUA gastou 2 trilhões de dólares e mataram um milhão de iraquianos para “promover a democracia” no Iraque.  Por que o nosso governo não pode gastar um pouquinho, sem matar ninguém, para promover a democracia no Brasil? Reduz o dinheiro dado à grande mídia, e cria uma cláusula democrática na distribuição de verbas públicas, obrigando as agências que trabalham com o governo a anunciarem em mídias alternativas. Claro que a mídia não vai gostar. Mesmo chupando 99% de toda a verba publicitária de governos, estatais e órgãos públicos em geral, a mídia faz um terrível escarcéu quando descobre que um ou dois sites receberam merrequinha de uma prefeitura obscura tocada por um partido de esquerda qualquer.  É duro. Para eles, pode tudo, milhões e milhões. Para os outros, nada.

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